Crônicas

Dois encantos

terça-feira, 24 de abril de 2012 Texto de


Um dos fa­mo­sos mo­sai­cos de Gaudí, em Bar­ce­lona

Por que com­pa­rar as duas, não sei. Tam­bém não sei se meus cri­té­rios são vá­li­dos. Falo ape­nas como uma vi­a­jante que vi­si­tou Pa­ris de­pois de 40 anos sem vê-la, e que en­trou em Bar­ce­lona pela pri­meira vez. Pois é, es­tou me re­fe­rindo a Pa­ris e Bar­ce­lona, que acabo de vi­si­tar.

Vol­tar a Pa­ris de­pois de 40 anos foi uma emo­ção di­fí­cil de des­cre­ver por me tra­zer de volta a pri­meira vez em que lá es­tive, ou­tros tem­pos, quase ou­tra vida. 

Pa­ris é só­lida, bem plan­tada no chão, cheia de His­tó­ria, de co­ra­gem, re­sis­tên­cia e re­cu­pe­ra­ção. É char­mosa – e bota charme nisso! – e in­te­lec­tual. Par­ques am­plos, li­vra­rias e se­bos, ca­te­drais, mu­seus sem­pre cheios, Mont­mar­tre e seus ar­tis­tas de rua, Ma­rais e seu en­canto acon­che­gante, o Sena e suas mar­gens ins­pi­ra­do­ras, as pon­tes, ár­vo­res que no fi­nal­zi­nho de março já co­me­ça­vam a re­cu­pe­rar seu verde, ao lado de al­gu­mas ainda se­cas, em plena tran­si­ção en­tre o gelo e uma quase pri­ma­vera. Por duas ve­zes vi um mú­sico li­te­ral­mente ater­ris­sar seu pi­ano numa es­quina e co­me­çar a to­car, acom­pa­nhado de um con­tra­baixo, e o jazz se es­pa­lhou pelo ar. Em plena rua! A mú­sica “April in Pa­ris” não foi com­posta por acaso. Yip Har­burg de­via es­tar em êx­tase quando fez a le­tra.

E tal­vez por ser tão char­mosa, im­por­tante e com­pleta, Pa­ris me deu a im­pres­são de que não pre­cisa de nin­guém, e não se im­porta se gos­ta­mos dela ou não. Ela está ali, so­be­rana, pai­rando acima de qual­quer crí­tica ou elo­gio dos sim­ples mor­tais. Nós é que pre­ci­sa­mos dela. Para nos ine­bri­ar­mos com seus vi­nhos, nos de­li­ci­ar­mos com seus pães e quei­jos, distrair-nos em seus ca­fés de ca­dei­ras vi­ra­das para as cal­ça­das para po­der­mos ver o mo­vi­mento sem dei­xar de con­ver­sar, pro­var um vi­nho ou um “cro­que mon­si­eur” saído do forno. Como di­zem os mais en­tu­si­as­tas, “Pa­ris é Pa­ris, ponto fi­nal”.

E en­tão che­guei a Bar­ce­lona. A pri­meira im­pres­são foi a de que aquela ci­dade me dava as boas-vindas, es­tava fe­liz de me ver ali para eu apro­vei­tar o que ela ti­nha a ofe­re­cer. Quase pude ouvi-la di­zer “que bom que você veio!” Lá me senti im­por­tante, fa­zendo parte de seu dia a dia, de sua luz, seu trá­fego sem en­gar­ra­fa­men­tos, do sol que me fez ti­rar o ca­saco por al­guns dias, e do seu mar. Ah, en­tão está ex­pli­cado! Saí do Rio e me vi no­va­mente di­ante do mar… Mas nem só de sol vive o ho­mem, o cinza de Pa­ris tam­bém tem seu en­canto. É que Bar­ce­lona, que tam­bém tem His­tó­ria, pré­dios só­li­dos e um his­tó­rico de re­vol­tas e lu­tas, pa­rece nos con­vi­dar a en­trar, sen­tir sua at­mos­fera con­vi­da­tiva, apre­ciar a arte de seus fi­lhos fa­mo­sos nos mo­sai­cos de Gaudí, nos tra­ços de Miró e na ir­re­ve­rên­cia de Dalí, en­tre ou­tras be­le­zas. Sem con­tar o or­gu­lho ca­ta­lão por sua re­gião ter sido a pri­meira a aca­bar com as tou­ra­das. E foi or­gu­lho na­tivo que iden­ti­fi­quei quando ouvi um ci­da­dão res­pon­der à per­gunta se ele era es­pa­nhol: “Não, sou ca­ta­lão!”

As cons­tru­ções fei­tas em Bar­ce­lona para as Olim­pía­das de 1992 de­ram certo e até hoje em­be­le­zam e fa­ci­li­tam a vida da ci­dade. Es­tu­dan­tes, tu­ris­tas e mo­ra­do­res, de to­das as ida­des, pro­va­vel­mente pen­sam o mesmo, ou as uni­ver­si­da­des, os res­tau­ran­tes, os te­a­tros com mú­sica e dança fla­men­cas, os fes­ti­vais de jazz, ba­lés e con­cer­tos não es­ta­riam sem­pre lo­ta­dos. E quando isso acon­tece no Pa­lá­cio da Mú­sica Ca­talã, a festa co­meça na exu­be­rân­cia da fa­chada, con­ti­nua pe­las es­ca­da­rias, halls, lus­tres e bri­lhos de seu in­te­rior. Um es­pe­tá­culo à parte. 

Pa­ris e Bar­ce­lona exis­tem para se­rem cur­ti­das e vi­ven­ci­a­das. Am­bas são apai­xo­nan­tes, cada uma a seu jeito. 

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