Crônicas

O dia em que eu toquei violão com o Cartola

sábado, 5 de outubro de 2013 Texto de

A se­guir, re­pro­duzo o re­gis­tro que fiz no meu bloco de ca­be­ceira por volta das cinco da ma­dru­gada de hoje.

Meus so­nhos ge­ral­mente são lon­gas me­tra­gens. Esta noite, po­rém, par­ti­ci­pei de um curta. Eu es­tava to­cando vi­o­lão (logo eu, o cara mais de­sa­fi­nado do mundo) com o Car­tola!

Mas eu sei o mo­tivo. On­tem pas­sou no Ca­nal Bra­sil um do­cu­men­tá­rio so­bre ele e eu vi um tre­cho. E lá es­tá­va­mos Car­tola e eu to­cando vi­o­lão!

A certa al­tura, ele se vira pra mim e diz “Márcio, eu sei por que você é Man­gueira”. E eu “Ah, é? E por que, meu ve­lho?” (eu tam­bém sei o mo­tivo de o ter tra­tado por “meu ve­lho”: é que tam­bém on­tem as­sisti ao filme “O Grande Gatsby”, em que o per­so­na­gem prin­ci­pal car­rega con­sigo esse ca­co­ete).

Bom, en­tão per­gun­tei ao Car­tola “E por que, meu ve­lho?”. E o Car­tola: “Por­que eu e você (ve­jam só: ele, Car­tola, e eu, Márcio ABC!) so­mos sem eira nem beira”.

De­pois de um tem­pi­nho, ele me es­tu­dou com o olhar: “En­ten­deu?”. Mas eu es­tava mudo, com um nó na gar­ganta. “Toca aí, vai”, ele disse em se­guida, como se fosse a coisa mais na­tu­ral do mundo nós dois es­tar­mos lá!

Mas eu con­ti­nu­ava pa­ra­li­sado. Não sei mais se a essa al­tura es­tava so­nhando ou acor­dado. Um se­gundo de­pois, o so­nho con­ti­nuou. De ócu­los es­cu­ros, rindo, ele se vi­rou para o lado. Atrás de sua face ha­via um morro de fa­vela. O sol ilu­mi­nava os ca­se­bres e re­fle­tia seus raios no mar lá adi­ante.

“Bom”, ele se vol­tou a mim no­va­mente, “dá uma tra­gada aí e toca esse ne­gó­cio”. Eu vi um ci­garro en­tre o min­di­nho e o ane­lar da mão di­reita en­quanto ele de­di­lhava o vi­o­lão.

Le­vei o ci­garro à boca e tra­guei (quer di­zer, é ape­nas uma im­pres­são de que tra­guei por­que na ver­dade eu não sei tra­gar). O Car­tola, de novo, es­tava vi­rado para nossa di­reita, olhando de­ti­da­mente o morro. Mas eu não dis­tin­guia mais os ca­se­bres. Agora eu via meu pró­prio re­flexo nos ócu­los es­cu­ros dele. E o meu re­flexo era o de um Márcio ABC já ve­lho (não sei ex­pli­car esse de­ta­lhe do so­nho es­te­ti­ca­mente) e cho­rando de emo­ção por es­tar ali, to­cando com o Car­tola.

Nisso, acor­dei. E, de fato, cho­rava. Não sei se foi im­pres­são, mas tam­bém me su­biu às na­ri­nas um leve aroma de ta­baco.

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