Impressões, Retratos

Pais e filhos

sexta-feira, 6 de agosto de 2010 Texto de

Em 1954, meu pai ao la­do de ca­mi­nhão car­re­ga­do de ca­pim

Par­ti­ci­pei da úl­ti­ma ce­na da vi­da do meu pai. Ele es­ta­va mor­ren­do no hos­pi­tal. Do la­do de lá do lei­to, mi­nha mãe. Do la­do de cá, eu. Na ca­be­cei­ra. Meus ir­mãos e ou­tras pes­so­as es­pe­ra­vam no cor­re­dor. Acon­te­ce­ria a qual­quer mo­men­to. Era uma noi­te no fim de mar­ço. Tem­pe­ra­tu­ra ame­na. Pe­la ja­ne­la, da­va pa­ra ver as ár­vo­res os­ci­la­rem num ven­to de chu­va que vi­ria.

Meu pai era um su­jei­to de cer­to mo­do rús­ti­co. Nas­ceu, cres­ceu e vi­veu no cam­po. Fi­lho de es­pa­nhol e bra­si­lei­ra, era bran­co, mas a pe­le tos­ta­da do sol. Do tra­ba­lho. Da ter­ra. Es­tu­dou até o ter­cei­ro ano pri­má­rio, mas sa­bia to­car a vi­da. Pla­ne­jar. Or­ga­ni­zar. Co­man­dar.

Era qua­se sem­pre du­ro. Mas sen­ti­men­tal. E brin­ca­lhão. Di­ver­ti­do. Ja­mais apa­nhei de­le. Nem um ta­pi­nha que fos­se.

Só que o diá­lo­go era va­go. Não ha­via. Cul­pa de quem?

“Vo­cê me diz que seus pais
Não en­ten­dem
Mas vo­cê não en­ten­de seus pais...”
(“Pais e fi­lhos” - Da­do Vil­la-Lo­bos / Re­na­to Rus­so / Mar­ce­lo Bon­fá)

Ho­je, às ve­zes, in­tro­me­ti­do que sou, di­go a ami­gos que eles pre­ci­sam en­ten­der seus pais. Que, sob qual­quer hi­pó­te­se, eles são os er­ra­dos quan­do não se es­for­çam pa­ra is­so. De­pois, quan­do já dis­se, per­gun­to a mim mes­mo quem sou eu pa­ra di­zer al­go as­sim a quem quer que se­ja.

Na­que­la úl­ti­ma ce­na da vi­da do meu pai, aca­ri­ci­ei seus ca­be­los im­preg­na­dos de óleo da mor­te. Acho que foi o úni­co ges­to de ca­ri­nho que dis­pen­sei a ele em to­da a mi­nha vi­da, e eu já ti­nha 30 anos. Nun­ca dis­se a ele que o ama­va. Nem no der­ra­dei­ro mo­men­to, quan­do ele cra­vou em mim seu olhar fi­nal.

Lá fo­ra, as ár­vo­res chi­a­vam ao ven­to. A chu­va vi­ria mais tar­de. Uma ter­rí­vel có­li­ca de rim re­vi­ra­va-me a al­ma. E no meu pei­to co­me­ça­va a re­me­xer-se o ger­me de um re­mor­so que ho­je já en­tra na ado­les­cên­cia.

Abai­xo, al­gu­mas fo­tos de­le:

Em 1962, com seu ca­va­lo bran­co per­cor­ren­do o sí­tio

Em 1966, com nos­sa ca­chor­ra cha­ma­da “Pre­ta”

Em 1979, pre­pa­ran­do-se pa­ra des­fi­lar no Car­na­val

Em 1983, em “con­cer­to” com o pri­mo Pa­qui­to

Ve­ja Re­na­to Rus­so can­tan­do “Pais e fi­lhos”

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