Paisagem da janela | Márcio ABC

Crônicas

Paisagem da janela

terça-feira, 28 de dezembro de 2010 Texto de

Quan­do eu ti­nha uns 4 ou 5 anos, fiz uma vi­a­gem de trem com mi­nha mãe. O que eu mais me lem­bro da ex­pe­ri­ên­cia é al­go bas­tan­te inu­si­ta­do: a vi­são as­sus­ta­do­ra do vão en­tre o va­gão e a pla­ta­for­ma. Sa­ber que ali em­bai­xo ha­via um fos­so, mes­mo que fos­se mui­to im­pro­vá­vel al­guém pi­sar no va­zio e cair na­que­le “abis­mo”, era per­tur­ba­dor.

Quan­do eu sal­tei so­bre aque­le bu­ra­co, pe­dras e er­vas da­ni­nhas me ob­ser­van­do lá de bai­xo, e meu pai me apa­nhou com um abra­ço já so­bre a pla­ta­for­ma, a sen­sa­ção de se­gu­ran­ça foi tão den­sa que ja­mais pu­de es­que­cê-la.

Em 2011, se­ria bom se eu pu­des­se car­re­gar na me­mó­ria to­das as coi­sas bo­as que apa­ga­mos pa­ra dar es­pa­ço aos nos­sos me­dos e fra­cas­sos. Que­ria ter for­ça su­fi­ci­en­te pa­ra me lem­brar so­men­te das be­las pai­sa­gens que vão pas­sar pe­la ja­ne­la. Gos­ta­ria de não olhar pa­ra os abis­mos. De ver a vi­da com mais pra­zer.

Tam­bém de­se­jo o mes­mo a vo­cê.

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