Crônicas

Coveiros de jornais

quarta-feira, 7 de novembro de 2012 Texto de

Fla­grante de jor­nal após a pas­sa­gem de cer­tos con­sul­to­res

Há uma es­pé­cie no meio im­presso que às ve­zes passa des­per­ce­bida, prin­ci­pal­mente nes­tes tem­pos de in­cer­te­zas e rá­pi­das trans­for­ma­ções de­sen­ca­de­a­das pe­las no­vas pla­ta­for­mas tec­no­ló­gi­cas. São os con­sul­to­res es­per­tos, aque­les que se apro­vei­tam dos maus mo­men­tos alheios para ga­nhar a vida. Claro que há bons pro­fis­si­o­nais nas con­sul­to­rias, mas aqui eu me re­firo aos ou­tros.

Feito um bando de uru­bus, pou­sam so­bre a car­niça e ali per­ma­ne­cem até esgotá-la. De­pois, ba­tem as asas e vão pro­cu­rar no­vas ví­ti­mas.

É in­te­res­sante no­tar seus há­bi­tos. Ge­ral­mente, car­re­gam sob sua em­pá­fia o mesmo re­per­tó­rio pi­sado e re­pi­sado, o mesmo dis­curso va­ga­bundo e pre­pa­rado para ou­vi­dos an­si­o­sos por boas no­vas.

Eles já fi­ze­ram de tudo por aí afora. Res­sus­ci­ta­ram jor­nais que es­ta­vam na boca de fa­lir. Re­vi­go­ra­ram jor­nais que es­ta­vam na UTI. Sal­va­ram jor­nais que não ti­nham mais es­pe­ran­ças. E por aí vai. Quase sem­pre são ex­pe­ri­ên­cias dis­tan­tes, di­fí­ceis de che­car em sua es­sên­cia. Na Es­pa­nha, tor­na­ram um tí­tulo lí­der de mer­cado do dia para a noite. Na França, como num to­que de Mi­das, ele­va­ram a ti­ra­gem de 2 exem­pla­res para 1 mi­lhão em uma se­mana.

As reu­niões, ge­ral­mente ob­ser­va­das por em­pre­sá­rios e exe­cu­ti­vos aten­tos e se­den­tos pela so­lu­ção que até on­tem lhes pa­re­cia ser im­pos­sí­vel, re­ser­vam mo­men­tos ina­cre­di­tá­veis que po­de­riam ser di­ver­ti­dos caso fi­zes­sem parte de um des­ses se­ri­a­dos de co­mé­dia. Se der corda, eles re­ve­lam que na França, en­quanto im­plan­ta­vam o tal pro­jeto sal­va­dor, ti­ve­ram um en­con­tro se­creto com Nossa Se­nhora de Lour­des. E ali per­ti­nho de­sen­vol­ve­ram um plano para unir os po­vos da Es­pa­nha.

O mais ri­sí­vel é que eles pa­re­cem mesmo acre­di­tar no que di­zem. Pa­re­cem mesmo acre­di­tar que são bons. Não pes­qui­sam o pú­blico lei­tor das re­giões onde vão atuar, des­pre­zam as opi­niões de quem co­nhece os mer­ca­dos lo­cais, to­mam de­ci­sões ba­se­a­das em sua larga ex­pe­ri­ên­cia na Eu­ropa, nos Es­ta­dos Uni­dos, na Gré­cia An­tiga.

Com seus no­mes pom­po­sos de reis, há mo­men­tos em que caem na pró­pria ar­ma­di­lha. Num ato de con­des­cen­dên­cia di­ante dos po­bres mor­tais, des­cem de seu falso Olimpo e re­sol­vem to­car o pro­jeto pes­so­al­mente. Afi­nal, para sair bem feito é pre­ciso que você mesmo faça. Grande ilu­são! Fi­asco to­tal. Nada dá certo. Mas tudo é per­fei­ta­mente pre­vi­sí­vel. A in­com­pe­tên­cia apa­rece quando eles dei­xam o dis­curso e se en­tre­gam à prá­tica. Não sa­bem nada. São va­zios. De­sa­gre­gam. De­ce­pam equi­pes. Des­va­lo­ri­zam o pro­duto. Me­tem, en­fim, os pés pe­las mãos. 

En­tão, quando já brin­ca­ram de des­tro­çar his­tó­rias cons­truí­das com o di­nheiro dos em­pre­sá­rios e o suor dos tra­ba­lha­do­res, in­ven­tam uma des­culpa es­far­ra­pada qual­quer, pe­gam o boné e vão ti­rar fé­rias no ex­te­rior, onde tor­ram a grana fá­cil re­ce­bida du­rante me­ses e me­ses pe­los dois dias de tra­ba­lho se­ma­nais. Sim, por­que eles che­gam na terça e vão em­bora na quinta. Dois dias cu­jas ho­ras são des­per­di­ça­das com co­men­tá­rios in­fan­tis e ten­ta­ti­vas de mos­trar que fo­ram eles que des­co­bri­ram a Amé­rica.

No fim das con­tas, a culpa não é de­les. Por­que co­vei­ros ape­nas fa­zem seu tra­ba­lho: en­ter­ram.

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