Contos

O badalo misterioso

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014 Texto de
Achei esta foto linda para ilustrar o conto (mas infelizmente não achei o crédito)

Achei esta foto linda para ilus­trar o conto (mas in­fe­liz­mente não achei o cré­dito)

O pe­queno grupo de alu­nos reúne-se de­pois das au­las no­tur­nas para ler em voz alta e dis­cu­tir obras li­te­rá­rias de gran­des au­to­res. Um dos es­tu­dan­tes, fi­lho do dono de uma mo­desta li­vra­ria nas ime­di­a­ções da es­cola, con­ven­cera o pai a ceder-lhes o es­paço para as ses­sões se­ma­nais.

E lá es­tão na­quela noite com­bi­na­dos de fa­lar so­bre Tchékhov*. Para co­me­çar, uma das qua­tro mo­ças ha­via es­co­lhido a lei­tura de um conto pouco co­men­tado cujo tí­tulo da edi­ção que tem em mãos é “Pa­vo­res”.

– É um dos meus pre­fe­ri­dos – interrompe-se de­pois de ler as pri­mei­ras li­nhas, nas quais o nar­ra­dor con­fessa que em toda a sua vida só sen­tiu pa­vor três ve­zes, sendo o pri­meiro caso o de um cam­pa­ná­rio, visto por ele à dis­tân­cia e de onde es­ca­pava uma dé­bil e inex­pli­cá­vel lu­zi­nha: este o ob­jeto do pa­vor enun­ci­ado e so­bre o qual dis­corre o au­tor na parte ini­cial do conto.

Ao ter­mi­nar a lei­tura, en­quanto ob­serva os co­le­gas com seus gran­des olhos cla­ros, a moça detém-se a um ti­que já cap­tado pe­los de­mais e, no­va­mente, as­so­pra os ca­be­los que lhe caem so­bre a face an­tes de acres­cen­tar que tal­vez a his­tó­ria a faça lem­brar uma es­tra­nha pas­sa­gem fa­mi­liar e que tal­vez seja esse o mo­tivo de sua pre­di­le­ção.

– Por que não nos conta? – anima-se a es­tu­dante sen­tada bem à sua frente, do ou­tro lado da mesa, cu­jos ca­be­los apa­ra­dos na testa por uma franja bem curta lhe con­fe­rem uma apa­rên­cia cu­ri­o­sa­mente in­fan­til.

– É uma boa ideia – con­corda um dos ra­pa­zes pa­re­cendo cheio de si ao lado da nar­ra­dora.

– Bem – a moça sorri de um modo tí­mido e sim­pá­tico, dá dois sus­pi­ri­nhos e de novo faz uma ven­ta­nia com a boca na di­re­ção dos ca­be­los, – en­tão aqui vai.

Ela disse as­sim:

– Mi­nha avó, que já é bem ve­lhi­nha, conta que no po­vo­ado onde meu avô mor­reu, isso há bas­tante tempo, ha­via uma igre­ji­nha a me­nos de meio quilô­me­tro da casa de­les. E to­das as ma­dru­ga­das, quando o si­lên­cio era ainda mais fundo do que du­rante o dia, eles ou­viam o sino ba­da­lar a cada uma das ho­ras cheias. Eles vi­ve­ram lá mui­tos anos, até que certo dia as au­to­ri­da­des re­li­gi­o­sas anun­ci­a­ram a re­ti­rada do sino. Na ver­dade, a igre­ji­nha fe­cha­ria suas por­tas ali. Acho que na­quela época o dis­trito se en­con­trava pra­ti­ca­mente de­sa­bi­tado, res­tando ape­nas duas ou três fa­mí­lias de si­ti­an­tes, como eram meus avós. Bem, o caso é que le­va­ram o sino em­bora, mas para eles pa­re­cia que às ve­zes as ba­da­la­das con­ti­nu­a­vam a ecoar pe­los ares do lu­gar. Noite após noite, eles po­diam ju­rar que em cer­tas ho­ras ou­viam o ba­dalo. Até que meu avô mor­reu. É quando vem o des­fe­cho da his­tó­ria. A certa al­tura do ve­ló­rio, mi­nha avó debruçou-se so­bre o ma­rido para beijar-lhe a testa e en­tão sentiu-se como se sa­cu­dida por uma onda de pa­vor e cu­ri­o­si­dade: ela jura que do ou­vido do de­funto va­zava o som de um ba­dalo cu­jas ba­ti­das ces­sa­ram um se­gundo an­tes que ela pu­desse confirmá-las com o tes­te­mu­nho de al­guém pre­sente.

E nisso, quando ela acaba de con­tar o epi­só­dio e to­dos per­ma­ne­cem em si­lên­cio por ins­tan­tes, como se ab­sor­ves­sem al­gum sen­tido da des­pre­ten­si­osa nar­ra­tiva, a ga­rota de fran­ji­nha er­gue as so­bran­ce­lhas e faz um mo­vi­mento com a ca­beça que abarca em seu olhar in­tri­gado todo o teto da li­vra­ria:

– Tem al­guma igreja aqui perto, gente?

De uma vez, todo o grupo volta-se a ela.

– É que… 

Sim, sim. Não é pre­ciso con­ti­nuar. To­dos ali ti­nham ou­vido. O ba­dalo. O ní­tido som, acom­pa­nhado de um breve eco, que atra­ves­sara as pa­re­des, as pra­te­lei­ras, os li­vros, insinuando-se num ru­mor­zi­nho que logo se dis­si­pou.

O som de um ba­dalo – pensa a es­tu­dante que lhes con­tara o pe­queno epi­só­dio. – O som de um ba­dalo que bate eter­na­mente. Um ba­dalo à pro­cura de suas ho­ras. E que por isso mesmo bate para sem­pre. Por­que ja­mais en­con­trará o que se per­deu com o tempo.

Quando se dá conta, agora li­vre de seus de­va­neios re­cen­tes, ela ouve que a da fran­ji­nha já lê ve­loz­mente a se­gunda parte do conto. O per­so­na­gem de Tchékhov está di­ante de um mis­té­rio na noite: na es­cu­ri­dão, so­bre os tri­lhos fer­ro­viá­rios, per­cebe a apro­xi­ma­ção de um ruído que cresce ver­ti­gi­no­sa­mente e, em se­guida, a pas­sa­gem de um grande vulto ne­gro…

*(Nota: uma das gra­fias uti­li­za­das por edi­to­ras bra­si­lei­ras)

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