Contos

Um fantasma na rua

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 Texto de

Como co­me­çou eu não sei di­reito. Sei só como aca­bou. Ma­ria, na frente, com a cri­ança no colo, protegendo-se da po­eira aver­me­lha­dona das ruas to­das de terra. Ali o as­falto era coisa de ro­do­via. Eu, ao lado, ca­mi­nhava la­te­jando fe­li­ci­dade. Atrás da gente, a uns pou­cos pas­sos, vi­nha sem­pre o Ar­naldo, in­teiro bê­bedo, meio caído. Tí­nha­mos, dali a pouco, o ba­ti­zado co­le­tivo.

Muito an­tes de a cri­ança apon­tar no mundo, o Ar­naldo, mesmo em ou­tro mundo, atirou-se ao achin­ca­lhe. O tal não po­dia me ver perto de Ma­ria. Era con­fu­são certa. A cada gole, um im­pro­pé­rio. Acho que ele só não che­gava às vias de fato por­que não con­fi­ava no res­ti­nho de mu­que dei­xado pela ca­chaça. Mas as­sim mesmo era uma falta de de­coro.

Fo­mos abar­ro­tando. Aquilo já ia pe­las tam­pas. Todo dia o in­fe­liz bri­gava co­migo e com a nossa mu­lher. Ma­ria já era cheia de des­gra­ças. Não ti­nha au­to­no­mia nem para be­ber água. O tal ga­nhava do go­verno uma apo­sen­ta­do­ria, gas­tava me­tade na be­bida e a ou­tra me­tade mes­qui­nhava. E man­dava ver: tira esse fi­lho da puta da­qui, Ma­ria, manda esse coisa ruim para os quin­tos dos in­fer­nos, sai com ele da­qui.

O Ar­naldo já nem bê­bedo fi­cava. Ele de­certo po­dia num mi­nuto ou nou­tro fi­car só­brio, mas isso nin­guém nem era ca­paz de ver. Por­que de­via ser só quando ele dor­mia. En­tão, num in­certo dia, in­ven­ta­mos uma coisa. Men­tía­mos a ele: que eu não exis­tia. Um fan­tasma era o que eu se­ria. Ma­ria disse a ele: como é que posso man­dar esse aí para os quin­tos, se é de lá que ele veio? 

O Ar­naldo pas­mou, es­bran­que­ceu. Dali em di­ante, de­so­lhava. Nas be­be­dei­ras es­go­ta­das, per­gun­tava bai­xi­nho a Ma­ria se ali ha­via mesmo um fan­tasma. Sim, mesmo. O ma­rido aqui­e­tava, a vida se­guia. Os me­ses dos anos. É só um fan­tasma, Ar­naldo. É só um fan­tasma.

No dia do ba­ti­zado, eu no meio da po­eira, caído na fe­li­ci­dade boba, mi­nha ore­lha num re­pente fi­cou na frente da pulga. Ma­ria adi­ante, eu de lado, es­pe­rou pelo Ar­naldo. O be­bum be­beu o braço dela. E, como pela pinga, foi ar­ras­tado por ela. Anu­viei. Lim­pei o pó bar­rento dos lá­bios sem gosto. Dei dois pas­sos para perto de­les. Mar­te­lei olha­dos in­fe­li­zes para os dois. Quis abrir a boca para me quei­xar a Ma­ria. Até, se fosse pre­ciso, xin­gava o in­fe­liz.

E aí é que se deu a mim uma des­feita desta vida: fala da­qui não saía, fui er­guer um braço e ele des­pe­nhou, em mim era só um pó fino, nada em mim se po­dia mais ver. Os dois se fo­ram para den­tro da cor­tina de terra seca que o vento in­qui­e­tava. Su­mi­ram. Um re­de­moi­nho me des­fa­zia, o grito mudo não vindo, o braço es­vaindo, um bu­raco se abrindo, o vento chi­ando um cheiro de ve­lhismo, o vento en­go­lindo um que não se soube como mas já se pu­nha fan­tasma. Só um fan­tasma.

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