Liberdade aos irmãos! | Márcio ABC

Crônicas

Liberdade aos irmãos!

terça-feira, 14 de junho de 2011 Texto de

(Qua­dro de Mi­ró, que me lem­bra cri­an­ças)

A ca­sa fi­ca abai­xo do ní­vel da ro­do­via. E ali, no am­plo quin­tal ao la­do da cons­tru­ção an­ti­ga cer­ca­da de ár­vo­res, as du­as cri­an­ças cor­rem uma atrás da ou­tra. A me­ni­na, tal­vez um pou­co mais ve­lha, vai no en­cal­ço do me­ni­no. Têm en­tre cin­co e seis anos, cal­cu­lo. Pen­so: são ir­mãos e vi­vem de cer­to mo­do iso­la­dos nes­ta pai­sa­gem agres­te. Não é um lu­gar dis­tan­te de ci­da­des. Mas fi­ca no meio do ma­to. E das plan­ta­ções. Não há ou­tras ca­sas por per­to.

Os dois ir­mãos de­cer­to es­tão sós. São ape­nas eles. Quem sa­be já vão à es­co­la, mas de­pois não há mais nin­guém. Cor­rem des­cal­ços so­bre o chão nu, com­ple­xos co­mo um qua­dro de Mi­ró. Não vão ao shop­ping. Nem ao ci­ne­ma. Brin­cam com ob­je­tos de ma­dei­ra. Pen­so: ela tem uma bo­ne­ca ve­lha que se­rá tro­ca­da no pró­xi­mo Na­tal. Ele em­pur­ra um car­ri­nho to­do en­la­me­a­do cu­jas ro­di­nhas ca­em a to­da ho­ra.

Da­qui a du­as dé­ca­das, na ci­da­de, am­bos es­tu­da­dos, am­bos se di­ver­tin­do e tra­ba­lhan­do, am­bos cor­ren­do to­dos os ris­cos des­ta vi­da, vi­ven­do êx­ta­ses e frus­tra­ções, amo­res e in­fra­ções, os dois se en­con­tra­rão aos sá­ba­dos num ca­fé ou nu­ma cho­pe­ria. E re­lem­bra­rão quan­do an­da­vam so­zi­nhos pe­los cam­pos. Sen­ti­rão cor­rer so­bre a pe­le um le­ve ar­re­pio nos­tál­gi­co. Dei­xa­rão es­ca­par um sor­ri­so inex­pli­cá­vel. Do­mi­na­rão o ím­pe­to de no­va­men­te se da­rem as mãos e cor­re­rem jun­tos na rua. Des­cal­ços, li­vres, lim­pos.

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