Crônicas

Uma bobagem

segunda-feira, 14 de outubro de 2013 Texto de
Foto: Tiago Santana

Foto: Ti­ago San­tana

Chega à rua quase sem fô­lego.

Es­que­ceu de res­pi­rar. Ba­teu a porta de­pois da briga, nem sabe como aper­tou a te­cla do tér­reo. O ga­roto pa­rou à sua frente bem aí, quando ele se pre­pa­rava para pu­xar o ar, en­cher os pul­mões, ten­tar vol­tar à ra­zão.

Vai pra puta que o pa­riu, mo­le­que, não te­nho di­nheiro ne­nhum.

Aperta o bo­tão para des­li­gar o alarme do carro, en­tra como um cão rai­voso, bate a porta, sai can­tando os pneus. 

Roda dois mi­nu­tos e aquele pe­si­nho na cons­ci­ên­cia co­meça a atormentá-lo. Tra­ba­lha a tarde in­teira di­zendo a si mesmo que é bo­ba­gem. A briga na hora do al­moço, o rom­pante de ódio con­tra o mo­le­que, tudo bo­ba­gem.

À noite, be­bem e fa­zem as pa­zes na cama. Dorme com aquele pe­si­nho. Bo­ba­gem. Ama­nhã vai encontrá-lo e bo­tar dez paus nas mãos dele, só pra ver a cara de fe­li­ci­dade.

Sai à rua de­va­gar. Es­pera a voz in­fan­til chamá-lo de dou­tor, moço ou… não se lem­bra bem do que foi. De­pois do al­moço, demora-se para en­trar no carro. O pe­si­nho. O mal­dito pe­si­nho. Dá vol­tas pelo bairro, olha para as lo­jas pró­xi­mas, as por­tas dos res­tau­ran­tes, as es­qui­nas com se­má­fo­ros onde ou­tros ga­ro­tos jo­gam li­mões para o alto. Nada!

Tra­ba­lha, volta, bebe, transa, acorda, sai. Tra­ba­lha, volta… É um peso, decide-se. É um peso. 

Dou­tor, grita-lhe um ra­pa­zi­nho do ou­tro lado da cal­çada.

Você não, ele avisa, cadê o ou­tro?

Que ou­tro?

O me­nor.

Que me­nor?

Aquele que…

En­tra no carro, res­pira fundo. A nota de dez re­ais no bolso da ca­misa pa­rece incomodá-lo. Tira-a de lá e a en­fia no da calça. A cara do me­nino está no re­tro­vi­sor, no vo­lante, no bo­tão do rá­dio.

To­dos os dias, quando sai de ma­nhã, quando volta para o al­moço, quando olha da sa­cada, quando vai à pa­da­ria, quando, quando… To­dos os dias ele pro­cura aquele ga­roto. É uma ob­ses­são. Conta à mu­lher, de­ta­lha cui­da­do­sa­mente sua des­cri­ção, tem ca­belo quase ras­pado, uma ci­ca­triz bem no alto da testa, sabe?

Ao sair para o tra­ba­lho, tam­bém ela pro­cura ob­ser­var os me­ni­nos das ruas pró­xi­mas.

É este? E mostra-lhe uma foto rou­bada no ce­lu­lar.

Não, é me­nor, tem a ci­ca­triz, lem­bra?

Tal­vez ele te­nha se mu­dado, ela su­gere.

É, pode ser.

Me­lhor es­que­cer isso, afaga-lhe o om­bro.

É, vou ten­tar.

Hoje, na cal­çada, an­tes de en­trar no carro, vê um ga­roto vindo em sua di­re­ção. Sente uma tre­menda ale­gria por­que pa­rece ser ele. Quando o ob­serva de perto, con­tudo, tem dú­vi­das. Não, não é o mesmo do ou­tro dia. O me­nino não lhe pede di­nheiro. Passa como se não o ti­vesse visto. 

Sente a nota de dez re­ais ume­de­cer na palma da mão.

Quem sabe, ama­nhã.

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