Contos

A sala dos sonhos

sexta-feira, 7 de março de 2014 Texto de

Meus so­nhos são im­pres­si­o­nan­tes.

Esta noite so­nhei, em se­guida, que (1º) meu pai, já bas­tante ve­lho e do­ente, ha­via re­cu­pe­rado a saúde re­pen­ti­na­mente e es­tava bri­gando com mi­nha mãe para fi­car com um ho­mem, e (2º) eu es­tava tão pró­ximo de uma ga­rota por quem fui apai­xo­nado que ten­tei beijá-la, mas não pu­de­mos con­cluir a ope­ra­ção por­que nos­sas bo­cas es­ta­vam cheias de po­eira, os den­tes ran­giam com aque­las par­tí­cu­las de areia. 

Es­tes e ou­tros so­nhos es­ta­vam caindo à mesa, con­ta­dos por cinco ou seis pes­soas. Co­men­tá­va­mos as his­tó­rias re­la­ta­das e per­ma­ne­cía­mos qui­e­tos por al­guns ins­tan­tes, como que re­fle­tindo so­bre elas, até que mais um dos pre­sen­tes se lem­brasse de ou­tro so­nho. E as­sim es­tá­va­mos.

A certa al­tura, lembrei-me de um so­nho re­cor­rente. E fiz um re­sumo a meus com­pa­nhei­ros de mesa.

“Acon­tece”, eu disse a eles, “sem­pre obe­de­cendo ao mesmo ro­teiro, é uma si­tu­a­ção se­me­lhante à nossa, há uma mesa grande e re­tan­gu­lar ins­ta­lada numa sala de certo modo es­cura como esta onde vá­rios ami­gos con­ver­sam, em­bora não se trate de fa­lar de so­nhos, mas ape­nas so­bre te­mas ba­nais, des­ses a que to­dos cos­tu­mam às ve­zes se en­tre­gar com pra­zer, sem com­pro­misso, sem pre­o­cu­pa­ções com isso ou aquilo, só mesmo o que cha­mam de papo fu­rado.

“To­dos os par­ti­ci­pan­tes encontram-se bas­tante à von­tade, to­mam uma be­bida, sor­riem e até fu­mam sem que isso in­co­mode aos de­mais. En­tre­tanto, num de­ter­mi­nado mo­mento, sem que se possa impedi-lo, um bu­raco ne­gro, ao me­nos é as­sim que a coisa apa­rece no so­nho, tal­vez uma es­pé­cie de vá­cuo do es­paço ou do tempo, esse bu­raco ne­gro, onde não há nada se­não uma es­cu­ri­dão va­zia, aproxima-se da mesa e, um a um, traga a to­dos.

“O mais de­ses­pe­ra­dor é que o va­zio os traga len­ta­mente, e os de­mais, pa­ra­li­sa­dos pelo ter­ror, as­sis­tem bo­qui­a­ber­tos ao es­pe­tá­culo lú­gu­bre até que, de modo ine­vi­tá­vel, tam­bém eles se­jam con­su­mi­dos, de­sa­pa­re­cendo por com­pleto.

“No fim, ape­nas eu per­ma­neço ali, in­teiro, ina­tin­gí­vel, tal­vez eu seja aquele su­jeito que sem­pre dei­xam es­ca­par para con­tar a his­tó­ria.”

Ao con­cluir a nar­ra­ção do meu so­nho, meus com­pa­nhei­ros, como sem­pre o fa­zem, prostraram-se em si­lên­cio ra­zoá­vel, al­guns sor­rindo, ad­mi­ra­dos. A ex­pres­são de um de­les, con­tudo, cha­mou mi­nha aten­ção. Era o ho­mem sen­tado à ponta da mesa. 

Ti­nha es­pes­sas so­bran­ce­lhas ne­gras que se jun­ta­vam uma à ou­tra; os olhos, tam­bém ne­gros, eram gran­des e pe­ne­tran­tes. À sua frente, ha­via uma ca­neca de cer­veja pela me­tade. A ponta do ci­garro transformara-se em cinza e pa­re­cia quei­mar seus de­dos sem que ele de­mons­trasse qual­quer re­a­ção. Man­ti­nha os olhos cra­va­dos em mim, olhos que aos pou­cos trans­mi­tiam ódio e pa­vor.

Foi com essa fi­si­o­no­mia de pou­cos ami­gos que ele se le­van­tou abrup­ta­mente, der­ru­bando a ca­deira atrás de si, e apontou-me com o dedo em riste do qual pen­diam ainda par­tí­cu­las da cinza do ci­garro.

– Seu… seu des­gra­çado – ele gri­tou de re­pente.

E em se­guida seus de­dos, sua mão, seu braço co­me­ça­ram a ser de­vo­ra­dos pelo pró­prio bu­raco ne­gro so­bre o qual eu lhes con­tara.

– Isto – ainda gritou-me – é um so­nho! Você está nos ma­tando, um a um…

E não po­dia mais fa­lar. Sua boca aca­bava de ser tra­gada.

Bem, é isto. Quem aí quer ou­vir meus so­nhos?

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