Contos

O coronel e o cabeleireiro nas barbas do sertão

quarta-feira, 27 de março de 2013 Texto de

Na­quela época era a pas­sa­gem dos ve­lhos tem­pos para os no­vos. Os co­ro­néis ainda man­da­vam, mas não man­da­vam. As leis va­liam, mas não va­liam. As gen­tes ti­nham pre­con­cei­tos, mas não ti­nham. An­tes do al­moço, na hora do ape­ri­tivo, no bal­cão de ma­deira, di­ante do cá­lice de ca­chaça, o co­ro­nel Man­duri en­tor­nava o ape­ri­tivo.

– Mas do que se trata o novo ne­gó­cio aí em frente? – per­gun­tou ao co­lega co­ro­nel Quei­xada ao ob­ser­var um tol­di­nho verde recém-instalado so­bre uma porta de vi­dro.

– Ah, e o amigo não sabe? – res­pon­deu com um ar ma­treiro. – Ali abriu hoje um ca­be­lei­reiro unis­sex!

O co­ro­nel Man­duri olhou o ou­tro de cima a baixo.

– Ca­be­lei­reiro uni de que quan­tas?

– Unis­sex, unis­sex! – re­pe­tiu o co­ro­nel Quei­xada, passando-se por mo­der­noso.

O co­ro­nel Man­duri o olhou de novo, agora de baixo a cima. E pe­diu mais uma para o ven­deiro.

– E isso lá existe?

– Se existe? Mas se até teve gente que foi lá!

– Mas o que vem a ser tal uni?

– Bom, o ra­paz que se es­ta­be­le­ceu aí corta ca­belo tanto de ho­mem como de mu­lher…

O co­ro­nel Man­duri aper­tou os olhos na di­re­ção do sa­lão do ou­tro lado da rua.

– Ca­be­lei­reiro sex! Aqui não tem lu­gar pra es­sas fres­cu­ras!

– Ah, tem sim! 

– Pois eu digo que não vai ter é ja­zi­nho!

– E o que o amigo vai fa­zer?

– Pois vou até lá man­dar esse su­jei­ti­nho se ar­ran­car pra ou­tras ban­das.

– Na bala?

O co­ro­nel Man­duri ma­tu­tou, aca­ri­nhando de leve o cabo do re­vól­ver na cin­tura, pen­sando nas mal­di­tas leis que ha­viam che­gado e não pa­ra­vam de che­gar.

– Pois vou dar um susto nele, vou man­dar esse su­jei­ti­nho me apa­rar o ca­belo do saco.

O co­ro­nel Quei­xada mo­lhou de pinga o pa­letó branco de­pois de cus­pir a be­bida in­vo­lun­ta­ri­a­mente.

– Não brin­que!

– Pois vou ja­zi­nho!

E foi.

– O se­nhor é o ca­be­lei­reiro uni não sei das quan­tas? – per­gun­tou a um ra­pa­zi­nho novo de­pois de ave­ri­guar que não ha­via mais nin­guém no sa­lão.

– E o se­nhor de­seja um corte mo­derno? – o ou­tro de­vol­veu.

– É – o co­ro­nel as­sen­tiu com a ca­beça na di­re­ção do ca­be­lei­reiro, – de­sejo sim. Bem mo­derno.

E quando ex­pli­cou a ofensa, ou­viu do ra­pa­zi­nho uma res­posta res­pei­tosa, mas nada agra­dá­vel.

– Olhe, seu co­ro­nel, pra di­zer a ver­dade ainda es­tou no co­meço da mi­nha car­reira – justificou-se en­quanto abria e fe­chava a te­soura com um ruído ir­ri­tante. – Às ve­zes aci­den­tes acon­te­cem, o se­nhor sabe, um cor­te­zi­nho aqui, ou­tro ali.

O co­ro­nel sal­tou um passo atrás, fun­gou e saiu sem dar bom dia.

Do ou­tro lado da rua, o co­ro­nel Quei­xada o aguar­dava, an­si­oso, na cal­çada.

– E en­tão, o amigo já cum­priu com a pa­la­vra tão de­pressa as­sim?

O co­ro­nel Man­duri pas­sou por ele bu­fando.

– Dá mais uma – gri­tou ao bal­co­nista.

E de­pois de en­cher o bu­cho de ca­chaça, olhou para o co­lega, que ainda aguar­dava a res­posta.

– Mu­dei de ideia – disse por fim.

E dei­xando o di­nheiro da be­bida so­bre o bal­cão, pôs-se a ca­mi­nho. Mas na porta virou-se para o amigo:

– Vou fa­zer rabo de ca­valo!

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