Crônicas

Os passos lá fora

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012 Texto de

Quando eu ti­nha uns nove ou dez anos de idade, ha­via um ga­roto com quem eu es­tu­dava. Ele mo­rava perto de nossa casa e era muito co­mum es­tar­mos jun­tos nos fins de tarde, quase sem­pre jo­gando bola e de­pois va­di­ando um pouco pe­las ruas. 

Ao cair da noite, de­pois que o campo de fu­te­bol fi­cava às es­cu­ras e já não dava mais para ver a bola, ou quando já era hora de ir to­mar ba­nho e jan­tar, cada um dos mo­le­ques to­mava seu rumo. En­tre­tanto, por um des­ses aca­sos, co­me­cei a per­ce­ber certa in­dis­po­si­ção da parte dele no mo­mento de ir em­bora.

Uma ou duas ve­zes, eu o vi pe­ram­bu­lando pe­las re­don­de­zas um bom tempo de­pois de ter­mos en­cer­rado as brin­ca­dei­ras diá­rias. Não me lem­bro se che­guei a questioná-lo quanto a isso. Acon­te­ceu há quase qua­renta anos! 

Mas o fato é que um dia, de­pois de ele e sua fa­mí­lia te­rem se mu­dado para não sei onde, fi­ca­mos sa­bendo por meio de ou­tro co­lega por que ele evi­tava até o úl­timo mo­mento vol­tar para casa: não que­ria apa­nhar do pai. 

Demorando-se na rua, tal­vez o ve­lho dor­misse ou se es­que­cesse dele em meio à ca­chaça.

Tanto tempo de­pois, ainda acordo no meio da noite e me lem­bro desse pe­queno drama hu­mano. A cer­teza de que nada mais posso fa­zer ou a hi­pó­tese muito pro­vá­vel de que eu nada po­de­ria ter feito, nem uma coisa nem ou­tra é su­fi­ci­ente para afas­tar a an­gús­tia.

Lá fora, a chuva já pa­rou. Mas o ex­cesso de água numa ca­lha vai ba­tendo em al­gum ob­jeto cujo re­flexo so­noro é como a mar­ca­ção de um passo. Um passo lento. Sem norte.

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