Crônicas

Infância trágica, um amigo, uma irmã…

sábado, 8 de março de 2014 Texto de

Ver o filme fran­cês “Po­lis­sia” é, ao in­vés de “obri­ga­tó­rio” (termo que não gosto por­que me pa­rece pe­dante), uma “obri­ga­ção” nos dias atu­ais, quando a ex­po­si­ção dos ab­sur­dos co­me­ti­dos con­tra cri­an­ças (quase sem­pre den­tro do pró­prio nú­cleo fa­mi­liar) é ter­ri­vel­mente cho­cante e, mais do que ter­ri­vel­mente cho­cante, é um cha­mado a qual­quer pes­soa que não se con­forma com as fe­ri­das aber­tas da hu­ma­ni­dade.

O filme re­trata o tra­ba­lho de uma bri­gada de Pa­ris cujo ob­je­tivo é de­tec­tar e com­ba­ter a pe­do­fi­lia e tam­bém ou­tros abu­sos a que são sub­me­ti­dos os me­no­res de idade. É ba­se­ado em ca­sos re­gis­tra­dos pela po­lí­cia fran­cesa, um re­corte im­pres­si­o­nante so­bre a re­a­li­dade que es­maga a in­fân­cia e a ju­ven­tude no mundo in­teiro.

Mas cui­dado. É que ima­gi­nar e, mais do que isso, ter a cer­teza de que você faz parte deste te­cido hu­mano não é ta­refa das mais fá­ceis. De todo modo, é ne­ces­sá­rio encará-la. A bem da ver­dade, é pre­ciso vas­cu­lhar a si pró­prio para que seus fe­ri­men­tos não se­jam gra­ves quando o as­sunto é a pe­do­fi­lia e to­dos os abu­sos que or­bi­tam sua at­mos­fera ir­res­pi­rá­vel.

E, de fato, du­rante o filme eu me lem­brei de uma pas­sa­gem da mi­nha in­fân­cia em me­a­dos da dé­cada de 1970. Eu ti­nha uns oito anos e na mi­nha es­cola, na mi­nha sala de aula, ha­via um ga­roto com quem eu man­ti­nha uma boa re­la­ção de ami­zade, acho que até ao acaso, o acaso de mo­rar­mos bem pró­xi­mos.

Por isso mesmo, era na­tu­ral que, sem ne­nhuma jus­ti­fi­ca­tiva mais sé­ria, às ve­zes um fosse cha­mar o ou­tro em sua casa para jo­gar bola, por exem­plo. Numa des­sas oca­siões, sem qual­quer pre­o­cu­pa­ção, abri o por­tão da casa desse amigo, um por­tão­zi­nho rús­tico feito de va­ras de bambu cor­ta­das pela me­tade de ponta a ponta e amar­ra­das com arame à guisa de cerca, e fui chamá-lo.

Não me lem­bro se ele se en­con­trava ali. Só me lem­bro de ter per­cor­rido a es­treita cal­çada em torno da casa ao mesmo tempo em que ten­tava olhar o in­te­rior de seus cô­mo­dos a fim de achar meu amigo. 

Ha­via do lado di­reito para quem en­trava pelo por­tão­zi­nho uma pe­quena va­randa e logo à es­querda da va­randa, uma ja­nela. Foi ali que eu en­fiei a cara, escorando-me com os pés na pró­pria pa­rede e o queixo no ba­tente da ja­nela. E eu os vi. O pai do meu amigo e a irmã do meu amigo.

Ela de­via ter, sei lá, uns dois ou três anos mais do que nós, tal­vez onze. Eles eram mu­la­tos. A me­nina ti­nha um ca­be­lão que a fa­zia pa­re­cer muito maior do que re­al­mente era. Mas com toda cer­teza tratava-se ape­nas de uma cri­ança.

Não sei se eu in­ter­pre­tei mal, mas ele es­tava so­bre ela em cima da cama. Agora, qua­renta anos de­pois, fu­çando as pro­fun­de­zas de meu cé­re­bro, chego à con­clu­são que na época, por um mo­tivo ou ou­tro, devo ter pen­sado que ele a cas­ti­gava com uma surra ou algo as­sim. E re­al­mente era bas­tante co­mum que aquele ho­mem bruto e sem edu­ca­ção ba­tesse nos fi­lhos. Eu o tes­te­mu­nhei em vá­rias oca­siões.

E tal­vez por isso mesmo te­nha pen­sado, com mi­nha mente de oito anos, que não se tra­tava de ou­tra coisa se­não mais uma das sur­ras que ele apli­cava nos fi­lhos. Sem en­con­trar meu amigo, chis­pei de lá de­pois de ter visto o pai so­bre a fi­lha na cama por dois ou três se­gun­dos.

E nunca mais pen­sei no caso. Até hoje. 

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