Crônicas

Victória, 24

terça-feira, 6 de novembro de 2012 Texto de

Há um sé­culo, em 1912, nas­cia a me­nina Vic­tó­ria. Ela mor­reu em 1936, aos 24 anos! Está es­crito na lá­pide de seu tú­mulo, no Ce­mi­té­rio da Sau­dade, em Bauru. En­quanto es­pe­rá­va­mos que o corpo do pai de um amigo fosse en­ter­rado, sem que­rer fui atraído para aquela pla­qui­nha dou­rada (agora não sei mais se era dou­rada ou se era o re­flexo do sol forte, mas acho que era sim).

Não sei por que fi­quei pen­sando em sua tra­gé­dia, na tra­gé­dia para sua fa­mí­lia, para as pes­soas que a ama­vam. Há sen­sa­ções que não po­de­mos ex­pli­car. E acho que nem de­ve­mos ten­tar. Elas sim­ples­mente co­lam em nossa alma e pronto. Ao meu lado, es­ta­vam dois ami­gos – João Pe­dro Feza e Sér­gio Pais. Um de­les (tam­bém não me lem­bro qual) co­men­tou algo do tipo “quan­tas his­tó­rias aqui”. Sim, ver­dade. Quan­tas his­tó­rias es­tão guar­da­das num ce­mi­té­rio. Mas es­pe­ci­fi­ca­mente a de Vic­tó­ria foi a que me atraiu. A his­tó­ria que não sei.

Em “Nê­me­sis”, Phi­lip Roth es­creve (so­bre o en­terro de um ga­roto que morre de po­li­o­mi­e­lite du­rante uma epi­de­mia em 1944):

“… Aquela caixa em que um ga­roto de doze anos fi­cava com doze anos para sem­pre. Nós to­dos vi­ve­re­mos e en­ve­lhe­ce­re­mos a cada dia, po­rém ele per­ma­nece com doze anos. Mi­lhões de anos se pas­sam, mas ele tem ainda doze anos.”

Nós es­ta­mos em 2012. Cem anos se pas­sa­ram desde o nas­ci­mento de Vic­tó­ria. Se­tenta e seis, desde sua morte. E Vic­tó­ria con­ti­nua com 24 anos!

Saí­mos do ce­mi­té­rio. Em­bora eu ten­tasse obri­gar meus pen­sa­men­tos con­ver­gi­rem para a fa­mí­lia de quem ha­vía­mos en­ter­rado, de­se­jando que seus mem­bros en­fren­tas­sem bem a si­tu­a­ção, a his­tó­ria que eu não sei de Vic­tó­ria não me saía da ca­beça.

Do que ela pode ter mor­rido aos 24 anos?!? Terá sido uma do­ença boba que hoje cu­ra­mos com al­guns com­pri­mi­dos? Uma do­ença que ainda hoje não con­se­gui­mos de­be­lar? Uma do­ença que nunca se co­nhe­ceu? Aci­dente? Vic­tó­ria terá dei­xado fi­lhos, que lhe te­rão feito ne­tos? Se ti­vesse vi­vido, o que ela te­ria feito a mais do que con­se­guiu em ape­nas 24 anos? 

Tan­tas per­gun­tas, mas ne­nhuma res­posta. Ape­nas a in­qui­e­tude. A lá­pide acu­sando 1912-1936. 

À noite, ro­lando na cama, caiu-me uma von­tade ter­rí­vel, in­con­tro­lá­vel. Algo que eu não fa­zia há anos. En­tão, sub­misso e crente, re­zei para ela. 

Men­tira. Não re­zei. Não en­con­tro muito sen­tido na ora­ção como nos é de­ter­mi­nada. Pre­firo um bate-papo im­pro­vi­sado, de acordo com a de­manda do mo­mento. Acho mais sin­cero e ver­da­deiro de mi­nha parte. Ve­jam o que digo: “de mi­nha parte”. Não es­tou pondo em dú­vida a fé de nin­guém que reza. Es­tou ape­nas re­ve­lando como se dá mi­nha re­la­ção com o des­co­nhe­cido.

En­fim, a noite pas­sou. Hoje, agora há pouco, ten­tando ima­gi­nar um fi­nal ra­zoá­vel para esta es­tra­nha crô­nica, pen­sei em con­cre­ti­zar o de­sejo não re­a­li­zado. Tro­pe­çando nas vír­gu­las, ten­tando me lem­brar das pa­la­vras, do ritmo cor­reto, en­ga­tei um Pai Nosso e uma Ave Ma­ria. Mas saí­ram tão mi­se­rá­veis que de­sisti. Eu não te­ria sido sin­cero co­migo. Nem com Vic­tó­ria.

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