Crônicas

A saga dos meus três cachorros

sexta-feira, 22 de março de 2013 Texto de
Não tenho fotos dos meus três cachorros, mas este é bem parecido com o Pançi filhote

Não te­nho fo­tos dos meus três ca­chor­ros, mas este é bem pa­re­cido com o Pançi fi­lhote

Ca­pí­tulo 1

Xwck (tra­du­ção: xuc) era o nome dele. Nada a ver com Chucky, que sur­giu bem de­pois.

Meu ca­chorro, o pri­meiro de um to­tal de três que eu tive quando era sol­teiro e mo­rava na casa dos meus pais, é de 1976 mais ou me­nos. E ao con­trá­rio do bo­neco as­sas­sino, era lindo. Bem, não quando o en­con­trei sendo co­mido por for­mi­gas no meio de um ma­ta­gal. À beira do mato, ouvi um gru­nhido em rumo in­certo, mas as­sim mesmo vas­cu­lhei o lo­cal. E o en­con­trei. Em torno dele, as for­mi­gas for­ma­vam um só corpo. O cho­ri­nho que eu ou­via não era dele, mas da mãe, uma ca­dela vira-lata que, sem ter o que fa­zer di­ante da vo­ra­ci­dade do for­mi­gueiro, emi­tia ape­nas um triste la­mento.

Levei-o para casa pra­ti­ca­mente em carne viva, dei ba­nho e o ali­men­tei. Ele se re­cu­pe­rou bem. E vi­veu al­guns me­ses, até o dia em que um Fusca creme, di­ri­gido por uma pro­fes­sora, pas­sou por cima dele na rua em frente de casa. Fo­ram três ho­ras de so­fri­mento. Com he­mor­ra­gia in­terna, ele tei­mava em não mor­rer. Fi­quei com ele todo o tempo em­baixo da mesa da va­randa. Ele mor­rendo e eu cho­rando.

A mãe fi­cou por lá. Ao con­trá­rio do Xwck, era bem feia. Nós a ado­ta­mos e ela pas­sou a di­vi­dir o es­paço ca­nino com ou­tro ca­chor­ri­nho, mas este era do meu pai. Cu­ri­o­sa­mente, um ou dois anos mais tarde, a ca­dela tam­bém mor­reu atro­pe­lada. Meu pai es­tava no por­tão e viu a cena. Ele ainda a cha­mou. Ela se le­van­tou do as­falto e, mesmo ca­ba­le­ando, veio mor­rer com a ca­be­ci­nha so­bre os pés do dono.

(Apên­dice do Ca­pí­tulo 1)

Fui in­justo ao des­cre­ver quase fri­a­mente a morte da mãe do Xwck. E quero aqui me cor­ri­gir. Na ver­dade, pen­sando bem, a Preta foi du­rante os dois ou três anos que es­teve por ali uma ca­dela es­pe­cial. Como eu es­crevi no epi­só­dio do atro­pe­la­mento de seu fi­lho, ela era um ani­mal feio e de­sen­gon­çado. Em­bora re­ce­besse o nosso ca­ri­nho, ja­mais atraiu de ou­tras pes­soas qual­quer olhar de ad­mi­ra­ção ou uma pa­la­vra de apreço. E o in­te­res­sante é que ela pa­re­cia ter cons­ci­ên­cia dessa con­di­ção, com­por­ta­mento que re­mete di­re­ta­mente à tese que eu de­fendo há tem­pos: o ín­timo de um ca­chorro não é com­posto ape­nas do que co­nhe­ce­mos como ins­tinto. Acho que nele tam­bém há uma es­pé­cie de alma.

Mas vol­tando à ques­tão ter­rena, a Preta pa­re­cia co­nhe­cer sua po­si­ção de ca­chorra que só es­tava ali com aquela fa­mí­lia por causa do fi­lho que eu ha­via en­con­trado sendo co­mido pe­las for­mi­gas. Ela pa­re­cia com­pre­en­der que mo­rava ali por um “fa­vor”. Quando por al­gum mo­tivo a cha­má­va­mos, ela nos aten­dia de modo fla­gran­te­mente tí­mido, contorcendo-se, arrastando-se ao chão pe­los úl­ti­mos me­tros que nos se­pa­ra­vam. Era de fa­zer pena. Mas ela nunca mu­dou essa ati­tude.

E no dia de seu atro­pe­la­mento, tam­bém foi as­sim. Quando meu pai a viu des­tro­çada após o aci­dente e a cha­mou, a Preta levantou-se do as­falto e veio mor­rer aos seus pés, com a ca­beça li­te­ral­mente pou­sada so­bre seus pés. E veio como se aquele úl­timo ato fosse um pe­dido de des­cul­pas pela fa­lha grave e fa­tal que aca­bara de co­me­ter.

Ca­pí­tulo 2

No co­meço da dé­cada de 1980, eu tra­ba­lhava numa loja. Ao vol­tar para casa num sá­bado, já de noite, avis­tei a al­guns me­tros à frente, na mesma cal­çada em que eu ca­mi­nhava, uma pe­quena bola cinza que se mo­via len­ta­mente. Ao me apro­xi­mar um pouco mais, vi do que se tra­tava: um fi­lhote de ca­chorro, tal­vez com duas ou três se­ma­nas de vida. Olhei para os la­dos, para os por­tões das ca­sas pró­xi­mas, para uma ou ou­tra pes­soa ali por perto e nada me di­zia que o ani­mal­zi­nho ti­vesse qual­quer re­la­ção com o lo­cal. Sem pen­sar mais, re­solvi levá-lo para casa.
Fora o tra­di­ci­o­nal choro du­rante a ma­dru­gada, o ca­chor­ri­nho agra­dou a todo mundo. Era re­al­mente uma bo­li­nha. Gordo. E muito brin­ca­lhão. O fim de se­mana pas­sou e veio a segunda-feira. De­pois do tra­ba­lho e an­tes de ir para a es­cola, re­cebi da mi­nha mãe a triste no­tí­cia. À tarde, uma mu­lher, junto com uma cri­ança, bus­cara o ca­chorro. “A me­nina até fi­cou do­ente de­pois que ele su­miu”, jus­ti­fi­cou a mãe. A mi­nha (mãe) não teve dú­vi­das e o “de­vol­veu”. Claro, fi­quei puto da vida. Já ti­nha gos­tado dele, como gos­ta­mos dos ani­mais que de re­pente apa­re­cem e en­tram em nos­sas vi­das.
No ou­tro dia, na hora do al­moço, ainda triste pelo epi­só­dio, che­guei em casa e ao en­trar na va­randa dos fun­dos quem en­con­tro, todo fes­tivo, pu­lando para lá e para cá? Sim, ele mesmo. A mu­lher ti­nha vol­tado na­quela ma­nhã e de­vol­vido o fi­lhote. Ex­pli­cou à mi­nha mãe que se en­ga­nara e o ver­da­deiro cão­zi­nho da fi­lha ha­via re­a­pa­re­cido.
Fi­nal fe­liz para to­dos. Quase.
Dei o nome a ele de Pançi. As­sim mesmo: Pançi, ori­gi­ná­rio de pança. Ele era bem pan­çudo. Em pou­cos me­ses se tor­nou um belo vira-lata mas­sudo. Mas veio o dia em que à noi­ti­nha o per­ce­be­mos triste, amu­ado. No dia se­guinte ama­nhe­ceu morto, ab­sur­da­mente in­chado. De­ram a ele o que cha­má­va­mos de “bola”, al­guma co­mida en­ve­ne­nada.
Nós o en­ter­ra­mos no quin­tal. Mas não me lem­bro mais exa­ta­mente onde. 

Ca­pí­tulo 3

Dei o nome de João­zi­nho ao meu ter­ceiro e úl­timo ca­chorro. É que desde o pri­meiro dia, ainda fi­lhote, ele me pa­re­ceu ser muito in­te­li­gente. Por­tanto, ti­nha que le­var um nome de gente, eu pen­sei. E não deu ou­tra. Foi o mais es­perto e di­ver­tido dos três.
Fim dos anos 1980, meus qua­tro so­bri­nhos iam es­tu­dar jun­tos, sendo que o tra­jeto de­les in­cluía a rua onde mo­rá­va­mos. E o João­zi­nho os es­pe­rava no por­tão às sete da ma­nhã para ir com eles à es­cola! Numa ou ou­tra oca­sião, aliás, foi bar­rado por ten­tar en­trar na sala de aula.
Eu ha­via me for­mado em jor­na­lismo e aca­bei saindo nessa época da casa de meus pais. Num certo dia, mi­nha mãe me avi­sou por te­le­fone so­bre um fato es­tra­nho: o João­zi­nho não dava as ca­ras já fa­zia vinte e qua­tro ho­ras. Ha­via sim­ples­mente su­mido.
Vi­a­jei o mais rá­pido que pude e, com a ajuda de meus so­bri­nhos, vas­cu­lhei a ci­dade à pro­cura dele, in­cluindo o li­xão para onde muita gente des­pa­chava os cor­pos de seus ca­chor­ros. Mas nada. Nem uma pista.
No fim me con­for­mei com aquele des­tino. Ima­gi­nar que ao me­nos o João­zi­nho não ti­nha mor­rido como os an­te­ri­o­res ser­viu como con­solo. De­certo foi le­vado por al­guém que gos­tou muito dele. Es­pero que ele te­nha sido bem tra­tado e fe­liz com seu novo dono. Quando ama­mos al­guém ou al­gum ani­mal, não é esse o sen­tido do ver­da­deiro amor? De­se­jar sin­ce­ra­mente que quem ama­mos es­teja bem, fe­liz e tal­vez me­lhor do que se es­ti­vesse ao nosso lado? 

*** Fim ***

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