Impressões

Sobre Mariana e Paris

sábado, 14 de novembro de 2015 Texto de

Des­cas­cá­va­mos as la­ran­jas miú­das e do­ces, e as cas­cas des­pren­dendo sumo que im­preg­nava as mãos e os bra­ços caíam so­bre o ca­pim, onde aos pou­cos, e com o pas­sar dos dias, misturavam-se ao solo, tal­vez ali­men­tando suas raí­zes ou ape­nas fundindo-se na­tu­ral­mente com a his­tó­ria de seu bi­oma, por as­sim di­zer, num sexo ele­men­tar em que a terra ime­mo­rial pe­ne­tra o ve­ge­tal úmido, ou vice-versa, tanto faz, por­que no pra­zer e na dor a or­dem dos fa­to­res não al­tera o pro­duto, e as­sim des­cas­cá­va­mos as la­ran­jas miú­das com pe­que­nas fa­cas cujo me­tal dourava-se aos úl­ti­mos raios de sol espiando-nos por de­trás das ár­vo­res, e as­sim mor­ria a tarde de­va­gar­zi­nho en­quanto a seiva da fruta es­cor­ria por nossa pele, já per­ti­nho da noite, quando a tris­teza dos cam­pos mói nos­sas car­nes e lambe de leve os os­sos, ao me­nos essa é a me­mó­ria agora da­que­les dias, da pai­sa­gem desmanchando-se mi­nuto a mi­nuto, num grande bor­rão que me aper­tava, sei lá, o peito, e avi­sava, quem sabe, das coi­sas ce­gas da vida que uma hora nos che­gam como num cla­rão atô­mico sem que ti­vés­se­mos nos dado conta de suas con­sequên­cias por­que, afi­nal, nem mesmo dá­va­mos pe­lota para a pos­si­bi­li­dade de sua pre­sença, quem sabe, avi­sava que fi­cás­se­mos aten­tos, que ve­lás­se­mos por to­das a vi­das, to­dos os ob­je­tos, to­das as cas­cas de la­ran­jas e os mais di­mi­nu­tos tor­rões de areia, que ve­lás­se­mos por tudo o que nos cerca, pois tudo o que nos cerca é o que nos com­pleta, a Bra­sí­lia e a Ma­ri­ana, a Da­masco e a Pa­ris, pois tudo o que nos cerca é o que te­mos, en­fim, na vida e na morte, por­que na morte, por mais que te­nha­mos vi­vido cheios de amigos,cheios de fi­lhos, cheios de gente, na morte se­re­mos só um, ai, que sau­dade de des­cas­car la­ran­jas miú­das ao cair da­que­las tar­des tris­tes que eu en­ca­rava feito es­pe­rança na tra­gé­dia, mas não quero vol­tar, não, quero se­guir, pois acho que de­pois do ato­leiro tem que ha­ver terra firme, sem lama, e com sumo nas la­ran­jas, e com san­gue nas veias, san­gue cor­rendo nas veias, em Ma­ri­ana, em Pa­ris, em Da­masco.

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