Crônicas

Paulo Neves: monstro sagrado

domingo, 13 de maio de 2012 Texto de

Paulo Ne­ves é o se­gundo da es­querda para a di­reita

Quando eu co­me­cei no jor­na­lismo em Bauru, no ano de 1987, na re­da­ção do Diá­rio, com Edu­ardo Nas­rala, Ma­ria Amé­rica Fer­reira, He­li­ana De We­ese, João Ra­nazzi, Car­los Tor­rente, Er­ling­ton Gou­lart, Acei­tuno Jr., Mil­ton Bill de Oli­veira, Éder Aze­vedo e Dona Ana (mãe da San­dra Ca­margo), nessa época eu ou­via fa­lar de Ce­lina Ne­ves como uma deusa bau­ru­ense.

Eu não en­ten­dia di­reito o que isso que­ria di­zer à época. Foi pre­ciso es­pe­rar o tempo pas­sar: para co­nhe­cer um pouco da grande di­re­tora te­a­tral. Acho que fiz só uma en­tre­vista com ela. O tempo foi cor­rendo e al­guns anos de­pois eu co­nheci Paulo Ne­ves.

Paulo Ne­ves, o fi­lho. Paulo Ne­ves, o her­deiro do pa­trimô­nio ar­tís­tico. Paulo Ne­ves, o mes­tre de tan­tos gran­des ato­res e atri­zes. Paulo Ne­ves, o pai do Thi­ago e da Ta­lita, como ele sem­pre es­cre­via em seus ar­ti­gos.

Hoje, olhando para es­ses dias que cha­ma­mos de pas­sado, com­pre­endo me­lhor a obri­ga­ção de re­ve­ren­ci­ar­mos Ce­lina Ne­ves. De re­ve­ren­ci­ar­mos Paulo Ne­ves. De re­ve­ren­ci­ar­mos uma fa­mí­lia que se en­tre­gou à ci­dade, ao te­a­tro, à arte. Que se en­tre­gou à sua vo­ca­ção. (Me pa­rece) sem medo. Sem li­mi­tes!

Houve uma época em que fui chefe do Paulo Ne­ves (no Diá­rio de Bauru). Eu me sen­tia cons­tran­gido. Não por­que eu não pu­desse ser chefe de al­guém cuja re­pre­sen­ta­ti­vi­dade no nosso uni­verso de atu­a­ção era in­fi­ni­ta­mente su­pe­rior à mi­nha. Eu sin­ce­ra­mente nunca li­guei para isso. Eu, na ver­dade, sem­pre quis es­tar abaixo de to­dos. Por­que é as­sim que me sinto bem. Ponto. Não era por isso que eu me sen­tia cons­tran­gido. Eu me sen­tia cons­tran­gido por­que al­guém como Paulo Ne­ves não de­ve­ria nunca ter chefe. Al­guém como Paulo Ne­ves de­ve­ria ter li­ber­dade ab­so­luta em sua atu­a­ção. De­ve­ria ter to­dos os ca­mi­nhos aber­tos.

A úl­tima vez que con­ver­sei por um tem­pi­nho ra­zoá­vel com o Paulo Ne­ves já faz um tem­pão. Foi em 2007. No “Sa­rau do In­te­rior – Um tri­buto lítero-musical”, um be­lís­simo evento cul­tu­ral pro­mo­vido pela Em­pó­rio (agên­cia de co­mu­ni­ca­ção) em co­me­mo­ra­ção aos seus 10 anos. 

Ali, eu tam­bém me senti cons­tran­gido. Por­que es­tive ao lado de fi­gu­ras im­por­tan­tes para Bauru. Pes­soas que fi­ze­ram his­tó­ria. Na­quela noite, ao mi­cro­fone, eu disse que a di­fe­rença en­tre mim e eles (esse pes­soal todo que está na foto acima) era a se­guinte: eles de­ram algo a Bauru; e Bauru me deu algo. Algo as­sim.

Quando, de­pois do evento, nos sen­ta­mos para ba­ter papo, en­quanto con­ver­sá­va­mos, eu olhava para o Paulo Ne­ves e pen­sava: eu con­ti­nuo pe­gando algo de Bauru. E você, Paulo, con­ti­nua dando algo a Bauru. 

Hoje é ani­ver­sá­rio do Paulo Ne­ves. Eu não posso di­zer pa­ra­béns a ele. Quem sou eu para di­zer isso a ele? Quem pre­cisa di­zer isso a ele é Bauru. É o te­a­tro. É a arte.

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