Contos

O caso da árvore sombria

quinta-feira, 30 de junho de 2011 Texto de

Desde que, à caça da cri­a­tura, Bar­to­lo­meu Vi­gota pu­xou o ga­ti­lho e fez o san­gue cor­rer, fala-se do es­tra­nho caso da Fa­zenda das Vinte Lé­guas. Con­tra­tado para to­mar conta do lu­gar, ele mudara-se para lá ha­via pouco tempo quando co­me­çou a sentir-se in­co­mo­dado. Não sa­bia o mo­tivo, mas algo soava-lhe si­nis­tro na som­bra es­cura da­quela ár­vore tão pró­xima da casa onde mo­rava.

À noite, cos­tu­mava abrir uma pe­quena fresta da ja­nela do quarto para fi­car lon­gos mi­nu­tos ob­ser­vando o que nem mesmo ele con­se­guia de­fi­nir. Na cama, a mu­lher queixava-se do com­por­ta­mento de Bar­to­lo­meu. Aquilo já co­me­çava a pa­re­cer coisa de louco. Mesmo com o ma­rido em tal es­tado, ela não ex­pe­ri­men­tava qual­quer per­tur­ba­ção. Levantava-se, enfiava-se na frente dele, es­can­ca­rava a ja­nela e nada. Era ape­nas uma ár­vore onde a cla­ri­dade do luar não pe­ne­trava.

Deitavam-se, ela abraçava-se a ele e a ma­dru­gada cor­ria sem que um pu­desse com­pre­en­der as re­a­ções do ou­tro. Nas noi­tes se­guin­tes, tudo se re­pe­tia. Até que numa tarde, pas­sando por acaso sob a ár­vore, Bar­to­lo­meu pen­sou ver no solo es­tra­nhos con­tor­nos. De pe­ga­das, ima­gi­nou. Cha­mou a mu­lher e esta mais uma vez pouco se im­por­tou com to­das as hi­pó­te­ses le­van­ta­das por ele: que ha­via uma cri­a­tura ha­bi­tando o lu­gar, que seu es­con­de­rijo era bem ali em­baixo da ár­vore, que isso e aquilo. A mu­lher, en­tre­tanto, abraçava-o e, sem ver marca al­guma no chão, desviava-o de sua ob­ses­são.

Numa noite, con­ven­ceu a mu­lher com seu plano. Su­bi­ria na ár­vore e, ar­mado, es­pe­ra­ria que algo apa­re­cesse bem em­baixo de seus olhos. Pre­ci­sava aca­bar com aquela cri­a­tura ou a cri­a­tura aca­ba­ria com ele. Para a mu­lher, se­ria o fim do pe­sa­delo. Com­bi­na­dos os de­ta­lhes, Bar­to­lo­meu dirigiu-se ao seu posto. Ele com sua car­tu­cheira.

Sentou-se num dos ga­lhos, encostou-se na jun­ção com o tronco. O tempo pas­sava e a ten­são cres­cia. Ali, en­vol­vido pela ve­ge­ta­ção fe­chada, fa­zendo parte da­quela es­cu­ri­dão, con­se­guiu, como é na­tu­ral em si­tu­a­ções se­me­lhan­tes, ver me­lhor. Seus olhos acostumaram-se à falta de luz. O chão em­baixo da ár­vore era-lhe per­fei­ta­mente vi­sí­vel agora. Sem fa­zer ruí­dos deitou-se so­bre o ga­lho, in­ten­si­fi­cando sua vi­gí­lia em todo o am­bi­ente logo abaixo. 

Foi num mo­mento em que os ner­voso re­la­xa­ram um pouco. Com a vi­são en­fi­ada no solo, en­quanto es­tava dei­tado com a car­tu­cheira bem po­si­ci­o­nada ao seu lado di­reito, o cano pas­sando rente à pró­pria face, Bar­to­lo­meu sen­tiu uma onda de ter­ror percorrer-lhe o corpo todo. Vindo de al­gum lu­gar acima de onde es­tava, um so­pro arrepiou-lhe os pe­li­nhos da nuca. To­mado pelo pâ­nico, no jul­ga­mento abrupto que po­dia fa­zer de si mesmo, imaginou-se lu­di­bri­ado pela coisa. A coisa es­tava acima dele e não abaixo. Es­tava ba­fe­jando às suas cos­tas.

A mente de Bar­to­lo­meu nublou-se, a som­bra pa­re­cia escurecer-se ainda mais, já não via nada quando sen­tiu uma se­gunda ba­fo­rada. O dedo no ga­ti­lho tre­mia quando a noite si­len­ci­osa foi cor­tada pelo ru­mor do dis­paro, um só dis­paro.

De ma­nhã, en­quanto a po­lí­cia re­co­lhia o corpo de Bar­to­lo­meu que per­ma­ne­cera preso às ga­lha­das onde podiam-se ver os resquí­cios dos es­tra­gos fei­tos em sua ca­beça, a mu­lher, sem ter for­ças para dei­xar o quarto, abria uma pe­quena fresta da ja­nela e exa­mi­nava com olhos per­di­da­mente fi­xos aquela som­bra mais es­cura do que to­das as ou­tras.

(Meu amigo An­selmo Mo­zer contou-me um es­tra­nho epi­só­dio ocor­rido com ele quando cri­ança. Para as­sus­tar os co­le­gas na volta da es­cola, ele adiantou-se e su­biu numa ár­vore que se de­bru­çava so­bre a es­trada. Sua in­ten­ção era esperá-los e no mo­mento em que pas­sas­sem, surpreendê-los com um salto, um grito, coi­sas as­sim. Mas se­gun­dos an­tes, ele sen­tiu um ar quente as­so­prado em sua nuca. Ele sal­tou da ár­vore, saiu em dis­pa­rada e nunca mais pen­sou em as­sus­tar os com­pa­nhei­ros. O conto acima é de­di­cado ao An­selmo. É isso aí.)

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