Contos

1982, Barcelona

sexta-feira, 4 de julho de 2008 Texto de

Tanto tempo se pas­sou! O jo­vem que eu era já se trans­for­mou ape­nas numa viva re­cor­da­ção de mi­nha me­mó­ria, hoje te­nho fi­lhos que na­mo­ram e pla­ne­jam en­trar na fa­cul­dade, meu ca­sa­mento nem sei quan­tos ani­ver­sá­rios com­ple­tou. Mas as­sim mesmo não se põe um dia sem que aque­las ima­gens pai­rem, ní­ti­das, di­ante de meus olhos. Pri­meiro, o zu­nido do vento breve e vi­o­lento; de­pois, o sol in­su­bor­di­nado e ve­loz; e por fim, o ter­rí­vel ruído guin­chando em nos­sos ou­vi­dos, ao mesmo tempo em que so­bre nos­sas ca­be­ças o céu se fe­cha abrupto, como se fosse nos tra­gar atra­vés de suas bru­mas, e es­tas num só ins­tante se tor­nam breu. O que houve de er­rado para que só a mim, en­tre tan­tos ou­tros, res­tasse a lem­brança? Não di­zem que so­mos pe­ças de uma grande en­gre­na­gem? Quan­tas ve­zes uma só peça, por mais in­sig­ni­fi­cante que seja, com­pro­mete toda a má­quina? É como penso: sou uma peça as­sim.

Em 1978, eu ti­nha 16 anos. Quando a Copa do Mundo es­tava para co­me­çar, ha­via uma cer­teza em mi­nha mente: qua­tro anos mais tarde, eu fa­ria de tudo para es­tar lá, vendo os jo­gos das ar­qui­ban­ca­das. No Bra­sil, boa parte dos ga­ro­tos, acho que a mai­o­ria, adora fu­te­bol. Co­migo não foi di­fe­rente. Eu es­tava pouco me li­xando para os pro­ble­mas po­lí­ti­cos da Ar­gen­tina, sob di­ta­dura mi­li­tar, na­quela época da maior com­pe­ti­ção fu­te­bo­lís­tica do mundo. A bola ro­lando é que me in­te­res­sava. Acom­pa­nhei to­dos os jo­gos pela te­le­vi­são e pelo rá­dio. A Copa da Ar­gen­tina foi o co­meço da mi­nha con­ta­gem re­gres­siva para o Mun­dial da Es­pa­nha, re­a­li­zado qua­tro anos de­pois. Com o apoio de meu pai, juntei-me a um grupo de bra­si­lei­ros que pro­cu­rou se pro­gra­mar com uma grande an­te­ce­dên­cia para a ex­tra­or­di­ná­ria ex­cur­são à Eu­ropa. Em 1982, lá fo­mos nós para a be­lís­sima terra dos es­pa­nhóis. Bom, acho que an­tes de me adi­an­tar nes­tas li­nhas, devo di­zer que, em­bora o fu­te­bol seja o res­pon­sá­vel pelo de­sen­ca­de­a­mento do epi­só­dio que pre­tendo re­la­tar, não é ape­nas de fu­te­bol que se trata. An­tes fosse, eis meu de­sejo, pois o que me acon­te­ceu sob aquele sol es­cal­dante de meio de ano da Pe­nín­sula Ibé­rica, só agora, vinte e tan­tos anos mais tarde, é que me dis­po­nho a nar­rar, e mesmo as­sim, sob este meu pseudô­nimo: Pa­olo (os que se lem­bram do dia 5 de ju­lho de 1982, quando a Itá­lia der­ro­tou o Bra­sil na cha­mada “Tra­gé­dia do Sar­riá”, com­pre­en­de­rão este “Pa­olo”).

Mesmo que o as­pecto cru­cial desta his­tó­ria não seja um lance do fu­te­bol, pre­ci­sa­rei ex­pli­car, ao me­nos por alto, os con­tor­nos sob os quais se pin­tava a nu­me­rosa tor­cida bra­si­leira pre­sente aos jo­gos de nossa se­le­ção. Aquele time, co­man­dado pelo téc­nico Telê San­tana, jo­gava um fu­te­bol vis­toso, ofen­sivo, ale­gre, as­sim como to­dos nos en­con­trá­va­mos na­que­les dias en­tre ju­nho e ju­lho na Es­pa­nha. Para nós, di­fi­cil­mente o Bra­sil dei­xa­ria de le­van­tar o te­tra­cam­pe­o­nato. Com uma pro­gra­ma­ção pre­vi­a­mente acer­tada, mi­nha ex­cur­são pro­cu­rou acom­pa­nhar ba­si­ca­mente os jo­gos do grupo do Bra­sil, for­mado tam­bém pe­las equi­pes da en­tão União So­vié­tica, da Es­có­cia e da Nova Ze­lân­dia. Per­ma­ne­ce­mos em Se­vi­lha, na­quela An­da­lu­zia muito sim­pá­tica e hos­pi­ta­leira. Mesmo res­pi­rando fu­te­bol, nós apro­vei­ta­mos tam­bém para co­nhe­cer lo­cais his­tó­ri­cos, como o Cas­telo de Al­cá­zar, que data do sé­culo 14. Tam­bém fo­mos vá­rias ve­zes à torre da Ca­te­dral de Se­vi­lha, de onde se pode ter uma be­lís­sima vi­são pa­no­râ­mica da ci­dade a mais de ses­senta me­tros de al­tura. Essa ca­te­dral tem uma his­tó­ria in­te­res­sante. Sua cons­tru­ção, em es­tilo gó­tico, tem ori­gem numa mes­quita er­guida pe­los mou­ros. Pos­te­ri­or­mente, foi re­for­mada e am­pli­ada pe­los reis ca­tó­li­cos, mas man­teve tra­ços da an­tiga edi­fi­ca­ção. Os pon­tos mais atra­ti­vos, en­tre­tanto, são suas ca­pe­las, que tra­zem pin­tu­ras de Mu­rillo e Goya. Foi numa des­sas que eu me ajo­e­lhei an­tes da es­tréia do Bra­sil e su­pli­quei por uma con­quista que, na ver­dade, to­dos nós con­si­de­rá­va­mos como certa. Logo de­pois de dei­xar­mos nosso ho­tel, na Plaza de los Ve­ne­ra­bles, en­con­trá­va­mos ou­tros tor­ce­do­res bra­si­lei­ros e ru­má­va­mos para o es­tá­dio. A festa era mag­ní­fica. A mai­o­ria dos tor­ce­do­res es­pa­nhóis en­gros­sava nosso coro du­rante as par­ti­das. Na pri­meira fase, ven­ce­mos to­dos os nos­sos ad­ver­sá­rios, ga­ran­tindo o pri­meiro lu­gar do grupo. Por isso, a se­le­ção dei­xou Se­vi­lha e foi se ins­ta­lar em Bar­ce­lona. Claro, nós fo­mos atrás.

Por sorte, ar­ru­ma­mos um ho­tel em Las Ram­blas, uma rua de agi­ta­ção de­li­ci­osa, cu­jos ba­res e res­tau­ran­tes vi­vem cheios de tu­ris­tas e que na­quela época de Copa do Mundo fer­vi­lha­vam ainda mais. Já vol­tei duas ve­zes a Bar­ce­lona a tra­ba­lho, mas o pri­meiro im­pacto foi im­pres­si­o­nante. Ver de perto a ar­qui­te­tura de Gaudí é algo ex­tra­or­di­ná­rio. Às ve­zes, co­nhe­cendo suas obras, que se es­pa­lham por toda a ci­dade, eu co­me­tia o sa­cri­lé­gio de me es­que­cer da pró­pria Copa. Numa des­sas oca­siões, nós vi­si­tá­va­mos a Ca­te­dral Sa­grada Fa­mí­lia, que se as­se­me­lha a uma cons­tru­ção feita com areia mo­lhada de uma praia qual­quer. Em se­guida, para pa­gar meu pe­cado, tam­bém ali re­zei pela nossa se­le­ção, que agora in­gres­sava numa fase aguda da com­pe­ti­ção. Três em­ba­tes de in­tensa ri­va­li­dade com­pu­nham a chave bra­si­leira na­quela se­gunda fase. Pela or­dem, jo­ga­riam Itá­lia x Ar­gen­tina; Bra­sil x Ar­gen­tina; e Bra­sil x Itá­lia. No pri­meiro du­elo, os ita­li­a­nos le­va­ram a me­lhor: 2 a 1. Os bra­si­lei­ros tam­bém ven­ce­riam os ar­gen­ti­nos pou­cos dias de­pois, e me­lhor ainda, por 3 a 1, o que lhes per­mi­ti­ria a van­ta­gem de jo­gar ape­nas por um em­pate con­tra a Itá­lia para se­guir adi­ante. Aliás, aquela par­tida era con­si­de­rada como uma es­pé­cie de fi­nal an­te­ci­pada do Mun­dial. E essa pre­vi­são, a his­tó­ria mos­trou, não es­tava equi­vo­cada. A Itá­lia, que ven­ceu o jogo, mar­chou firme até a fi­nal e con­quis­tou a Copa. Bom, mas o que de­sejo re­ve­lar acon­te­ceu ainda no Es­tá­dio Sar­riá, em Bar­ce­lona, e foi du­rante o fa­tí­dico Bra­sil x Itá­lia, em que Pa­olo Rossi fez três gols e man­dou os bra­si­lei­ros de volta para casa. Tudo isso, en­tre­tanto, po­de­ria ter aca­bado de ou­tro modo.

DUAS HORAS ANTES DO JOGO

Ao lado de três co­le­gas de vi­a­gem, dei­xei o ho­tel onde es­tá­va­mos hos­pe­da­dos. Eu ha­via dor­mido mal na noite an­te­rior, re­sul­tado do em­balo nos ba­res de Las Ram­blas, in­cluindo ca­li­en­tes es­pa­nho­las com as quais fi­ze­mos ami­zade e ou­tras co­si­tas mas. O caso é que acre­dito ter exa­ge­rado na be­bida. Acor­dei com aquela sen­sa­ção hor­rí­vel de res­saca, que só cu­rei par­ci­al­mente no meio do dia, após ter vol­tado para a cama de­baixo de uns re­mé­dios para dor de ca­beça. En­tão, a duas ho­ras do grande du­elo, saí­mos. Con­fesso que não es­tava to­tal­mente re­feito, mas quem já vi­veu uma si­tu­a­ção desta po­derá me com­pre­en­der: dali a pouco, fa­ría­mos um jogo de­ci­sivo e tí­nha­mos tudo para pas­sar à fase se­guinte. Se isso ocor­resse, só res­ta­riam a se­mi­fi­nal e a tão so­nhada fi­nal. Já po­día­mos ima­gi­nar o des­file de Só­cra­tes, Zico, Fal­cão e aquele ti­maço de Telê. Com esse es­pí­rito, que tor­ce­dor se im­porta com uma res­saca mal cu­rada?

NOVENTA MINUTOS ANTES

Na porta do Sar­riá, lembro-me de ter feito in­vo­lun­ta­ri­a­mente o si­nal da cruz. Para ser sin­cero, nunca gos­tei de exi­bir mi­nhas cren­ças em pú­blico, mas ali, le­vado pela cor­rente de tor­ce­do­res ves­ti­dos de verde e ama­relo que in­gres­sa­vam no es­tá­dio, pa­re­cia ha­ver uma onda elé­trica no ar, algo que nos dei­xava à mercê de nos­sos mais pu­ros sen­ti­men­tos. Na ver­dade, a tor­cida ita­li­ana es­tava em maior nú­mero, mas os bra­si­lei­ros mul­ti­pli­ca­vam suas ener­gias a ponto de cau­sar ad­mi­ra­ção nos ri­vais.

UMA HORA ANTES

O sol es­tava de ra­char. A cada mi­nuto, cres­cia a ten­são no es­tá­dio. Já nos en­con­trá­va­mos aco­mo­da­dos em nos­sos lu­ga­res, mas era im­pos­sí­vel per­ma­ne­cer sen­ta­dos. Toda a tor­cida se agi­tava bas­tante, tanto os bra­si­lei­ros quanto os ita­li­a­nos. Os gri­tos de “Azurra, Azurra” sobressaíam-se. Ha­via mui­tos ita­li­a­nos no Sar­riá. Tam­bém, pu­dera. Ao con­trá­rio do Bra­sil, a Itá­lia fi­zera uma pés­sima pri­meira fase. Em­pa­tara os três jo­gos, dois de­les con­tra equi­pes sem ne­nhuma tra­di­ção (Peru e Ca­ma­rões), e por pouco não dei­xara es­ca­par a clas­si­fi­ca­ção. De­pois da vi­tó­ria con­tra a Ar­gen­tina, as for­ças de­les se re­no­va­ram. Em­bora eles sou­bes­sem do nosso fa­vo­ri­tismo, tratava-se de um grande clás­sico do fu­te­bol mun­dial. Acho que le­vado por es­sas emo­ções que iam se avo­lu­mando, fui me es­que­cendo da­quele mal es­tar que me acom­pa­nhava desde cedo. Aos pou­cos, fi­quei bem, pronto para a festa.

MEIA HORA ANTES

Um jogo de Copa do Mundo é muito di­fe­rente das de­mais com­pe­ti­ções. Às ve­zes, ocor­rem ce­nas im­pen­sá­veis para gran­des clás­si­cos en­tre clu­bes. Numa des­sas, um tor­ce­dor ita­li­ano se des­gar­rou da massa azul e veio dan­çar nosso samba. Era um su­jeito de meia idade, in­tei­ra­mente calvo. Eu já o ti­nha visto mi­nu­tos an­tes, quando ele sur­giu no es­tá­dio com uma enorme ban­deira com as co­res da Itá­lia. Ele não a sol­tava nem por um ins­tante, a não ser quando veio fa­lar co­migo. Nes­ses pou­cos mi­nu­tos, tive que ajudá-lo a se­gu­rar a ban­deira. Valendo-se de um es­forço para pro­nun­ciar um con­fuso por­tu­nhol, ele me di­zia que ha­ve­ria uma grande sur­presa para nós, os bra­si­lei­ros. Eles, os ita­li­a­nos, ga­nha­riam. De­pois de uns cinco mi­nu­tos, tempo em que re­pe­tiu por di­ver­sas ve­zes sua pro­fe­cia em meu ou­vido, ele vol­tou dan­çando para o meio de sua tor­cida, onde agi­tava fre­ne­ti­ca­mente seu es­tan­darte im­po­nente.

QUINZE MINUTOS ANTES

Algo cu­ri­oso ocor­reu. O ita­li­ano com a enorme ban­deira não es­tava mais na­quela parte do es­tá­dio bem ao nosso lado. Co­men­tei com meus com­pa­nhei­ros: como um su­jeito com uma ban­deira da­que­las po­de­ria sair dali as­sim tão rá­pido? Se­ria im­pos­sí­vel. Pro­cu­rei me apro­xi­mar da tor­cida azul, mas mesmo as­sim não o vi mais, nem an­tes nem du­rante a par­tida. Sim­ples­mente ele de­sa­pa­re­cera. Meus ami­gos não se pre­o­cu­pa­ram com o epi­só­dio. Ocu­pa­dos com suas cer­ve­jas, nem sei se eles per­ce­be­ram quando o su­jeito veio ter co­migo. Já fal­tava muito pouco para o jogo co­me­çar e a ex­pec­ta­tiva era pela en­trada das equi­pes, o que co­me­çava a ocor­rer na­quele exato ins­tante.

NA HORA DO COMEÇO

Quando o ár­bi­tro au­to­ri­zou a saída, tive a im­pres­são de ter visto, de es­gue­lha, o tor­ce­dor ita­li­ano com sua ban­deira, mas foi ape­nas im­pres­são mi­nha. Re­al­mente, aquilo ha­via me­xido com meus sen­ti­dos. Eu não me con­for­mava com o de­sa­pa­re­ci­mento. Mas muito de­pressa, tra­tei de me es­que­cer dessa si­tu­a­ção. Eu que­ria cur­tir muito o jogo con­tra a Itá­lia, vi­brar com uma grande vi­tó­ria, que cer­ta­mente vi­ria. E ao pen­sar as­sim, ouvi ni­ti­da­mente a voz do su­jeito em meu ou­vido, alertando-me so­bre uma sur­presa que ha­ve­ria.

CINCO MINUTOS DE JOGO

Meu Deus! Há um se­gundo, a bola era nossa, mas de re­pente vi nos­sas re­des ba­lan­çando. Pa­olo Rossi cor­reu para a tor­cida, en­quanto eu, bo­qui­a­berto, fi­quei es­pe­rando o re­play. Só en­tão me lem­brei que não ha­ve­ria re­play. Eu es­tava no es­tá­dio e não na frente de um apa­re­lho de TV. Ti­nha per­dido o lance. Sabe quando você está tão sos­se­gado, a bola com um dos nos­sos, e há um mo­mento para re­la­xar? Pois é, foi nesse lapso que houve o iní­cio da tra­gé­dia. Um a zero para a Itá­lia.

DOZE MINUTOS

Os ita­li­a­nos mal ti­ve­ram tempo para co­me­mo­rar a van­ta­gem. Só­cra­tes em­pa­tava o jogo num chute cru­zado, in­de­fen­sá­vel para Zoff. En­lou­que­ce­mos de ale­gria. Tudo vol­tava a en­trar nos ei­xos. O Bra­sil, que pre­ci­sava ape­nas de um em­pate para ir à se­mi­fi­nal da Copa, ti­nha ainda 78 mi­nu­tos para fa­zer mais gols, quem sabe apli­car uma go­le­ada no po­bre time da Itá­lia, que até ali, em qua­tro jo­gos, só ha­via ga­nho dos ar­gen­ti­nos. Olhei para a tor­cida ita­li­ana. A massa vi­via um mo­mento de ab­so­luto si­lên­cio. E nada do su­jeito calvo com sua ban­deira!

VINTE E CINCO MINUTOS

Não po­dia ser pos­sí­vel! Ou­tra vez esse cara na nossa vida? Pa­olo Rossi de­sem­pa­tou e jo­gou um balde de água fria e muita, mas muita, pre­o­cu­pa­ção so­bre a tor­cida bra­si­leira. Aquele era o se­gundo gol do mesmo Pa­olo Rossi. Tudo bem que ha­via bas­tante tempo para o Bra­sil se re­cu­pe­rar, mas algo novo e pa­vo­roso co­me­çou a sur­gir den­tro de mi­nha mente, e era o se­guinte: a Itá­lia po­dia nos ven­cer.

INTERVALO

Não sei o que acon­te­ceu com a mai­o­ria dos nos­sos tor­ce­do­res, mas nosso pe­queno grupo se pros­trou de tal ma­neira que não me lem­bro de ter­mos con­ver­sado du­rante os quinze mi­nu­tos de in­ter­valo. Um frio na bar­riga me in­co­mo­dou até o iní­cio do se­gundo tempo.

VINTE E TRÊS MINUTOS

Houve uma ex­plo­são tão grande quando o Fal­cão de­to­nou sua bomba, que um de meus com­pa­nhei­ros só con­se­guiu re­to­mar seu lu­gar ao nosso lado cinco mi­nu­tos mais tarde. Dias de­pois, já no Bra­sil, vi o gol do Fal­cão na TV. Aque­las veias que sal­ta­vam de seu pes­coço, du­rante seu ru­gido emo­ci­o­nado, tam­bém fo­ram nos­sas veias fora das qua­tro li­nhas. Gri­ta­mos feito lou­cos, li­be­rando toda ten­são ar­ma­ze­nada em me­tade do se­gundo tempo. Dois a dois. Com esse re­sul­tado, es­tá­va­mos no­va­mente clas­si­fi­ca­dos.

VINTE E NOVE MINUTOS

Quando Pa­olo Rossi fez o ter­ceiro gol da Itá­lia, in­vo­lun­ta­ri­a­mente eu pro­cu­rei em meio à tor­cida azul aquele su­jeito. Como ele pôde se atre­ver? Em vez de des­pe­jar mi­nha raiva de tor­ce­dor na­quele car­rasco do Pa­olo Rossi, foi a fi­gura calva e su­ada de meu ri­val de ar­qui­ban­cada que me­re­ceu na mi­nha ima­gi­na­ção to­dos os pi­o­res in­sul­tos que eu co­nhe­cia. Mas o cu­ri­oso é que o time bra­si­leiro era de tal forma su­pe­rior a seu ad­ver­sá­rio que, mesmo a apro­xi­ma­da­mente quinze mi­nu­tos do fi­nal, to­dos nós acre­di­tá­va­mos muito em um novo em­pate. Tanto é que um ou dois mi­nu­tos de­pois de le­var­mos o ter­ceiro cho­que da tarde, já es­tá­va­mos de novo in­cen­ti­vando, de­ci­di­dos, a nossa se­le­ção. O em­pate, cer­ta­mente, vi­ria.

QUARENTA E CINCO MINUTOS

Meu co­ra­ção pa­re­cia que­rer sair pela boca. Eu mal con­se­guia olhar para den­tro do campo. Ao meu lado, tor­ce­do­res bra­si­lei­ros já cho­ra­vam sem ver­go­nha ne­nhuma. O so­nho do te­tra diluía-se a cada se­gundo. A der­rota, e prin­ci­pal­mente na­que­les mol­des, era algo ini­ma­gi­ná­vel para to­dos, acho até que para uma boa parte dos ad­ver­sá­rios. A massa azul não se con­ti­nha, mas de re­pente, houve um ata­que bra­si­leiro. Já es­tá­va­mos em cima da hora, o pe­ríodo re­gu­la­men­tar de jogo pra­ti­ca­mente se es­go­tava. Uma bola foi cru­zada, acho que de um es­can­teio (digo “acho” por­que na­quele ins­tante ha­via uma grande con­fu­são de tor­ce­do­res na nossa frente e mi­nha vi­são se en­con­trava pre­ju­di­cada, e de­pois, até hoje, ja­mais quis ver aquele lance no­va­mente), e por en­tre os de­fen­so­res ita­li­a­nos sur­giu nosso za­gueiro cen­tral, o Os­car. A ca­be­çada saiu po­tente, no canto es­querdo de Zoff. O go­leiro ita­li­ano sal­tou ex­tra­or­di­na­ri­a­mente para a bola, mas che­gou tarde. Aos qua­renta e cinco, tal­vez um pouco mais, Os­car, de ca­beça, fez a rede ita­li­ana ba­lan­çar pela ter­ceira vez. Os­car nos li­vrou de nosso ter­rí­vel claus­tro de so­fre­do­res. Por al­guns mi­nu­tos, nossa tor­cida se tor­nou um bando de in­sa­nos, sal­tando como ma­ca­cos, como sa­pos, como ho­mens fe­li­zes. En­quanto isso, Os­car cor­reu ao banco bra­si­leiro, to­dos os jo­ga­do­res sal­ta­ram so­bre ele. Nunca vi uma co­me­mo­ra­ção tão fan­tás­tica. O juiz dis­tri­buiu dois ou três car­tões ama­re­los. Logo, a par­tida re­co­me­çou e veio o apito fi­nal. Três a três no pla­car. Bra­sil clas­si­fi­cado.

DEPOIS

Ti­nham se pas­sado uns quinze mi­nu­tos desde o apito que pôs fim ao jogo, e a tor­cida toda, tanto a ama­rela quanto a azul, não que­ria dei­xar o es­tá­dio. As equi­pes já ha­viam ido para os ves­tiá­rios, mas nós per­ma­ne­cía­mos lá, bra­si­lei­ros em festa que não se pode ex­pli­car, ita­li­a­nos como se num ve­ló­rio es­ti­ves­sem. Pouco an­tes de dei­xar­mos o Sar­riá, acom­pa­nhando a cor­rente hu­mana que, fi­nal­mente, de­ci­dira se mo­vi­men­tar para con­ti­nuar a co­me­mo­ra­ção pe­las ruas de Bar­ce­lona, olhei para o lo­cal de onde sur­gira o tal ita­li­ano com sua grande ban­deira e, para mi­nha ad­mi­ra­ção, avistei-o en­tre seus com­pa­tri­o­tas cho­ro­sos. Ele, en­tre­tanto, não de­mons­trava qual­quer an­gús­tia. Aos pou­cos, co­me­çou a des­fral­dar seus pa­nos en­ro­la­dos e nisso fi­xou seu olhar em mi­nha di­re­ção. Eu, que já me pre­pa­rava para sair, detive-me por um mo­mento. O ita­li­ano sor­riu, sar­cás­tico, para mim. En­tão, sem com­pre­en­der, deixei-me le­var pelo efeito do­minó que com­pri­mia os tor­ce­do­res no rumo dos por­tões de saída. Mas, an­tes que pu­dés­se­mos sair, houve o ini­ma­gi­ná­vel.

O dia claro, de um sol abra­sa­dor, fechou-se ra­pi­da­mente sob pe­sa­das nu­vens ne­gras que va­ga­vam pelo céu à mercê de um vento que si­bi­lava pa­vo­ro­sa­mente. Uma es­pé­cie de vo­ze­a­ria in­com­pre­en­sí­vel in­va­diu meus tím­pa­nos, e acho que os de to­dos ali. Ao olhar para cima, achei que se­ria o fim do mundo: o sol, ve­loz em meio às nu­vens ne­gras, pa­re­cia fa­zer o per­curso in­verso de sua jor­nada, mas an­tes que eu pu­desse me cer­ti­fi­car disso, uma densa bruma nos en­vol­veu e ra­pi­da­mente jo­gou so­bre nós a es­cu­ri­dão. Daí para o ins­tante se­guinte, acho que não houve tempo para um pis­car de olhos, até que – por Deus! –  lá es­tá­va­mos ou­tra vez no Sar­riá, vi­vendo os úl­ti­mos se­gun­dos da­quele ter­rí­vel pe­sa­delo. En­quanto eu não com­pre­en­dia ab­so­lu­ta­mente o que po­de­ria ter ha­vido, os de­mais tor­ce­do­res, in­cluindo meu grupo de co­le­gas, re­vi­viam toda a ten­são da qual eu me re­cor­dava per­fei­ta­mente. Na­quela mesma hora, vi Os­car su­bindo no meio dos za­guei­ros ita­li­a­nos. Sua ca­be­çada saiu firme, no canto es­querdo de Zoff. O go­leiro ita­li­ano, num salto fan­tás­tico, de­teve a bola em cima da li­nha. Era o fim. A Itá­lia ven­ce­ria o jogo pouco de­pois. Não ha­via como re­cla­mar do epi­só­dio que só eu pa­re­cia lem­brar. Pasmo, quase sem po­der pro­nun­ciar as pa­la­vras, ainda ten­tei ar­gu­men­tar com um dos meus com­pa­nhei­ros: “essa bola en­trou, essa bola en­trou”. E ele me res­pon­deu: “acho que não, acho que não”. Como eu po­de­ria ter sido le­vado a sé­rio se in­sis­tisse numa his­tó­ria as­sim?

Acho que não há ne­ces­si­dade de ex­por os sen­ti­men­tos e as dú­vi­das que ainda me per­se­guem. E essa amál­gama de sen­sa­ções que em mui­tas oca­siões per­meia meus pen­sa­men­tos não se re­fere pro­pri­a­mente ao fu­te­bol, mas sim ao epi­só­dio em si. O que pode ter ha­vido na­quela tarde em Bar­ce­lona? Será que algo as­sim ocorre com freqüên­cia e um me­ca­nismo des­co­nhe­cido em nos­sas men­tes, ou de al­guma forma ope­rado, cuida para que nos es­que­ça­mos de tudo, como acon­te­ceu com toda a gente? Quanto ao fu­te­bol, sinto muito pelo fato de ne­nhum bra­si­leiro ter pas­sado pela emo­ção que vivi no es­pe­ta­cu­lar em­pate de 1982 con­tra a Itá­lia. Perdoe-me, lei­tor, mas pre­firo pa­rar por aqui, em­bora, an­tes, ainda te­nha algo a di­zer. Na época da Copa da França, em 1998, foi lan­çado um li­vro que traz um conto in­te­res­san­tís­simo. Pelo fato de, ao me­nos até hoje, ter me es­qui­vado de­ci­di­da­mente de tudo o que pu­desse me le­var a re­vi­ver os as­pec­tos da­quele in­crí­vel jogo con­tra a Itá­lia, não che­guei a ler o conto as­si­nado por Oc­ta­vio Ara­gão. Li ape­nas uma breve si­nopse não me lem­bro onde. Diz que a idéia de Ara­gão foi criar a In­tem­pol – a po­lí­cia in­ter­na­ci­o­nal do tempo. Um agente dessa po­lí­cia vi­aja ao pas­sado, exa­ta­mente ao dia 5 de ju­lho de 1982, e, an­tes da par­tida, co­mete um aten­tado con­tra Pa­olo Rossi, impedindo-o as­sim de mar­car três gols pela Itá­lia e ti­rar o Bra­sil da Copa. “Eu ma­tei Pa­olo Rossi” é o nome do conto. Agora, quando es­crevo es­tas li­nhas, e en­quanto me lem­bro da­quele ita­li­ano calvo sor­rindo sar­cas­ti­ca­mente para mim ao fim do jogo em que, te­nho cer­teza, em­pa­ta­mos com a Itá­lia, fico aqui ma­tu­tando: a idéia de Oc­ta­vio Ara­gão so­bre vol­tar no tempo e im­pe­dir a tra­gé­dia do Sar­riá foi mesmo ba­cana, mas, des­gra­ci­a­tos!, te­riam os ita­li­a­nos con­se­guido vol­tar de ver­dade?

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