Retratos

A casa onde nasci

quinta-feira, 5 de agosto de 2010 Texto de


Es­tava as­sim, há uns cinco ou seis anos, a casa onde nasci, no sí­tio. Hoje deve es­tar ainda mais ve­lha e aban­do­nada. Ca­sas são como pes­soas: quando sós, sem nin­guém que as pre­en­cha, ini­ciam um pro­cesso de de­te­ri­o­ra­ção. Aos pou­cos, dissipa-se a ener­gia que as per­cor­reu por tão di­fe­ren­tes ca­mi­nhos. A lenta im­plo­são é ape­nas uma ques­tão de tempo. 

Às ve­zes, ao deparar-me com esta foto, te­nho a sen­sa­ção de que a casa me ob­serva com um olhar terno, mas tam­bém en­tris­te­cido, como al­guém cons­ci­ente da im­pos­si­bi­li­dade de que as coi­sas re­tor­nem a ser como fo­ram um dia, mas ao mesmo tempo guar­dando, lá no fundo, um ine­vi­tá­vel ran­cor con­tra o des­tino.

Esta é uma foto feita por al­gum pa­rente de mi­nha fa­mí­lia que não me lem­bro agora. Quando a vi, achei-a de uma ex­pres­são ex­tra­or­di­ná­ria. Claro que há nessa sen­sa­ção o com­po­nente emo­ci­o­nal: eu nasci aqui. Mas a fo­to­gra­fia cap­tou raios so­la­res que pa­re­cem com­por uma es­pé­cie de aura an­ge­li­cal so­bre sua es­tru­tura.

As ja­ne­las e por­tas da frente (à di­reita) evi­tam me en­ca­rar. Dali vem a tris­teza e, quem sabe, o in­con­for­mismo di­ante do aban­dono. A ter­nura está na ex­pres­siva ja­nela da es­querda. Em­bora so­li­tá­ria em sua pa­rede, ela pa­rece me di­zer que com­pre­ende. Com­pre­ende a ine­xo­rá­vel força do tempo. Para as ca­sas. Para os se­res hu­ma­nos. Para tudo.

Ofe­reço para a casa onde nasci “Ca­val­le­ria Rus­ti­cana”, de Pi­e­tro Mas­cagni, ita­li­ano que mor­reu na dé­cada de 1940 e que por ter cri­ado esta obra emo­ci­o­nante me­re­cia que to­dos nós fôs­se­mos co­brir seu tú­mulo com flo­res. No ví­deo abaixo, está o in­ter­mezzo da ópera. O ma­es­tro é, se­gundo o You­tube, Ric­cardo Muti. Fes­ti­val de Ra­venna, 1996. Or­ques­tra del Te­a­tro Co­mu­nale di Bo­logna.
http://www.youtube.com/watch?v=Xvdig4N0bpk

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