Crônicas

Conversa na praça com um casal de namorados

quinta-feira, 14 de julho de 2011 Texto de

Faz tempo que eu es­tava pla­ne­jando, mas não me che­gava a co­ra­gem. On­tem, sei lá o que me deu, venci mi­nha ter­rí­vel ti­mi­dez e falta de jeito para co­me­çar um papo, e fui ma­tar mi­nha cu­ri­o­si­dade. Fa­lei com o ca­sal­zi­nho de na­mo­ra­dos que vejo de vez em quando na praça. Há ou­tros que se sen­tam lá, mas esse me cha­mou a aten­ção por­que tanto ele quanto ela me pa­re­cem re­al­mente apai­xo­na­dos. E é in­crí­vel como o amor, quando apa­renta ser ver­da­deiro, atrai tam­bém quem não tem nada a ver com a his­tó­ria. No caso, eu.

Ela é ma­gri­nha, ca­be­los en­ca­ra­co­la­dos, está de saia que co­bre os jo­e­lhos, uma blusa branca realça-lhe os seios du­ros aco­ber­ta­dos por um su­tiã cu­jas mar­cas trans­pa­re­cem ni­ti­da­mente. Tem 17 anos, mas não pa­rece. Pa­rece ter 15 no má­ximo. Ele está de calça je­ans, ca­mi­seta com algo so­bre rock es­crito no peito, tê­nis branco ba­tido. É do mesmo modo bem ma­gri­nho, ca­be­los li­sos pen­te­a­dos pra frente num es­tilo mo­der­noso. Tem 15 anos. Pa­rece ter 15 mesmo.

De cara, sus­pen­dem o papo e olham para um es­tra­nho qual­quer que vai acin­to­sa­mente na di­re­ção de­les. O es­tra­nho sou eu. Per­gunto se po­dem me res­pon­der a umas per­gun­tas. Digo que sou de uma em­presa de pes­quisa. Ela se ajeita como se eu fosse fotografá-la. Ele er­gue o queixo e res­ponde que sim.

É rá­pido, digo a eles, muito mais para re­la­xar a mim mesmo – odeio men­tir. Vo­cês es­tão na­mo­rando? Ele olha pra ela e sorri de apa­re­lho nos den­tes. Ainda encarando-o, ela res­ponde que es­ta­mos sim! É, a gente na­mora sim, re­pete ele. Há quanto tempo? Ah, faz uns me­ses aí, ele cal­cula. Sem­pre aqui? É, quase sem­pre. Por quê? Gos­tam da pra­ci­nha? Ah, não tem ou­tro lu­gar, a mãe dela não gosta muito. Os dois riem por um ins­tante.

A mãe dela não gosta de você? Ela me acha muito novo. Riem ou­tra vez. E você, se acha muito novo? Não, acho que não. E você, você acha que seu na­mo­rado é muito novo? Acho sim! Agora eles gar­ga­lham. Eu tam­bém dou ri­sada, es­tou à von­tade com os ga­ro­tos. Sua mãe sabe que vo­cês es­tão aqui hoje? Meio des­con­fi­ada e lan­çando olha­res rá­pi­dos para os la­dos, ela me diz que não. Que se sou­besse, vi­ria atrás. 

E vo­cês não pen­sam num lu­gar mais es­con­dido? Aqui todo mundo vê vo­cês, brinco. Nada, diz ela. Aqui nin­guém per­cebe a gente. É en­gra­çado isso, mas pa­rece que aqui a gente fica bem es­con­dido. Nem é pre­ciso di­zer que am­bos vol­tam a sor­rir, cúm­pli­ces, se­gu­ros de si, de­baixo de ár­vo­res al­tas, na pe­num­bra do in­verno seco e mal ilu­mi­nado de uma pra­ci­nha onde, logo atrás do banco de­les, dois ca­chor­ros va­gueiam sem qual­quer pre­o­cu­pa­ção com o es­con­de­rijo pú­blico dos na­mo­ra­dos ou com mi­nha falta de jeito para en­cer­rar um papo.

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