Contos

A origem das coisas: piada de velório

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Texto de

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“No ve­ló­rio de Adão, a ser­pente – que ha­via fi­cado ami­cís­sima de Eva – per­gunta à viúva: vai enterrá-lo ves­tido com a fo­lha de par­reira? E ela res­ponde: ah, vou, mas nem pre­ci­sava, viu, que­rida? Uma fo­lha­zi­nha de la­ran­jeira já re­sol­via. E diz que as duas não po­diam mais olhar uma para a ou­tra sob a ame­aça de pas­sa­rem o ve­ló­rio in­teiro rindo.”

– Ai, só você mesmo, Al­tair – re­a­giu mi­lha­res de anos de­pois, en­tre a la­mú­ria e o di­ver­ti­mento, ou­tra viúva, der­ra­mando duas ou três lá­gri­mas que en­xu­gava com um lenço branco, di­ante da pi­a­di­nha con­tada pelo amigo do ma­rido, que sen­tara com ela ao lado do cai­xão e pe­gara sua mão di­reita com as duas dele.

– Teté ado­rava pi­a­das – ainda disse ele em tom nos­tál­gico, com o olhar per­dido.

– Quem? – a viúva per­gun­tou sem compreendê-lo.

– Ah, era um ape­lido do Telmo – res­pon­deu Al­tair, como se ti­vesse acor­dado de suas qui­me­ras, dando pal­ma­di­nhas na mão da viúva, que ainda se­gu­rava en­tre as suas.

Passaram-se al­guns ins­tan­tes de si­lên­cio. A viúva en­xu­gou mais al­gu­mas lá­gri­mas.

– Éra­mos apai­xo­na­dos um pelo ou­tro – disse de re­pente Al­tair, en­tão com se­tenta e pou­cos anos.

– Eram mesmo – as­sen­tiu emo­ci­o­nada a viúva, ba­lan­çando a ca­beça para baixo e para cima, para baixo e para cima.

– Sabe, Irene? – tor­nou Al­tair, como se vol­tasse a uma lon­gín­qua di­va­ga­ção. – Nós não ía­mos a jogo de car­tas ne­nhum. Fi­cá­va­mos por aí, ro­dando de carro à noite, con­ver­sando so­bre a vida, de­pois…

– Que im­porta isso agora? – cor­tou a viúva sob amar­gura pró­pria da cir­cuns­tân­cia. – Vo­cês ti­nham uma bela ami­zade e é isso que fi­cou.

Uma mu­lher de preto veio cumprimentá-la. Ela ergueu-se para re­ce­ber os pê­sa­mes e em se­guida foi dar mais uma es­pi­ada no de­funto.

– Irene – ela ou­viu a voz de Al­tair bem perto, feito um sus­surro, – ele que­ria que eu con­tasse a você de­pois de sua morte: nós éra­mos aman­tes.

A viúva, en­tão, le­vou o lenço branco à boca como se se­gu­rasse o vô­mito ou uma tosse re­pen­tina. Mas não lhe foi pos­sí­vel. Assemelhando-se ao som de um te­cido se ras­gando, mesmo tendo ela aper­tado o mais que po­dia o lenço con­tra os lá­bios, de sua boca es­ca­pou uma gar­ga­lhada que quase a su­fo­cou di­ante de ve­la­do­res atô­ni­tos.

– Ai, só você mesmo pra me fa­zer rir numa hora des­sas, Al­tair! – disse ela, em­pur­rando de leve o ve­lho amigo do ma­rido para o lado. 

E no­va­mente, en­tre lá­gri­mas e lap­sos de sor­riso que pro­cu­rava dis­far­çar com o lenço à boca, pôs-se a ajei­tar o veu­zi­nho da ca­be­ceira do cai­xão para que a fita de seda não con­ti­nu­asse a in­co­mo­dar a cal­ví­cie do de­funto.

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