Crônicas

Uma velha Kombi azul

sexta-feira, 28 de março de 2014 Texto de
A velha Kombi azul em foto em preto e branco de data incerta, entre fim da década de 1960 e começo da de 1970, com vários moleques, entre os quais eu (o segundo da esquerda para a direita)

A ve­lha Kombi azul em foto em preto e branco de data in­certa, en­tre fim da dé­cada de 1960 e co­meço da de 1970, com vá­rios mo­le­ques, en­tre os quais eu (o se­gundo da es­querda para a di­reita)

No meio da dé­cada de 1960, meu avô, um si­ti­ante que mo­rava na zona ru­ral ao lado da mu­lher, fi­lhos, ne­tos etc, com­prou uma Kombi. Azul claro. Ca­lo­tas bran­cas. Ban­cos cui­da­do­sa­mente re­ves­ti­dos por umas ca­pas de um te­cido ma­cio como o de cer­tos ta­pe­tes. Cor­ti­ni­nhas azuis es­cu­ras em cada uma das ja­ne­las. Na época, foi uma grande no­vi­dade. Ima­gine en­tão para as cri­an­ças.

Eu era ainda um bebê, mas a Kombi fez parte da fa­mí­lia por lon­gos anos. Era den­tro dela que ía­mos à ci­dade aos sá­ba­dos. Meu pai, que a di­ri­gia, abria as por­tas para que ali en­tras­sem nove ou dez pes­soas. De­pois, com to­dos de­vi­da­mente aco­mo­da­dos, fechava-as com jeito, sem ba­ter, com ca­ri­nho.

Quando po­día­mos, eu e meus pri­mos dis­pu­tá­va­mos as ja­ne­li­nhas no tapa. No tapa, mesmo. Era pre­ciso que os pais e tios in­ter­fe­ris­sem. Ao vi­si­tar­mos pa­ren­tes em ou­tras ci­da­des, quando obri­ga­to­ri­a­mente aden­trá­va­mos ro­do­vias as­fal­ta­das, nossa adre­na­lina su­bia a ní­veis es­tra­tos­fé­ri­cos, ape­sar da ve­lo­ci­dade… a Kombi atin­gia 80, às ve­zes 90 Km/h nas des­ci­das, e não pas­sava dos 40 ou 50 em su­bi­das.

Mesmo as­sim não de­sa­ni­má­va­mos. Era o má­ximo quando meu pai pi­sava até o fim para ul­tra­pas­sar­mos um pe­sado ca­mi­nhão car­re­gado, cuja ve­lo­ci­dade atin­gia pa­râ­me­tros ainda me­no­res.

A ve­lha Kombi azul nos le­vou ao fu­te­bol, ao circo e ao car­na­val. Aos ca­sa­men­tos e às fes­tas. Tam­bém às mis­sas e aos ve­ló­rios. Trans­por­tou fe­li­ci­dade e tris­teza. Farra e dor. Foi em seu banco que me dei­tei com a perna que­brada para vi­a­jar cinco in­ter­mi­ná­veis quilô­me­tros em es­trada de terra até o hos­pi­tal.

Ou­tro dia, um primo da Grande São Paulo nos per­gun­tou se sa­bía­mos por onde an­dava a ve­lha Kombi, se é que ela ainda existe. Não sou­be­mos res­pon­der. E isso me cor­tou o co­ra­ção.

A me­mó­ria da ve­lha Kombi azul guarda um tempo em que ainda exis­tiam os avós, to­dos os pais e to­dos os tios, a ale­gria boba, o pra­zer in­gê­nuo e a força sel­va­gem do mo­le­que do mato. 

Penso em seus fa­róis como dois gran­des olhos dis­pos­tos a ilu­mi­nar nosso ca­mi­nho (veja uma Kombi pela frente e me res­ponda: seus fa­róis não pa­re­cem os olhos de um ca­chorro amigo?). Penso tam­bém em seu in­te­rior, e ali está um co­ra­ção de mãe que aloja quan­tos pre­ci­sem en­trar.

Por es­sas e ou­tras, eu de­ve­ria co­nhe­cer o des­tino de nossa ve­lha Kombi azul. Por­que lá, em seus ban­cos cos­tu­ra­dos em lar­gas fai­xas cla­ras, em seu as­so­a­lho de ta­pe­tes pre­tos, em seus vi­dros em­po­ei­ra­dos, em sua la­ta­ria im­pe­cá­vel e em seu mo­tor­zi­nho frouxo, lá, na­quela ve­lha Kombi azul, fi­cou um pouco de mim. 

(Cli­que aqui para ver o ví­deo de des­pe­dida da Kombi feito pela VW)

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