Contos

Primeiro amor com vista para o mar

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013 Texto de

Do alto do morro, Nando viu aquela onda vindo lá do mar, a maior de to­das, sem dú­vida. De ma­nhã, ele sen­tava num muro de con­ten­ção a uns vinte me­tros abaixo de onde mo­rava. Só pra fi­car olhando lá longe, a água como num de­se­nho em mo­vi­mento até es­pu­mar na areia. Mas hoje al­guma coisa es­tava er­rada.

Quando a onda não pa­rou na areia, quando en­go­liu toda a orla e mesmo as­sim con­ti­nuou avan­çando, Nando fi­cou em pé e um pen­sa­mento o ame­dron­tou: será que a mãe ia acer­tar quando sem­pre di­zia “é o fim do mundo”?

A onda era gi­gante, o mar todo até onde sua vi­são al­can­çava transformara-se numa bo­lha gi­gante. A praia de­sa­pa­re­cera lá em­baixo. Nando agora es­tava em pé so­bre o muro e ar­re­ga­lou uns olhos deste ta­ma­nho: “ca­cete”. O “ce” es­ca­pu­liu de sua boca ti­nindo, pois Nando fi­cara ban­guela ha­via pou­cos dias com a perda dos dois den­tes de leite da frente.

As ár­vo­res da ave­nida à beira-mar ti­nham su­mido. E, sem en­con­trar se­quer força para ur­rar, Nando sol­tou um gru­nhido aba­fado quando viu des­pen­car o pri­meiro pré­dio.

Olhou para trás, para a di­re­ção de sua casa, pen­sou na mãe, mas ela saíra logo cedo para o tra­ba­lho de do­més­tica. Nando olhou lá para baixo ou­tra vez. Sua mãe fora para lá. A água con­su­mia ra­pi­da­mente toda a ci­dade sob seu in­tra­du­zí­vel olhar.

Foi quando, ao seu lado, apa­re­ceu a Tita. Ao me­nos foi o que ele en­ten­deu quando per­gun­tou seu nome em meio aos gri­tos e à cor­re­ria que se ins­ta­la­ram na fa­vela. Ater­ro­ri­zada, ela agar­rara a mão dele e agora es­ta­vam os dois como na­mo­ra­dos ob­ser­vando, ma­ra­vi­lha­dos, o Rio de Ja­neiro.

Ne­nhum dos dois la­men­tou a ci­dade sub­mersa, pois não ti­nham acesso a nada da­quela ci­dade, não a co­nhe­ciam e não po­diam an­te­ci­par qual­quer sau­dade so­bre o que não fa­ziam ideia. Am­bos te­miam isto sim pelo morro e pelo quase nada que o morro lhes dava. 

Quando per­ce­be­ram a água su­bindo já bem perto, qui­se­ram cor­rer, mas não pu­de­ram sair do lu­gar. O ter­ror os imo­bi­li­zara.

En­tão, Nando aper­tou ainda mais a mão­zi­nha de Tita. E ela aper­tou ainda mais a dele. E Nando sen­tiu um aperto tão forte no co­ra­ção que sem sa­ber soube do que se tra­tava: que ele ama­ria Tita para sem­pre.

E a água veio. E to­mou tudo. 

Não há mais ci­dade, não há mais morro. Mas Nando e Tita es­tão lá sim. Por­que quando se sente o que Nando sen­tiu, quando se sente um amor de ver­dade, aquele ins­tante não há água nem fim de mundo que des­man­che. Aquele ins­tante fica lá pra sem­pre.

E da­qui a dois mil anos, quando al­guém pas­sear de barco por lá, vai sen­tir o ou­vido zu­nir e vai pen­sar – er­rado – que em seus tím­pa­nos há um som, como se rom­pesse dis­tante: tuntum-tuntum-tuntum-tuntum.

Compartilhe