O paradeiro do 176-617 | Márcio ABC

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O paradeiro do 176-617

segunda-feira, 2 de setembro de 2013 Texto de

O ga­ro­to de uns oi­to anos lhe pu­xou as cal­ças: - de­le­ga­do, de­le­ga­do, foi ele! – e apon­tou pa­ra o gi­bi na pá­gi­na on­de o 176-617 ti­nha um qua­dri­nho só pa­ra si.

O si­su­do po­li­ci­al, da al­tu­ra de seus 60 anos e de tan­tas ca­ça­das a ban­di­dos, en­tre­gou-se a um ins­tan­te de ter­nu­ra:- Foi mes­mo? Pois va­mos cap­tu­rá-lo – dis­se com um sor­ri­so ao me­ni­no de olhos ar­re­ga­la­dos e so­bran­ce­lhas er­gui­das.

- Fi­ca com ele – a cri­an­ça es­ti­cou o bra­ço e en­tre­gou a re­vis­ti­nha ao de­le­ga­do. – O se­nhor vai pre­ci­sar pa­ra sa­ber quem é o ban­di­do cer­to por­que não é fá­cil achar a di­fe­ren­ça, os três são iguai­zi­nhos!

- Na­da dis­so, meu jo­vem – res­pon­deu com sim­pa­tia o dou­tor Vaz. – Vou es­tra­gar sua lei­tu­ra.

- Fi­ca com ele – in­sis­tiu o me­ni­no. – Se ele vol­tar pa­ra o gi­bi, o se­nhor pe­ga ele!

O de­le­ga­do sol­tou uma gar­ga­lha­da, pas­sou a mão na ca­be­ça do sur­pre­en­den­te in­ter­lo­cu­tor e en­trou na vi­a­tu­ra com o gi­bi em­bai­xo do bra­ço.

- Que gol­pe – dis­se ao in­ves­ti­ga­dor que di­ri­gia. – En­trar num ban­co às du­as da tar­de e na fren­te de to­do mun­do, sem ser per­ce­bi­do, obri­gar o ge­ren­te a pas­sar to­da a gra­na pos­sí­vel!

- Va­mos pe­gá-lo, dou­tor! – ace­le­rou o in­ves­ti­ga­dor.

Iri­am ao dis­tri­to e quem sa­be ao che­gar já te­ri­am in­for­ma­ções no­vas pe­lo rá­dio.

Fa­zia ca­lor e no meio do trân­si­to da ave­ni­da sem ár­vo­res o de­le­ga­do se pôs a ler o gi­bi. Mic­key e Pa­te­ta es­ta­vam no en­cal­ço dos Ir­mãos Me­tra­lha. O ve­lho riu ao se lem­brar do ga­ro­to.

- Os gi­bis des­per­tam uma coi­sa nas cri­an­ças – mur­mu­rou va­ga­men­te pa­ra o ven­to que en­tra­va pe­lo vi­dro aber­to.

O in­ves­ti­ga­dor que di­ri­gia ape­nas olhou pa­ra ele sem di­zer na­da.

O de­le­ga­do vol­tou a fo­lhe­ar a re­vis­ti­nha. E de re­pen­te se de­te­ve nu­ma cer­ta pá­gi­na. Apro­xi­mou-a dos olhos. Os Ir­mãos Me­tra­lha as­sal­ta­vam uma agên­cia ban­cá­ria. Um de­les apon­ta­va a ar­ma pa­ra o ge­ren­te. O ge­ren­te es­tá en­tre­gan­do ao 176-617 um sa­co ver­de com um ci­frão pre­to de­se­nha­do. No qua­dri­nho se­guin­te, o mes­mo 176-617 es­tá vi­ra­do pa­ra o lei­tor com sua ca­ra ter­ri­vel­men­te cô­mi­ca. Mais um qua­dri­nho e... na­da. Es­tá va­zio, não em bran­co, mas va­zio. Há o ce­ná­rio de an­tes, tu­do no seu de­vi­do lu­gar, me­nos o 176-617.

O dou­tor Vaz ain­da vi­ra a pá­gi­na e pas­sa os olhos so­bre os qua­dri­nhos se­guin­tes. E lá es­tão os ou­tros dois ir­mãos, am­bos es­tu­pe­fa­tos em su­as ca­mi­sas ama­re­las e cal­ças e bo­nés azuis, am­bos olhan­do pa­ra o lei­tor, pa­ra ele!

O de­le­ga­do afrou­xa a gra­va­ta, fe­cha o gi­bi e res­pi­ra fun­do. De­pois, ba­lan­ça a ca­be­ça sor­rin­do em si­lên­cio e guar­da o gi­bi no por­ta-lu­vas da vi­a­tu­ra.

Eles es­tão na­que­le tem­po em que, no fim do fil­me, vo­cê via os po­li­ci­ais che­gan­do e po­dia res­pi­rar ali­vi­a­do.

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