Crônicas

A morte ao sol do meio-dia

terça-feira, 12 de julho de 2011 Texto de

(“O sol po­en­te”, obra de Tar­si­la do Ama­ral)

Os ho­mens a ati­ra­ram ao chão. Hou­ve um mo­men­to de si­lên­cio, se­gun­dos de apre­en­são. Co­mo po­dem se­res hu­ma­nos agir des­se mo­do? Co­mo se o ca­so fos­se na­da mais do que um sim­ples ato do co­ti­di­a­no? Não sa­bem os se­gre­dos que ela guar­da? As ale­gri­as que abri­gou? As tris­te­zas que es­con­deu?

Não lem­bram de seus di­as de lu­to? Dos seus di­as de fes­ta? Não ima­gi­nam co­mo era lin­da à luz do ama­nhe­cer? Co­mo seu char­me en­fei­ta­va a noi­te?

Por que ati­rá-la ao chão? Sem dó e sem per­dão? Sem o me­nor res­pei­to pe­las coi­sas que se per­dem com sua mor­te? Sem se­quer aten­dê-la em seu úl­ti­mo de­se­jo?

Co­mo se fos­sem car­ras­cos, os ho­mens a pi­sam. Ela es­tá des­truí­da. Mor­ta. O sol for­te do meio-dia es­pa­lha-se so­bre seu cor­po. Qua­se pos­so ou­vi-la num der­ra­dei­ro la­men­to. Mas na­da di­go. Por­que pa­re­ce­ria lou­cu­ra.

Ou­ça-me, só vo­cê, que as­sim co­mo eu acre­di­ta na mor­te: o úl­ti­mo de­se­jo, o der­ra­dei­ro la­men­to es­tá aqui, re­pe­tin­do-se em meus tím­pa­nos: der­ru­bem-me, mas ti­jo­lo por ti­jo­lo.

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