Crônicas

Eu acredito em lobisomem (claro!)

terça-feira, 26 de março de 2013 Texto de

Por­que em ju­nho de 2004, numa ma­dru­gada fria e cheia de lua, eu vol­tava a Bauru pela Ron­don, quando avis­tei algo atra­ves­sando a pista len­ta­mente. Era muito grande para um ca­chorro e muito pe­queno para um ca­valo. Re­duzi ime­di­a­ta­mente a ve­lo­ci­dade para evi­tar o aci­dente e ao mesmo tempo pu­xei a ala­vanca para dar luz baixa, o que ajuda a não dei­xar o ani­mal con­fuso em sua tra­ves­sia.

É ób­vio que todo o epi­só­dio se de­sen­ro­lou em ins­tan­tes, coisa de vinte, trinta se­gun­dos. Mas é certo que ao pas­sar bem atrás da­quela coisa que ha­via atra­ves­sado a es­trada, ao observá-la de re­lance, ao percebê-la agora pa­rada com todo o corpo na di­re­ção oposta e ape­nas a ca­beça vi­rada para ob­ser­var o carro (e tal­vez a mim!), ao son­dar com re­ceio e cu­ri­o­si­dade sua fuça de boca se­mi­a­berta, tive a cer­teza (como te­nho até hoje!) de que não se tra­tava de qual­quer ani­mal que eu ti­vesse visto ou ima­gi­nado ver um dia. 

Eu ti­nha atra­ves­sado a ponte do rio Ba­ta­lha e agora es­tava no iní­cio da su­bida em cujo topo hoje há o pe­dá­gio (que na época não exis­tia). Vi­a­java num Corsa mil. Da bai­xada ao topo o per­curso deve ser de uns dois quilô­me­tros. To­dos sa­bem como um carro mil de­mora para pe­gar ve­lo­ci­dade numa su­bida quando se en­con­tra de­sa­ce­le­rado. Fo­ram os dois quilô­me­tros mais per­tur­ba­do­res da mi­nha vida. 

A sen­sa­ção era de que a coisa vi­nha no meu en­calço. Foi a única vez até hoje em que senti um ar­re­pio atin­gir até mesmo as so­bran­ce­lhas. Ro­dei o res­tante a 140 por hora. Se uma vi­a­tura po­li­cial ti­vesse ten­tado me pa­rar, os jor­nais tal­vez trou­xes­sem uma his­tó­ria de per­se­gui­ção na Ron­don. Por­que eu não iria pa­rar, não. De jeito ne­nhum.

(Em tempo: eu te­nho vá­rios CDs do Zé Ra­ma­lho e na­quela época eu ou­via muito um que tem a mú­sica “Mis­té­rios da meia-noite”. Fi­ca­ria bem en­cai­xada no epi­só­dio, claro. Mas não vou encaixá-la aqui por­que re­al­mente não es­tava to­cando e por­que isto não se trata de fic­ção.)

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