Impressões

A farra da casa grande

quinta-feira, 20 de março de 2014 Texto de

Não sei se foi Bal­zac, mas dis­se­ram uma vez esta frase que se per­pe­tuou (algo as­sim): toda grande for­tuna es­conde um grande crime. Tal­vez fi­casse me­lhor as­sim: toda for­tuna es­conde um crime. 

Por­que, in­de­pen­den­te­mente de ter co­me­tido um crime tal qual a con­cep­ção con­ven­ci­o­nal, toda for­tuna, sim, é cri­mi­nosa. E nada há de pior para jus­ti­fi­car esse crime do que sua pró­pria ca­rac­te­rís­tica fun­da­men­tal: a con­cen­tra­ção numa só mão dos re­cur­sos que po­de­riam sal­var mi­lha­res de po­bres fa­min­tos in­jus­ti­ça­dos.

Te­o­rias à parte, o fato é que o Bra­sil está to­mado (tal­vez desde seu pri­meiro dia) pe­los ten­tá­cu­los ab­je­tos de se­nho­res cujo en­ri­que­ci­mento ilí­cito se dis­sipa en­tre as bru­mas de uma so­ci­e­dade que já nas­ceu te­mente a Deus e a reis va­ga­bun­dos, pre­gui­ço­sos e co­var­des, pra di­zer o mí­nimo da­que­les co­me­do­res de ga­li­nha e en­tre­ga­do­res do ouro, do ouro alheio, do ouro bra­si­leiro.

De lá pra cá, o que mu­dou quanto à casa grande e à sen­zala? Quase nada. Hoje, é certo, às ve­zes encontram-se ne­gros ex­plo­ra­do­res as­su­mindo o lu­gar que an­tes era pri­vi­lé­gio ape­nas dos bran­cos, e bran­cos mi­se­rá­veis caindo na des­graça que an­tes era des­tino ape­nas dos ne­gros.

Mas isso, di­ga­mos, fica por conta da mis­ci­ge­na­ção. Quanto ao res­tante da re­la­ção en­tre po­der e mi­sé­ria, o tom é, como sem­pre, de­fi­nido pela for­tuna.

Ve­ja­mos as de­nún­cias que ro­lam pelo Bra­sil afora. De­nún­cias con­tra po­lí­ti­cos de to­das as co­res par­ti­dá­rias. De­nún­cias que atin­gem gran­des con­glo­me­ra­dos em­pre­sa­ri­ais. Do­nos de po­der. Do­nos de for­tuna. Ca­pa­zes de tra­mar rou­bos que ul­tra­pas­sam bi­lhões de re­ais, bi­lhões de dó­la­res, bi­lhões de sa­cri­fí­cios hu­ma­nos, bi­lhões de sa­ca­na­gens.

E to­dos, po­lí­ti­cos e gran­des for­tu­nas, po­lí­ti­cos e gran­des for­tu­nas cri­mi­no­sos, se­guem com sua vida de cham­pa­nhe, ca­viar e sor­ri­sos de­bo­cha­do­res.

Vi­ra­mos, nós os mi­se­rá­veis, nós que es­ta­mos do ou­tro lado dos po­lí­ti­cos e das gran­des for­tu­nas cri­mi­no­sos, vi­ra­mos pi­ada. Basta a eles man­da­rem seus porta-vozes da­rem uma ex­pli­ca­ção va­ga­bunda qual­quer e pronto. Está feito. Seus ad­vo­ga­dos fa­zem o resto. Seus re­cur­sos dão conta. Sua ca­pa­ci­dade ime­mo­rial de des­tro­çar o que acham pela frente é su­fi­ci­ente.

Rou­bam, ma­tam e dão ri­sada. Rou­bam, ma­tam e to­mam cham­pa­nhe. Rou­bam, ma­tam e co­mem ca­viar.

Riem dos mi­se­rá­veis que, aqui em­baixo, es­tão se co­mendo uns aos ou­tros por causa das mi­ga­lhas caí­das das gran­des man­sões lu­xu­o­sas, dos gran­des pa­lá­cios acin­to­sos, dos gran­des bol­sos dou­ra­dos.

Riem dos mi­se­rá­veis que, aqui em­baixo, es­tão tro­cando ti­ros nos mor­ros, es­tão ar­ras­tando mu­lhe­res pe­las ruas. 

Riem dos mi­se­rá­veis que, aqui em­baixo, es­tão com pu­ta­ri­a­zi­nhas de en­co­xar no me­trô, de bri­gar no trân­sito, de in­va­dir clu­bes de fu­te­bol para de­pre­dar e sei lá mais o quê. 

Riem por­que têm mo­ti­vos de so­bra para rir. Têm di­nheiro e, por­tanto, saúde, di­ver­são e pra­zer.

Toda grande for­tuna es­conde um grande crime, dis­se­ram.

Toda grande for­tuna es­conde um bando de idi­o­tas, digo. Um bando de idi­o­tas, que so­mos.

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