Crônicas

O enterro (de João Marcos Blanco Dias)

terça-feira, 5 de março de 2013 Texto de

Foi meu ir­mão quem in­ven­tou o plano: “va­mos dis­pen­sar o car­ri­nho de ro­das e le­var o Mar­cos no braço”. Da sala de ve­ló­rio ao tú­mulo, uns du­zen­tos me­tros, dos quais a me­tade em su­bida ín­greme. De­pois de con­sul­tar­mos um quó­rum mí­nimo de seis, mais dois ou três para o re­ve­za­mento, tudo apro­vado.

Duas da tarde, muito sol em São Paulo. Sob forte emo­ção, saí­mos com o cai­xão. Quando você pega uma ge­la­deira, um ar­má­rio ou uma caixa pe­sada, sua força condensa-se num ob­je­tivo único: car­re­gar. Quando você pega a alça de um cai­xão e den­tro vai al­guém que você ama, sua força, ao in­vés de condensar-se, esparrama-se: na co­mo­ção, na tris­teza, nas lem­bran­ças, no aperto de seu co­ra­ção des­tro­çado.

Sua força he­sita, os­cila e por fim va­cila. Mas é pre­ciso le­var o plano até o fim. Você en­tão re­cons­ti­tui a força com­ba­lida. Es­ta­mos ini­ci­ando a su­bida ín­greme. A mai­o­ria com a parte fí­sica des­pre­pa­rada funga dis­far­ça­da­mente.

Logo atrás vem o som de pés que se ar­ras­tam, que sus­ten­tam cor­pos de­bi­li­ta­dos pelo so­fri­mento da perda, al­mas an­gus­ti­a­das que se en­chem de per­gun­tas sem res­pos­tas. Mas é pre­ciso le­var o plano até o fim, até o fim! 

O pe­lo­tão res­pira pe­no­sa­mente, as mãos su­a­das es­cor­re­gam nas al­ças li­sas, os pas­sos tornam-se pe­sa­dos, fal­tam pou­cos me­tros, nós que­re­mos che­gar, es­ta­mos na reta fi­nal de uma ho­me­na­gem que qui­se­mos pres­tar, nos­sos co­ra­ções agora ba­tem a toda, o ja­zigo aberto está logo ali, as flo­res bri­lhando ao sol, a terra aguar­dando para sua em­bos­cada fi­nal, uma leve brisa pas­sando pe­las fo­lhas das ár­vo­res e lam­bendo nos­sos ros­tos re­so­lu­tos.

Va­mos até lá, até o va­zio es­curo, va­mos até onde for pre­ciso por­que em nosso ín­timo re­benta a im­po­tên­cia ine­xo­rá­vel so­bre o juízo da vida e, in­con­for­ma­dos com isso, que­re­mos ao me­nos mos­trar que com aquele car­ri­nho fi­lho da puta nós po­de­mos.

Não, car­ri­nho! Nós é que va­mos car­re­gar o Mar­cos para seu sono eterno, para sua ou­tra vida ou para o des­co­nhe­cido. Por­que você, car­ri­nho, é só um monte de fer­ros e plás­ti­cos. E nós so­mos de carne e osso. De san­gue e sen­ti­mento. De corpo e alma. E nossa frá­gil hu­ma­ni­dade é o que nos faz que­rer essa pe­quena vin­gança so­bre você. Nós o es­co­lhe­mos, nós o de­sa­fi­a­mos.

Che­ga­mos! E um co­chi­cho unís­sono em nos­sos pen­sa­men­tos per­passa o gra­mado verde do ce­mi­té­rio e nos traz de volta o do­mí­nio da si­tu­a­ção: por­que nós o em­ba­la­mos, Mar­cos. E isso nos basta. 

Nem quase olha­mos mais para o car­ri­nho, a essa al­tura só uma es­tru­tura boba que aca­ba­mos de der­ro­tar com nosso amor.

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