Crônicas

Na estrada de Brotas

quinta-feira, 12 de maio de 2011 Texto de

A tarde já es­tava caindo quando eu re­solvi pa­rar o carro pouco an­tes de uma ponte na ro­do­via que passa por Bro­tas e Iti­ra­pina, no in­te­rior de São Paulo. Às ve­zes, te­nho o ím­peto de con­fir­mar se não me es­queci de algo que de­ve­ria es­tar na ba­ga­gem. Coisa de louco? Tal­vez. Mas o fato é que ao des­cer, per­cebi quase ao mesmo tempo a pre­sença de uma pes­soa en­cos­tada à mu­reta do vi­a­duto.

Uma mu­lher ves­tida de modo bas­tante sim­ples virou-se para mim e fez um mo­vi­mento qual­quer com a ca­beça, quem sabe um cum­pri­mento. Ins­tin­ti­va­mente eu disse um boa-tarde en­quanto abria o porta-malas. Não sei di­zer se ela res­pon­deu, mas quando eu con­cluí mi­nha con­fe­rên­cia ela ainda es­tava lá, na mesma po­si­ção, o olhar fixo na ro­do­via que passa em­baixo.

Algo perturbou-me na­quela ati­tude. Passou-me pela ca­beça a hi­pó­tese de que aquela mu­lher es­ti­vesse pla­ne­jando suicidar-se. Uma sen­sa­ção es­tra­nha fez meu co­ra­ção ba­ter um pouco mais rá­pido. Eu es­tava en­trando no carro e en­tão, já quase me sen­tindo res­pon­sá­vel pela des­graça que se de­sen­ca­de­a­ria em ins­tan­tes, re­solvi perguntar-lhe se pre­ci­sava de algo. Ela es­bo­çou um sor­riso sem graça. 

– Não, moço. Não pre­ciso, não. É só a vida da gente. 

Em pé, à beira do acos­ta­mento da alça do con­torno, em­pur­rei a porta do carro de­va­gar até quase fe­char, cui­dando para evi­tar ruí­dos, como se mi­nha cau­tela re­sol­vesse todo o pro­blema. Eu já não ti­nha dú­vi­das. Ela ava­li­ava a pos­si­bi­li­dade de se jo­gar dali. Ha­ve­ria tempo para impedi-la? E se ela pu­lasse agora mesmo e eu tes­te­mu­nhasse um sui­cí­dio? As per­gun­tas embaralhavam-se em meus pen­sa­men­tos afli­tos.

– A se­nhora mora por aqui?

– Por aí.

– Certo. Não pre­cisa mesmo de nada?

– Ele não me en­tende. Não mesmo.

E nisso ela deu dois ou três pas­sos em mi­nha di­re­ção. Os ca­be­los eram bem pre­tos ainda, mas o rosto apre­sen­tava um quê de en­ve­lhe­ci­mento, olhei­ras es­cu­ras, al­gu­mas ru­gas já bem fun­das na testa. 

– Eu gosto de ver os car­ros pas­sa­rem aí em­baixo.

Agora ela es­tava quase fora do vi­a­duto, pi­sando em chão mais se­guro. Tal­vez eu ti­vesse me en­ga­nado so­bre a pos­sí­vel ideia do sui­cí­dio. De re­pente me senti feito bobo. Mi­nha su­po­si­ção quase me fi­zera ir até uma des­co­nhe­cida, pegá-la pelo braço e dizer-lhe para que não se ati­rasse na frente de um ca­mi­nhão. Pa­té­tico, assoprou-me o di­a­bi­nho da cons­ci­ên­cia. De todo modo, e so­bre esse as­pecto eu não tive qual­quer dú­vida, aquele rosto me­lan­có­lico de­certo aba­fava to­dos os gri­tos de so­corro que ela em toda a vida gos­ta­ria de ter pe­dido.

Atrás dela, o sol ala­ran­jado do ou­tono pa­re­cia jo­gar um pu­nhado de tons co­lo­ri­dos so­bre o ho­ri­zonte. O con­traste com o vi­gor da ve­ge­ta­ção da re­gião de Bro­tas cri­ava um es­pe­tá­culo me­mo­rá­vel. Ocorreu-me que olhar para aquele de­se­nho no céu, po­der vê-lo, ape­nas isso já se­ria mo­tivo para dar um cré­dito à vida. Pen­sei em fazê-la de al­gum modo per­ce­ber o ho­ri­zonte quase aver­me­lhado que, atrás dela, con­tor­nava sua si­lhu­eta. Mas lembrei-me a tempo que as co­res e as suas to­na­li­da­des não são cap­ta­das pelo olhar, mas por um me­ca­nismo abs­trato que aflora do nosso âmago. Não se­ria pos­sí­vel àquela mu­lher ver o mesmo céu que eu via. Ao me­nos na­quela tarde. 

Ob­ser­vei ainda um pouco mais o po­ente. De­bru­çado so­bre o carro, senti uma pros­tra­ção pra­ze­rosa. A mu­lher des­co­nhe­cida dis­sera até logo e ca­mi­nhava a pas­sos len­tos às mi­nhas cos­tas.

Não há mais nada. Como ela, eu ape­nas ti­nha de se­guir adi­ante.

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