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sexta-feira, 30 de julho de 2010 Texto de


Pro­testo em Pam­plona, Es­pa­nha, con­tra o mas­sa­cre dos tou­ros na Cor­rida de San Fer­mín, em ju­lho

Ima­gino o quanto seja di­fí­cil para um povo acei­tar que se acabe ra­di­cal­mente um dado cul­tu­ral tão en­tra­nhado em sua his­tó­ria, como são as tou­ra­das para os es­pa­nhóis. Por isso, mi­nha so­li­da­ri­e­dade à co­ra­gem da autô­noma Ca­ta­lu­nha, ten­tando fa­zer va­ler a proi­bi­ção das tou­ra­das em suas ter­ras a par­tir de 2012. Da­qui, do ou­tro lado do Atlân­tico, en­vio aos ca­ta­lães meu to­tal apoio e mi­nha ad­mi­ra­ção.

Um dia, quem sabe, toda a Es­pa­nha tam­bém acor­dará para o que uma cor­rida de to­ros re­pre­senta. Não é uma luta leal en­tre ho­mem e ani­mal pelo ali­mento ou para pro­te­ger as res­pec­ti­vas ni­nha­das. É a morte anun­ci­ada desde o mo­mento em que se abrem as por­tas da praça. O ob­je­tivo do em­bate é a morte do touro, não sem an­tes o tou­reiro esgotá-lo, espetá-lo, feri-lo e sangrá-lo até a morte, sob o in­cen­tivo e os aplau­sos da pla­teia. E não sa­tis­fei­tos com isso, os fa­ná­ti­cos es­pec­ta­do­res ainda pe­dem a ore­lha ou a cauda do ani­mal como sou­ve­nir do “grande feito” do tou­reiro, o he­rói da festa. 

Viva a Ca­ta­lu­nha, que, como sem­pre, parte na frente do resto da Es­pa­nha, da qual faz ques­tão de ser autô­noma, e tenta ba­nir de suas ter­ras uma bar­bá­rie tra­ves­tida de festa na­ci­o­nal.

Ins­pi­rada nessa ati­tude, a Es­pa­nha po­de­ria re­pen­sar sua fa­tí­dica Cor­rida de San Fer­mín, quando anu­al­mente, em ju­lho, tou­ros são sol­tos pe­las ruas de Pam­plona, que dis­pa­ram as­sus­ta­dos en­quanto são sur­ra­dos, seus ra­bos pu­xa­dos e mal­tra­ta­dos pe­los que ali es­tão ape­nas para isso. E tudo visto como di­ver­são. Fe­liz­mente, nem to­dos em Pam­plona pen­sam as­sim, e há al­guns anos al­gu­mas as­so­ci­a­ções de pro­te­ção aos ani­mais vêm se ma­ni­fes­tando pela abo­li­ção dessa tra­di­ção de mau gosto e de cru­el­dade ex­plí­cita.

No mesmo pa­cote, nos­sos ca­ta­ri­nen­ses lú­ci­dos po­de­riam con­ti­nuar seu apoio à Lei Fe­de­ral nº 9.605, de 1998, que proíbe uma es­tu­pi­dez se­me­lhante, cha­mada Farra do Boi. Du­rante a Farra, os ani­mais tam­bém são sol­tos pe­las ruas para se­rem pro­vo­ca­dos, es­pan­ca­dos e até in­cen­di­a­dos, tor­tu­ra­dos de to­das as ma­nei­ras que o ser hu­mano sabe tão bem ima­gi­nar e pôr em prá­tica, mos­trando às suas cri­an­ças o que se faz com ani­mais in­de­fe­sos.

Os “far­ris­tas” – a fa­vor da con­ti­nui­dade – ten­tam a todo custo re­vi­ver a ma­ni­fes­ta­ção, que em al­guns lo­cais ainda per­siste, sob as vis­tas gros­sas de quem po­de­ria im­pe­dir. Como essa ma­ni­fes­ta­ção já é uma tra­di­ção há 200 anos, os de­fen­so­res da bar­bá­rie ar­gu­men­tam que não se eli­mi­nam tra­di­ções por de­creto ou re­pres­são.

É ver­dade, mas lei, de­creto e si­mi­la­res po­dem ser um pri­meiro passo. A Ca­ta­lu­nha deu o seu, que Santa Ca­ta­rina já ti­nha dado, e não se pode pre­ver até onde vão es­ses pas­sos. Mas eles mos­tra­ram a cara e vão en­fren­tar a re­sis­tên­cia a esse tipo de bar­ba­rismo pri­mi­tivo, que al­guns ainda in­sis­tem em pre­ser­var com o nome de tra­di­ção.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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