Crônicas

O fôlego do vovô

quinta-feira, 13 de março de 2014 Texto de

Pes­quisa iné­dita feita pelo Ibope põe o jor­nal im­presso como o meio de co­mu­ni­ca­ção no qual os bra­si­lei­ros mais con­fiam. O ve­lhi­nho, o vovô da no­tí­cia, fica à frente do rá­dio e da te­le­vi­são!

Leio essa in­for­ma­ção, deixo de lado meus es­crú­pu­los e sinto aqui no peito uma pon­tada de emo­ção. Bobo, né? Ou não. Eu pas­sei boa parte da vida em re­da­ções de jor­nais. Tra­ba­lhei tam­bém em TV, re­vista, rá­dio, in­ter­net etc, mas mi­nha for­ma­ção é no jor­nal im­presso. Era lá que eu me sen­tia em casa, era lá que eu me sen­tia como um ope­rá­rio que ajuda a cons­truir um pré­dio por dia. E de­pois ad­mira, or­gu­lhoso, a obra. 

Do pri­meiro mo­mento, ainda em Ca­fe­lân­dia, até o úl­timo (em 2011), não se pas­sou um dia sem que de al­gum modo eu sen­tisse essa pon­tada no peito. Fo­ram quase trinta anos. Um furo de re­por­ta­gem, uma grande capa, uma linda his­tó­ria do co­ti­di­ano, uma foto ar­re­ba­ta­dora e, às ve­zes, uma bo­ba­gen­zi­nha qual­quer, não im­por­tava o que fosse, desde que fosse um con­teúdo pro­du­zido com ca­ri­nho e pro­fis­si­o­na­lismo para o lei­tor.

Acho que o jor­nal (eu digo isso desde que os apo­ca­líp­ti­cos pre­vi­ram o fim do im­presso após o ad­vento da in­ter­net) ainda so­bre­vi­verá por muito tempo. As aná­li­ses mais apro­fun­da­das fi­cam para os es­tu­di­o­sos. De mi­nha parte, sei di­zer que ne­nhum ou­tro meio de co­mu­ni­ca­ção deixa-se pe­gar nas mãos como o jor­nal, to­dos os dias, com­ple­ta­mente en­tre­gue, ofe­re­cido, de­vasso.

O pal­pá­vel e o do­cu­men­tal, ca­rac­te­rís­ti­cas do jor­nal im­presso, são atra­ti­vos de­mais para que o pú­blico se­dento de in­for­ma­ção re­sista aos seus en­can­tos. Tal­vez es­ses as­pec­tos se­jam fun­da­men­tais na con­fi­ança que lhe é atri­buída. Até hoje, com toda a pa­ra­fer­ná­lia tec­no­ló­gica ao al­cance das mãos, é co­mum ou­vir fra­ses como “claro que é ver­dade, saiu no jor­nal”.

Atu­al­mente fa­zem até sexo pela in­ter­net. Re­al­mente por meio do jor­nal fica di­fí­cil. Mas tal­vez aí es­teja a so­lu­ção mais apro­xi­mada dessa equa­ção com­plexa. Ao con­trá­rio da in­ter­net, que se trans­for­mou num grande ta­cho com os mais di­ver­si­fi­ca­dos con­teú­dos, o jor­nal (eu digo o meio jor­nal), de­baixo de sua hu­milde pro­posta, apresenta-se com foco e cla­reza: não faço sexo, mas você pode me em­bru­lhar, me pi­sar, me amas­sar, e mesmo as­sim ama­nhã eu volto pra você. 

Quer maior le­al­dade?

Compartilhe