Sou um homem que tem saudade | Márcio ABC

Crônicas

Sou um homem que tem saudade

quarta-feira, 16 de abril de 2014 Texto de

Sou um ho­mem que tem sau­da­de.

E avi­so des­de já que não me en­cai­xo na con­vic­ção da­que­les que di­zem não me ar­re­pen­do de na­da. Pra mim, is­so é ape­nas con­to de fa­da.

Sim, me ar­re­pen­do de qua­se tu­do!

Te­nho re­mor­so e cul­pa. E se não me con­si­de­ras­sem lou­co acho que sai­ria por aí pe­din­do des­cul­pa. Por um mon­te de coi­sas que fiz e me ar­re­pen­do. Coi­sas de to­dos os gê­ne­ros, de to­dos os graus, de to­das as ida­des. Mas mes­mo as­sim sou um ho­mem que tem sau­da­de.

Sau­da­de de qua­se tu­do!

Até de um tê­nis ve­lho que fu­rou e de uma ber­mu­da que man­chou eu te­nho sau­da­de. Sau­da­de de coi­sas bo­bas. E das ou­tras tam­bém. Do pai e dos avós. De to­dos os ca­fun­dós. Dos pri­mos e dos ar­ri­mos, das fo­lhas e das bo­lhas, dos bi­chos de pé. Dos ti­os e dos ri­os. E das chu­vas até.

Te­nho sau­da­de!

Da pri­mei­ra vez que ou­vi Sky­li­ne Pi­ge­on do El­ton John. Eu car­re­go até ho­je no pei­to o que sen­ti da­que­la vez, quan­do eu não sa­bia na­da de in­glês. Do ba­lan­ço e da man­guei­ra. E sa­be aque­la des­co­nhe­ci­da co­cei­ra? Pois é. No car­ro e até em pé, tu­do dá sau­da­de, não é?

Te­nho sau­da­de!

Da Kom­bi e das Va­ri­ants, do Fus­ca e da Bra­sí­lia. Não sei por que, mas quan­do ven­di um Cor­si­nha mil com mui­tos quilô­me­tros, cen­to e no­ven­ta mil, tam­bém ti­ve sau­da­de an­tes mes­mo de sair da ga­ra­gem, an­tes mes­mo de es­con­der a lá­gri­ma que ro­lou quan­do o ven­de­dor dis­se o ne­gó­cio fe­chou.

Te­nho sau­da­de!

Dos ami­gos dis­tan­tes e de to­dos os nos­sos di­as mar­can­tes. Dos jor­nais, das re­da­ções e te­le­vi­sões, do rá­dio, das ma­té­ri­as e até das fé­ri­as eu te­nho sau­da­de. Das au­las em Ca­tan­du­va e da­que­les di­as em Gua­ra­tu­ba. De So­ro­ca­ba e São Pau­lo, Rio Pre­to e Jun­di­aí, uma von­ta­de de es­tar aí.

Te­nho sau­da­de!

Até de ter sau­da­de. Às ve­zes, faz di­as que não te­nho sau­da­de e as­sim me ar­re­pen­do, sin­to o re­mor­so mo­er-me a al­ma e en­tão com to­da a cal­ma
di­go as­sim aqui pa­ra mim olha, o que pas­sou não vol­ta, e aí é ela que vol­ta
com to­da a for­ça bru­ta de mil ba­ta­lhões que a lem­bran­ça fun­da re­cru­ta.

Sou um ho­mem que tem sau­da­de.

Do olhar do meu ca­chor­ro que num cer­to dia de­sa­pa­re­ceu sem dei­xar ras­tro. E que de­pois eu dei co­mo de­sa­pa­re­ci­do po­lí­ti­co. Por­que nin­guém viu pa­ra on­de ele fu­giu. Re­vi­ra­mos a ci­da­de to­da à sua pro­cu­ra, João­zi­nho, sai­ba dis­so por to­do o sem­pre e até que, sei lá, a gen­te se en­con­tre de re­pen­te.

Te­nho sau­da­de!

Dos Bee Ge­es no jar­dim e das far­ras sem fim. Da ca­ma de­sar­ru­ma­da e da sua unha car­mim. Dos dis­cos vo­a­do­res que vi­e­ram e das as­som­bra­ções que não eram. E tam­bém da­que­le Sim­ca Cham­bord. Na­que­le tem­po, a li­ga­ção es­pon­tâ­nea com to­da a fan­ta­sia tra­zia um quê de cu­tâ­nea, qua­se to­do dia.

Te­nho sau­da­de!

De cer­to co­quei­ro. De to­das as ár­vo­res de uma vi­da. Mas es­pe­ci­al­men­te de um jas­mi­nei­ro. Há noi­tes em que so­nho tan­to e no fim das con­tas o que fi­ca é seu chei­ro. Das aven­tu­ras de Dom Qui­xo­te e de quan­do eu bo­ta­va mi­nha fi­lha no jo­e­lho pa­ra pas­so e tro­te, uma tal fe­li­ci­da­de cu­ja pu­re­za ain­da me in­va­de.

Te­nho sau­da­de!

Mas não a sau­da­de tris­te do ina­ces­sí­vel, cu­ja pon­ta res­va­la no ri­sí­vel. É uma sau­da­de sa­ca­na, eu sei mui­to bem. Acho que sa­bem to­dos que a têm. Fi­ca lá do ga­lho es­pe­ran­do do meu ín­ti­mo um ato fa­lho. En­tão, po­ten­te pre­da­do­ra, jo­ga-se de pron­to so­bre mi­nha ca­be­ça e me imo­bi­li­za até que anoi­te­ça.

Sou um ho­mem que tem sau­da­de.

Até de ter sau­da­de! Por­que sin­to cul­pa se não a te­nho. De tu­do e de to­dos. Uma sau­da­de in­ven­cí­vel que não se apro­xi­ma aos pou­cos, mas vem co­mo lou­cos. De re­pen­te, in­con­ti­nen­te. Eu a sin­to dis­tan­te e quan­do a per­ce­bo, já ve­jo que é ago­ra. Uma sau­da­de que me afa­ga e me es­tu­po­ra.

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