Impressões

Livro – A caixa-preta

terça-feira, 10 de agosto de 2010 Texto de

O es­cri­tor Amós Oz, nas­cido em Je­ru­sa­lém em 1939 (Foto ob­tida no site da Com­pa­nhia das Le­tras)

Amós Oz faz de sua caixa-preta – uma caixa-preta que guarda se­gre­dos de que­das hu­ma­nas, mas não que­das de aviões, ape­nas que­das hu­ma­nas – uma sa­bo­rosa com­po­si­ção de drama e co­mé­dia. Da saga be­li­cosa de um es­cri­tor fa­moso e de sua ex-esposa re­jei­tada emerge um im­pres­si­o­nante ema­ra­nhado de emo­ções cu­jas con­sequên­cias le­vam os per­so­na­gens a um uni­verso onde cada passo os fará re­ve­lar se­gre­dos que tal­vez nem mesmo eles co­nhe­ces­sem.

O es­cri­tor is­ra­e­lense usa com ma­es­tria seu pro­fundo co­nhe­ci­mento so­bre a re­a­li­dade de seu país para cons­truir um texto que nunca aban­dona as de­li­ca­das ques­tões so­ci­ais, po­lí­ti­cas e re­li­gi­o­sas que se mis­tu­ram ine­vi­ta­vel­mente numa re­gião com­plexa e mui­tas ve­zes di­fí­cil de com­pre­en­der.

Amor, ódio, sexo e uma in­crí­vel ca­pa­ci­dade de fa­zer rir ser­pen­teiam den­tro de uma ten­são per­ma­nente que en­volve pro­ta­go­nis­tas e co­ad­ju­van­tes por meio de car­tas, te­le­gra­mas e bi­lhe­tes – tro­ca­dos en­tre eles e que fa­zem do lei­tor um pri­si­o­neiro pri­vi­le­gi­ado na lei­tura des­sas men­sa­gens pes­so­ais e de­li­ci­o­sas.

Aca­bei de ler a obra na edi­ção de bolso da Com­pa­nhia das Le­tras e re­co­mendo. Abaixo, re­pro­duzo a si­nopse da pró­pria edi­tora. E de­pois, um tre­cho do li­vro.

A si­nopse

Que se­gre­dos pode con­ter a caixa-preta de um avião que caiu? Re­ve­la­ções so­bre as ra­zões da queda, gri­tos de hor­ror, pâ­nico, ten­ta­ti­vas de­ses­pe­ra­das de sal­va­ção: ves­tí­gios da ca­tás­trofe. O ro­mance do is­ra­e­lense Amós Oz tem tudo isso, mas a caixa-preta a que se re­fere o tí­tulo não per­tence a um avião, e sim a uma re­la­ção amo­rosa des­feita. Anos de­pois do di­vór­cio es­can­da­loso, a es­posa re­jei­tada Ilana emerge das cin­zas do tempo, da dis­tân­cia e do ran­cor para pas­sar a limpo seu ca­sa­mento com Alex Gui­deon, pro­fes­sor e es­cri­tor mun­di­al­mente fa­moso.

Com di­nheiro, Alex tenta si­len­ciar o pas­sado que san­gra. Mas as coi­sas mu­da­ram. En­tre ele e a ex-mulher, agora há tam­bém Boaz, fi­lho dos dois, ex­plo­dindo de ju­ven­tude e vi­o­lên­cia, e Mi­chel Sommo, o novo ma­rido de Ilana, bu­ro­crata me­dío­cre e fa­ná­tico re­li­gi­oso. To­das es­sas vo­zes, com suas me­lo­dias di­ver­sas, ma­ti­za­das às ve­zes pe­los tons mais som­brios da se­xu­a­li­dade (nin­fo­ma­nia, sa­do­ma­so­quismo, voyeu­rismo), são bri­lhan­te­mente or­ques­tra­das pelo au­tor, que aqui se vale da clás­sica forma do ro­mance epis­to­lar. As vá­rias pri­mei­ras pes­soas revelam-se por si mes­mas, em se­cos te­le­gra­mas, bi­lhe­tes mal es­cri­tos ou lon­gas car­tas.
Ao mesmo tempo, por trás de pai­xões pes­so­ais tão in­ten­sas que bei­ram a lou­cura, desenha-se com pre­ci­são o com­plexo pa­no­rama so­cial, re­li­gi­oso e po­lí­tico da vida em Is­rael nos úl­ti­mos anos. For­te­mente eró­tico, mas tam­bém en­gra­çado e poé­tico, A caixa-preta só re­vela aos pou­cos sua sa­be­do­ria mais funda e amarga: so­mente a pro­xi­mi­dade da morte e a cons­ci­ên­cia da fi­ni­tude do corpo po­dem apa­zi­guar as pai­xões. Aquilo que pa­re­cia ape­nas uma en­la­me­ada rede de in­tri­gas, por meio da so­li­da­ri­e­dade que len­ta­mente une es­sas per­so­na­gens des­gra­ça­das, re­veste o li­vro de uma ter­rí­vel dig­ni­dade. Além de ser ines­que­cí­vel, este ro­mance con­quista algo raro – gran­deza hu­mana.


Um tre­cho do li­vro

Dr. Ale­xan­der A. Gui­deon
De­par­ta­mento de Ci­ên­cias Po­lí­ti­cas
Uni­ver­si­dade de Il­li­nois
Chi­cago, Il­li­nois, EUA

Je­ru­sa­lém, 5/2/76

Caro Alec,
Se você não des­truiu esta carta no mo­mento em que iden­ti­fi­cou a le­tra no en­ve­lope, é si­nal que a cu­ri­o­si­dade é até mais forte do que o ódio. Ou que o seu ódio ne­ces­sita de com­bus­tí­vel novo.
Agora você em­pa­li­dece, com­pri­mindo suas man­dí­bu­las de lobo, até os lá­bios de­sa­pa­re­ce­rem, e joga-se so­bre es­tas li­nhas para des­co­brir o que quero de você, o que ouso que­rer de você, de­pois de sete anos de ab­so­luto si­lên­cio en­tre nós.
O que eu quero é que você saiba que Boaz não está bem. E que você o ajude ur­gen­te­mente. Meu ma­rido e eu não po­de­mos fa­zer nada por­que ele não man­tém ne­nhum con­tato co­nosco.
Agora pode pa­rar de ler e jo­gar esta carta di­reto no fogo. (Por al­guma ra­zão sem­pre ima­gino você num apo­sento com­prido, cheio de li­vros, sen­tado so­zi­nho junto a uma es­cri­va­ni­nha preta, e di­ante de você, atra­vés da ja­nela, estendem-se pla­ní­cies va­zias co­ber­tas de neve. Pla­ní­cies sem co­li­nas nem ár­vo­res, neve bri­lhante e árida. Um fogo arde na la­reira à sua es­querda, e um copo va­zio e uma gar­rafa va­zia es­tão so­bre a es­cri­va­ni­nha va­zia em frente a você. A ima­gem toda é em preto-e-branco. Você tam­bém: as­ceta, ar­ro­gante, alto, e todo em preto-e-branco.)
Agora você amassa esta carta, solta um res­mungo da­quele tipo bri­tâ­nico e joga-a cer­teiro no fogo: o que lhe im­porta Boaz? E além disso você não acre­dita mesmo em ne­nhuma pa­la­vra do que digo. Você finca seus olhos cin­zen­tos no fogo bru­xu­le­ante e diz para si mesmo: lá vem ela de novo. Essa mu­lher não de­sis­tirá nem me dará sos­sego.
Por que en­tão es­tou es­cre­vendo para você?
Por de­ses­pero, Alec. Claro, em ques­tão de de­ses­pero você é uma au­to­ri­dade mun­dial. (Sim, cer­ta­mente li – como todo mundo – o seu li­vro A vi­o­lên­cia de­ses­pe­rada: um es­tudo com­pa­ra­tivo do fa­na­tismo.) Mas não me re­firo agora ao seu li­vro, e sim à subs­tân­cia da qual sua alma é feita: de­ses­pero con­ge­lado. De­ses­pero po­lar.
Você ainda está lendo? Re­vi­vendo o seu ódio por nós? Sa­bo­re­ando a ale­gria do in­for­tú­nio com um uís­que caro, em pe­que­nos go­les? Se é as­sim, é me­lhor eu pa­rar de desafiá-lo e me con­cen­trar em Boaz.
A ver­dade é que não te­nho idéia do quanto você sabe. Não me ad­mi­ra­ria se você es­ti­vesse a par de to­dos os de­ta­lhes, exi­gindo e re­ce­bendo do seu ad­vo­gado Zakheim um re­la­tó­rio men­sal so­bre nos­sas vi­das, mantendo-nos to­dos es­tes anos na tela do seu ra­dar. Por ou­tro lado, não me sur­pre­en­de­ria se você não sou­besse de nada: nem que ca­sei com um ho­mem cha­mado Mi­chael (Michel-Henri) Sommo, nem que tive uma fi­lha, nem o que acon­te­ceu com Boaz. Se­ria bem do seu es­tilo vi­rar as cos­tas num gesto bru­tal e nos cor­tar, de uma vez e para sem­pre, de sua nova vida.
De­pois que você nos ex­pul­sou, fui com Boaz para o ki­butz da mi­nha irmã e do ma­rido dela. (Não tí­nha­mos ne­nhum ou­tro lu­gar para ir, nem di­nheiro.) Fi­quei lá seis me­ses, de­pois vol­tei a Je­ru­sa­lém. Tra­ba­lhei numa li­vra­ria, en­quanto Boaz fi­cou cinco anos no ki­butz, até com­ple­tar treze anos. De três em três se­ma­nas cos­tu­mava ir lá, e foi as­sim que che­guei a me ca­sar com Mi­chel – e desde en­tão o me­nino me chama de puta. Exa­ta­mente como você. Ele não veio uma vez se­quer nos ver em Je­ru­sa­lém. Quando nossa fi­lha (Ma­de­leine Yi­fat) nas­ceu, ele ba­teu o te­le­fone.
En­tão, dois anos atrás, ele apa­re­ceu de re­pente à uma da ma­dru­gada de uma noite de in­verno para di­zer que es­tava cheio do ki­butz e que eu o ma­tri­cu­lasse numa es­cola agrí­cola ou ele iria “vi­ver nas ruas” e eu nunca mais ou­vi­ria fa­lar nele.
Meu ma­rido acor­dou e disse a ele para ti­rar as rou­pas mo­lha­das, para co­mer al­guma coisa, que to­masse um bom ba­nho, se dei­tasse, que de ma­nhã con­ver­sa­ría­mos. E o me­nino (já en­tão, aos treze anos e meio, ele era muito mais en­cor­pado e alto que Mi­chel) res­pon­deu como se es­ti­vesse pi­sando num in­seto: “E quem é você? Quem fa­lou com você?”. Mi­chel riu e disse: “Su­giro que você vá dar uma volta lá fora, acalme-se, vire a fita, de­pois bata no­va­mente na porta e en­tre agindo como uma pes­soa, não como um go­rila”.
Boaz voltou-se em di­re­ção à porta, mas eu me co­lo­quei en­tre ele e a saída. Eu sa­bia que ele não to­ca­ria em mim. O bebê acor­dou e co­me­çou a cho­rar, Mi­chel foi tro­car a fralda e es­quen­tar o leite na co­zi­nha. Eu disse: “Está bem, Boaz. Você vai para a es­cola agrí­cola, se é isso que você re­al­mente quer”. Mi­chel, de ca­mi­seta e cu­eca, em­ba­lando o bebê, que ti­nha fi­cado qui­eto, acres­cen­tou: “Mas com a con­di­ção de que você diga des­culpa à sua mãe, bem bo­nito, de­pois diga obri­gado. O que é que há, você é um ca­valo?”. E Boaz, com a face con­tor­cida pelo de­ses­pero e es­cár­nio que her­dou de você, sus­sur­rou para mim: “E você deixa este coisa fo­der você toda noite?”. De­pois es­ten­deu a mão, to­cou meu ca­belo e disse numa voz di­fe­rente, que ma­chuca meu co­ra­ção quando lem­bro: “Mas o bebê de vo­cês é bem bo­nito”.
De­pois ma­tri­cu­la­mos Boaz (com a in­fluên­cia do ir­mão de Mi­chel) na Es­cola Agrí­cola Tla­mim. Isso foi há dois anos, no co­meço de 1974, não muito de­pois da guerra em que você – as­sim me con­ta­ram – vol­tou a Is­rael como co­man­dante de um ba­ta­lhão de tan­ques no Si­nai, an­tes de fu­gir ou­tra vez. Tam­bém acei­ta­mos a exi­gên­cia dele de não visitá-lo. Pa­ga­mos as men­sa­li­da­des e fi­ca­mos qui­e­tos. Quer di­zer, Mi­chel pa­gou. Bem, não foi exa­ta­mente Mi­chel.
Não re­ce­be­mos se­quer um único cartão-postal de Boaz du­rante aque­les dois anos. Ape­nas avi­sos da di­re­tora. O ra­paz é vi­o­lento. O ra­paz meteu-se numa briga e que­brou a ca­beça do guarda-noturno. O ra­paz foge à noite. O ra­paz tem fi­cha na po­lí­cia. O ra­paz está sob a guarda de um ofi­cial de cor­re­ção. O ra­paz tem que dei­xar a es­cola. Este ra­paz é um mons­tro.
E do que é que você se lem­bra, Alec? A úl­tima coisa que você viu foi uma cri­a­tura de oito anos, um me­nino claro, ma­gro e com­prido como um pé de mi­lho, sen­tado ho­ras em si­lên­cio num ban­qui­nho, apoi­ado na sua es­cri­va­ni­nha, con­cen­trado, cons­truindo para você mo­de­los de aviões de ma­deira da­que­les li­vri­nhos tipo faça-você-mesmo que você com­prava para ele – um me­nino cui­da­doso, dis­ci­pli­nado, quase me­droso, mesmo que já en­tão, aos oito anos, fosse ca­paz de su­por­tar hu­mi­lha­ções com uma es­pé­cie de si­len­ci­osa e con­tida de­ter­mi­na­ção. E en­quanto isso, como uma bomba-relógio ge­né­tica, Boaz está agora com de­zes­seis anos, um me­tro e no­venta e dois de al­tura e con­ti­nua cres­cendo, um ga­roto amargo e sel­va­gem a quem o ódio e a so­li­dão de­ram uma força fí­sica es­pan­tosa. Esta ma­nhã acon­te­ceu aquilo que eu es­pe­rava há tem­pos: um te­le­fo­nema ur­gente. De­ci­di­ram expulsá-lo da es­cola, por­que ata­cou uma das pro­fes­so­ras. Recusaram-se a me for­ne­cer de­ta­lhes.
Bem, fui para lá ime­di­a­ta­mente, mas Boaz recusou-se a me ver. Limitou-se a man­dar di­zer que não ti­nha “nada a ver com aquela puta”. Es­tava fa­lando da­quela pro­fes­sora? Ou de mim? Não sei. Fi­cou es­cla­re­cido que ele não ha­via exa­ta­mente “ata­cado” a pro­fes­sora: ele ti­nha feito al­guma brin­ca­deira pe­sada, le­vou uma bo­fe­tada dela e ime­di­a­ta­mente deu duas de volta. Im­plo­rei para adi­a­rem a ex­pul­são até que eu en­con­trasse um lu­gar onde colocá-lo. Eles ti­ve­ram pena de mim e me de­ram duas se­ma­nas.
Mi­chel diz que, se eu qui­ser, Boaz pode fi­car aqui co­nosco (ape­sar de mo­rar­mos com o bebê num apar­ta­mento de quarto e sala, do qual ainda não aca­ba­mos de qui­tar a hi­po­teca). Mas você sabe tão bem quanto eu que Boaz não con­cor­da­ria com isso. Esse ga­roto me de­testa tanto. E a você tam­bém. Por­tanto te­mos algo em co­mum, eu e você, ape­sar de tudo. Sinto muito.
Tam­bém não há chan­ces de ele ser aceito em ou­tra es­cola, com aque­las duas fi­chas na po­lí­cia e o ofi­cial de cor­re­ção no pé dele. Es­tou es­cre­vendo para você por­que não sei o que fa­zer. Es­tou es­cre­vendo para você mesmo que você não leia, e se ler, não me res­ponda. No má­ximo ins­truirá seu ad­vo­gado Zakheim para me en­viar uma carta for­mal na qual hon­ro­sa­mente me lem­brem que o re­me­tente con­ti­nua a ne­gar a pa­ter­ni­dade, que o exame de san­gue não deu um re­sul­tado claro e que fui eu mesma que, na­quela época, me opus ca­te­go­ri­ca­mente a um exame de te­ci­dos. Xeque-mate.
Sim, o di­vór­cio li­vrou você de toda res­pon­sa­bi­li­dade em re­la­ção a Boaz e de qual­quer obri­ga­ção co­migo. Meu co­ra­ção lem­bra de tudo isso, Alec. Não te­nho ne­nhuma es­pe­rança. Es­crevo para você como se es­ti­vesse numa ja­nela e fa­lasse com as mon­ta­nhas. Ou com a es­cu­ri­dão en­tre as es­tre­las. O de­ses­pero é a sua es­pe­ci­a­li­dade. Se você qui­ser, pode me clas­si­fi­car como um es­pé­cime.
Você ainda con­ti­nua se­dento de vin­gança? Se é as­sim, es­tendo mi­nha ou­tra face. A mi­nha, e a de Boaz tam­bém. Vá em frente, bata com toda a força.
Sim, vou mesmo man­dar esta carta para você, mesmo de­pois de ter lar­gado a ca­neta e de­ci­dido de­sis­tir: afi­nal, não te­nho nada a per­der. To­dos os ca­mi­nhos es­tão fe­cha­dos. Com­pre­enda: mesmo que o ofi­cial de cor­re­ção ou a as­sis­tente so­cial con­si­gam con­ven­cer Boaz a pas­sar por al­gum tipo de tra­ta­mento, re­a­bi­li­ta­ção, ajuda, trans­fe­rên­cia para uma ou­tra es­cola (e não acre­dito que con­si­gam), eu não te­nho di­nheiro para pa­gar por isso.
En­quanto você tem muito, Alec.
E eu não te­nho re­la­ções, en­quanto você pode mo­ver tudo com dois te­le­fo­ne­mas. Você é in­te­li­gente e forte. Ou era in­te­li­gente e forte há sete anos. (Contaram-me que você so­freu duas ope­ra­ções. Não sou­be­ram me di­zer de que tipo.) Es­pero que você es­teja bem agora. Não quero es­cre­ver mais do que isto aqui, para que você não me acuse de hi­po­cri­sia. Adu­la­ção. Ba­ju­la­ção. E não nego, Alec: con­ti­nuo dis­posta a lam­ber as suas bo­tas o quanto você qui­ser. Es­tou pronta a fa­zer tudo o que você pe­dir. E quero di­zer: tudo. Ape­nas para que você salve o seu fi­lho.
Se eu ti­vesse um pouco de juízo, apa­ga­ria agora a ex­pres­são “seu fi­lho” e es­cre­ve­ria “Boaz”, para não enfurecê-lo. Mas como posso apa­gar a ver­dade? Você é o pai dele. E quanto ao meu juízo, faz tempo que você che­gou à con­clu­são de que sou to­tal­mente idi­ota, não?
Vou fa­zer uma oferta a você. Es­tou pre­pa­rada para con­fes­sar por es­crito, di­ante de um ta­be­lião, se você qui­ser, que Boaz é fi­lho de qual­quer um que você queira que eu diga. Meu amor-próprio foi as­sas­si­nado há muito tempo. As­si­na­rei qual­quer pe­daço de pa­pel que o seu ad­vo­gado co­lo­car na mi­nha frente se, em troca, você con­cor­dar em so­cor­rer Boaz. Va­mos cha­mar isso de “ajuda hu­ma­ni­tá­ria”. Di­ga­mos, um ato gen­til para um me­nino to­tal­mente es­tra­nho.
É ver­dade, quando paro de es­cre­ver e penso nele, vendo-o di­ante de mim, eu me agarro atrás das pa­la­vras; Boaz é um ga­roto es­tra­nho. Não, não um ga­roto. Um ho­mem es­tra­nho. Ele me chama de puta. Você, ele chama de ca­chorro. Mi­chel, de “o pe­queno al­co­vi­teiro”. A si pró­prio ele chama (tam­bém nos do­cu­men­tos) pelo meu so­bre­nome de sol­teira (Boaz Brands­tet­ter). E a es­cola onde o ma­tri­cu­la­mos, como ele pe­diu, ele chama de “Ilha do Di­abo”.
Agora vou di­zer uma coisa que você po­derá uti­li­zar con­tra mim. Os pais do meu ma­rido nos en­viam men­sal­mente de Pa­ris um pouco de di­nheiro para mantê-lo nessa es­cola, ape­sar de ja­mais te­rem visto Boaz e Boaz apa­ren­te­mente nunca ter ou­vido fa­lar da exis­tên­cia de­les. Eles são pes­soas muito mo­des­tas (imi­gran­tes da Ar­gé­lia) e, além de Mi­chel, têm mais cinco fi­lhos e oito ne­tos, na França e em Is­rael.
Alec, ouça: não vou es­cre­ver uma pa­la­vra so­bre o que acon­te­ceu no pas­sado. Fora uma coisa, uma coisa que ja­mais es­que­ce­rei, mesmo que você se es­pante so­bre como e onde fi­quei sa­bendo dela. Dois me­ses an­tes do nosso di­vór­cio, Boaz foi hos­pi­ta­li­zado no Sha­a­rei Tse­dek com uma in­fec­ção re­nal. E houve com­pli­ca­ções. Você foi, sem o meu co­nhe­ci­mento, per­gun­tar ao pro­fes­sor Blu­menthal se um adulto po­de­ria, em caso de ne­ces­si­dade, doar um rim a um me­nino de oito anos. Você es­tava pla­ne­jando doar a ele um de seus rins. E ad­ver­tiu ao pro­fes­sor que só ti­nha uma exi­gên­cia: que eu (e o me­nino) ja­mais sou­bés­se­mos. E re­al­mente eu não soube, até que fiz ami­zade com o dr. Adorno, o as­sis­tente de Blu­menthal, aquele mé­dico jo­vem que você quis in­di­ciar por ne­gli­gên­cia cri­mi­nosa du­rante o tra­ta­mento de Boaz.
Se você ainda está lendo, neste mo­mento pro­va­vel­mente es­tará em­pa­li­de­cendo mais ainda, pe­gando o is­queiro com um gesto de vi­o­lên­cia su­fo­cada e le­vando o fogo até seus lá­bios (por­que o ca­chimbo não está lá), e re­pe­tindo para si mesmo: Claro. O dr. Adorno. Quem mais? E se você ainda não des­truiu a mi­nha carta, este é o mo­mento em que você a des­truirá. E a mim e a Boaz tam­bém.
De­pois Boaz curou-se e en­tão você nos ex­pul­sou da sua casa, do seu nome e da sua vida. Nunca doou ne­nhum rim. Mas eu acre­dito que você re­al­mente pre­ten­deu doar. Por­que tudo em você é sé­rio. Isso é o que mais re­co­nheço – você é sé­rio. Adu­lando você ou­tra vez? Se você qui­ser, con­fes­sa­rei a culpa. Adu­lando. Ba­ju­lando. De jo­e­lhos di­ante de você, com a testa to­cando o chão. Como en­tão. Como na­que­les ve­lhos e bons tem­pos.
Por­que não te­nho nada a per­der e não me im­porta im­plo­rar. Fa­rei o que você or­de­nar. Só não de­more muito, por­que den­tro de duas se­ma­nas jo­ga­rão o ga­roto na rua. E a rua está es­pe­rando por ele.
Afi­nal, nada no mundo está além de suas for­ças. Mande o seu ad­vo­gado mons­tro. Tal­vez acei­tem o ga­roto na es­cola de ofi­ci­ais da Ma­ri­nha. (Boaz tem uma es­tra­nha atra­ção pelo mar, desde me­nino. Você lem­bra, Alec, em Ash­ke­lon, no ve­rão da Guerra dos Seis Dias? O re­de­moi­nho? Aque­les pes­ca­do­res? Aquela jan­gada?)
E uma úl­tima coisa, an­tes de en­cer­rar esta carta: tam­bém me dei­ta­rei com você, se você qui­ser. Quando você qui­ser. Do jeito que você qui­ser. (Meu ma­rido sabe a res­peito desta carta e con­cor­dou que eu a es­cre­vesse – me­nos a úl­tima frase. E agora, se você qui­ser me des­truir, po­derá sim­ples­mente fa­zer uma fo­to­có­pia, su­bli­nhar a úl­tima frase com lá­pis ver­me­lho e enviá-la ao meu ma­rido. Fun­ci­o­nará ma­ra­vi­lho­sa­mente. Ad­mito: menti para você quando es­crevi aqui que não ti­nha nada a per­der.)
E as­sim, Alec, agora es­ta­mos to­dos com­ple­ta­mente em suas mãos. Até a mi­nha fi­lhi­nha. E você pode fa­zer o que qui­ser de nós.
Ilana (Sommo)
[…]

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