Impressões

Comodismo incômodo

quinta-feira, 12 de agosto de 2010 Texto de

Às vezes tenho medo de minhas opiniões. Mas não medo do que alguém possa pensar delas ou mesmo de ser mal interpretado. Porque meus maiores medos nesse sentido são dos pensamentos que geralmente ficam só para meu consumo interno. Das opiniões que dou para meus próprios botões.

E esse medo quase sempre é de exagerar, de me equivocar, de interpretar mal, de ser preconceituoso, de não ver o que há por trás da fachada que critiquei ou condenei.

Por exemplo: eu acho que as pessoas estão muito acomodadas com a possibilidade de acesso a ferramentas facilitadoras do nosso cotidiano, o que inclui o aparato tecnológico cada vez mais avançado. Será que é um exagero?

Vejam a internet: os usuários estão absolutamente entregues a verdades que nem sempre são verdades. Quando precisam pesquisar sobre um assunto, vão ao Google e num segundo têm na tela o que pediram.

O caso é que nem sempre o resultado é correto. Mas acho que a grande maioria confia em tudo o que é apresentado em seu computador. É quase como uma religião em que os fiéis acomodados preferem pedir a Deus a lutar por algo que lhes seja bom. Os fiéis, também aqui, estão se transformando em fanáticos.

Aconteceu comigo: eu queria saber da autoria de um texto que pretendo usar num projeto pessoal. Em quase todas as minhas pesquisas na internet, deu Shakespeare. Não sei por que, eu desconfiei. Digo “não sei por que” porque não sou nenhum especialista em Shakespeare. E também porque acho o texto genial. Alguém mais bem informado do que eu a esse respeito confirmou minhas suspeitas: o texto é de outro autor.

O comodismo das pessoas diante da internet é uma grande ameaça. Verdades viram mentiras. E mentiras passam a ser verdades – não sei o que pode ser pior.

E como gerações de seres humanos estão sendo criadas na frente da internet, parece-me que essa onda de comodismo incômodo está se expandindo. Outro dia, fui pagar por algo. A conta dava 13 reais. Dei uma nota de vinte. Depois de me perguntar se eu não tinha 3 reais para facilitar o troco, a moça do caixa recorreu à calculadora para concluir que me devia 7 reais.

Às vezes tenho medo de minhas opiniões. Mas também dos retrocessos que podem estar por trás dos avanços.

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