Crônicas

Um casal na multidão

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012 Texto de

Muito tempo de­pois, eu o en­con­trei. Fa­zia um dia quente e úmido. Ele em frente a uma loja, fa­lando ao ce­lu­lar. Quando me viu, en­cer­rou abrup­ta­mente a li­ga­ção e veio ao meu en­con­tro. Ha­via certa emo­ção em seus olhos. Apertou-me a mão. A pri­meira coisa que me veio à mente foi a his­tó­ria que ele mesmo me con­tara tan­tos anos an­tes, quando mo­rá­va­mos na mesma ci­dade e tra­ba­lhá­va­mos na mesma em­presa. Eis o caso.

Adolfo, as­sim se chama, era na­quela época um su­jeito alto e ro­busto, mus­cu­loso até. Sua com­plei­ção lem­brava um es­por­tista, em­bora não pra­ti­casse mui­tas ati­vi­da­des fí­si­cas. Ca­be­los ne­gros, olhos cas­ta­nhos, gros­sos lá­bios, queixo tri­an­gu­lar que pa­re­cia torná-lo ainda mais más­culo. Cos­tu­mava cha­mar aten­ção por onde pas­sava, prin­ci­pal­mente a aten­ção das mu­lhe­res.

Sua vida, en­tre­tanto, era quase re­li­gi­osa. O ri­tual diá­rio resumia-se pra­ti­ca­mente ao per­curso da casa à em­presa, da em­presa à casa, com ra­ras saí­das com os ami­gos após o tra­ba­lho. Por mais que o con­vi­dás­se­mos, di­fi­cil­mente acei­tava. Pre­ci­sava vol­tar. Ana­bela o aguar­dava para o jan­tar.

Nós a co­nhe­ce­mos numa festa de fim de ano. Quando a vi­mos, foi pre­ciso certo es­forço para ten­tar com­pre­en­der os mis­té­rios do amor. Não que ela fosse uma abo­mi­na­ção ou algo as­sim. Mas to­dos con­cor­da­vam que não era pá­reo para o Adolfo. Uma mu­lher muito ma­gra, os­suda, cada um dos om­bros pa­re­cia ter o for­mato de um ca­bide in­ver­tido, as ex­tre­mi­da­des da­vam a im­pres­são de gan­chos por de­baixo da blusa, a face não re­ve­lava qual­quer tipo de be­leza por mais que pre­ten­dês­se­mos ser con­des­cen­den­tes em nome de nossa ami­zade com Adolfo. 

Pois bem. Ele ar­ras­tava um ca­mi­nhão por ela.

E foi num dia em que ele acei­tou nosso con­vite para sair após o tra­ba­lho que tudo acon­te­ceu. Lembro-me de sua ex­pres­são de de­sa­lento na ma­nhã se­guinte, quando me cha­mou para um café e co­me­çou a con­tar. Adolfo a avi­sara so­bre o pro­grama após o tra­ba­lho. Fo­mos be­ber num bar qual­quer. Era só isso. Con­tudo, logo à en­trada ele de­sis­tiu. Sem gran­des ex­pli­ca­ções, tra­tou de ir para casa. 

“Quando en­trei, ela es­tava em­baixo dele no sofá da sala”, con­se­guiu bal­bu­ciar, en­go­lindo em se­guida todo o lí­quido preto da xí­cara.

Adolfo pe­diu de­mis­são. Su­mi­ram da ci­dade. Nunca mais os vi­mos. Até esta se­mana.

De­pois dos cum­pri­men­tos cor­ri­quei­ros, to­mei co­ra­gem e per­gun­tei so­bre Ana­bela. Sim, es­ta­vam jun­tos. “Re­solvi levá-la em­bora para po­der­mos re­to­mar nossa vida”, disse-me. Ti­ve­ram fi­lhos? “Não foi pos­sí­vel.” Nesse mo­mento, Adolfo entregou-se a um olhar per­dido em meio ao mo­vi­mento do cen­tro co­mer­cial. Ele agora tem ca­be­los quase to­tal­mente bran­cos di­vi­di­dos bem no cen­tro da ca­beça por um vale lus­troso.

“Não foi pos­sí­vel”, virou-se para mim e sor­riu amar­ga­mente. “En­tendo”, res­pondi. O que eu po­de­ria di­zer? Qual­quer per­gunta a mais re­pre­sen­ta­ria um grande risco. Mas eu es­tava cu­ri­oso. E ele, no fim das con­tas, pareceu-me sen­tir a ne­ces­si­dade de fa­lar disso com al­guém. “Ela se fe­chou para mim”, so­prou pe­no­sa­mente, des­vi­ando no­va­mente o olhar. Eu aguar­dei an­tes de fa­zer al­gum co­men­tá­rio.

“Nunca mais, você com­pre­ende?”, agora encarava-me fi­xa­mente. Es­tu­pe­fato, fiz que sim com a ca­beça. De sú­bito, eu o vi ob­ser­var por cima de meus om­bros. Sua ex­pres­são transformou-se. Iluminou-se por as­sim di­zer. Virei-me e a vi. A mesma fi­si­o­no­mia neu­tra, o mesmo corpo ma­gro, o mesmo jeito de an­dar com­ple­ta­mente sem graça, a mesma voz es­ga­ni­çada. “Adol­fi­nho, va­mos!”

Ele apertou-me a mão. Seus olhos ume­de­ce­ram. Apressou-se atrás de Ana­bela, que já ca­mi­nhava pela cal­çada. Num se­gundo, alcançou-a. E os dois se­gui­ram abra­ça­dos, misturando-se à mul­ti­dão como um ca­sal qual­quer.

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