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A moça do violino

quarta-feira, 16 de junho de 2010 Texto de

Com a pu­bli­ca­ção do conto que você lerá a se­guir, meu ob­je­tivo é pres­tar mi­nha sin­gela ho­me­na­gem a quem po­de­ria ter sido um grande es­cri­tor.

Conto es­crito em agosto de 1994 por
Ál­varo Vil­las Bôas

Quem me con­tou este fato – na ver­dade uma his­to­ri­a­zi­nha ba­nal, en­gra­çada e, ao mesmo tempo, muito triste – foi um amigo sem di­ploma, sm es­tudo, sem gran­des lei­tu­ras. Pos­suía, en­tre­tanto, um ex­tra­or­di­ná­rio senso de de­ta­lhe e bas­tante ca­pa­ci­dade para re­cons­ti­tuir si­tu­a­ções e des­cre­ver pes­soas. As­sim, quando lhe per­gun­tei como era, exa­ta­mente, a “moça do vi­o­lino”, o meu amigo, um “Ma­chado de As­sis” não la­pi­dado, em po­ten­cial, apresentou-me um re­trato de corpo in­teiro, con­vin­cente, per­feito, de modo que, pas­sa­dos tan­tos anos, eu ainda a “vejo”, em­bora ja­mais te­nha me en­con­trado com ela.

A moça che­gava cedo, bem an­tes das sete da ma­nhã, su­bia os de­graus da es­ta­ção car­re­gando uma ve­lha caixa de vi­o­lino e se jun­tava, na pla­ta­forma, aos ho­mens e mu­lhe­res que, to­dos os dias, na­quele ho­rá­rio, vi­a­ja­vam para São Paulo no trem de su­búr­bio. O po­vi­nho – parte do povo grande que mo­vi­men­tava a Ca­pi­tal – ia tra­ba­lhar em fá­bri­cas, ofi­ci­nas, lo­jas, es­cri­tó­rios… A “moça do vi­o­lino” ia para a sua aula de vi­o­lino. Es­tava nisso a di­fe­rença. Ti­nha a pele clara, olhos e ca­be­los cas­ta­nhos e, de acordo com o meu in­for­mante, “um corpo de cau­sar in­veja nas ou­tras”. Não era alta, nem baixa, usava roupa justa, sa­pa­tos de sal­ti­nho, e seu an­dar foi des­crito como sendo “firme e de­sem­pe­nado”. Em re­sumo, era bo­nita e, além de bo­nita, ele­gante.

É ver­dade que, na­quela al­tura, as mo­ças, quase to­das, exi­biam um quê de ele­gân­cia por­que o tempo fe­roz do tê­nis ame­ri­cano, das ca­mi­se­tas com a es­tampa do Mic­key, do je­ans amar­fa­nhado e des­bo­tado ainda es­tava no fu­turo, não pas­sava se­quer pela mente das pes­soas. Chamava-se Síl­via e como esse nome lem­bra mú­sica ao longe, or­va­lho, bri­lho de pé­ro­las, acom­pa­nhei com grande in­te­resse a his­tó­ria que o meu amigo foi des­fi­ando len­ta­mente, sem pressa de che­gar ao fim. En­trou em de­ta­lhes. Referiu-se, por exem­plo, às mãos de­li­ca­das da moça e tam­bém aos ves­ti­dos que ela usava. Creio que men­ci­o­nou até mesmo a cor de cada um. Eram pou­cos, to­dos muito sim­ples, quase po­bres, mas, fez ques­tão de di­zer, “es­ta­vam sem­pre em or­dem”. Fa­lou de seu per­fume leve e fresco (água de colô­nia, sem dú­vida) e não se es­que­ceu de que nos dias chu­vo­sos ela apa­re­cia de capa e guarda-chuva, am­bos muito usa­dos, e aper­tando a caixa do vi­o­lino con­tra o peito.

O po­vi­nho se dis­per­sava e de­sa­pa­re­cia na ci­dade cin­zenta e rui­dosa – São Paulo dos anos 40. Síl­via tam­bém de­sa­pa­re­cia e só na boca da noite, quando os anún­cios de “neon” já es­ta­vam ace­sos, to­dos se re­en­con­tra­vam na es­ta­ção para a vi­a­gem de volta. No meio dos com­pa­nhei­ros, ela car­re­gava a caixa do vi­o­lino. Não con­ver­sava, mesmo as­sim to­dos ad­mi­ra­vam seu tra­ba­lho, seus es­tu­dos. “Mú­sico vive em ou­tro mundo”, “Es­tu­dar vi­o­lino é coisa fina, su­pe­rior…” – pen­sava o po­vi­nho do trem. En­tre­tanto, era im­pos­sí­vel evi­tar com­ple­ta­mente os diá­lo­gos. Mas, quando ocor­riam, ti­nham vida curta por­que a ou­tra parte logo es­bar­rava no ar dis­tante da moça, nos seus mo­nos­sí­la­bos.

Mos­trar o vi­o­lino? “Qual­quer dia eu mos­tro; hoje não. Di­zem que mos­trar o ins­tru­mento en­quanto a gente está apren­dendo a to­car é… muito ruim, dá azar…” Ponto fi­nal, as­sunto en­cer­rado. “Vi­o­lino é di­fí­cil?” “Muito di­fí­cil.” “Cansa?” “Cansa.” “Se as au­las são muito ca­ras? São, mas quem paga é meu pa­dri­nho que mora no Rio”… Certo dia, um se­nhor aus­tero, de bi­gode, con­ta­dor da Pre­fei­tura de São Paulo, acres­cen­tou com sua enorme au­to­ri­dade: “Fi­car ho­ras in­tei­ras to­cando vi­o­lino, er­rando uma no­ti­nha aqui, ou­tra mais na frente, e de­pois re­co­me­çar tudo para cor­ri­gir os er­ros, sabe Deus quan­tas ve­zes, não é para qual­quer um… Essa moça tem va­lor.” Só fal­tou con­cluir com um “te­nho dito”. “Não é para qual­quer um” – re­pe­tia o pes­soal do trem. Al­guns sa­biam onde Síl­via mo­rava: perto do De­pó­sito de Sa­cos de Es­topa. O pai era car­pin­teiro de fundo de quin­tal. A mãe, como tan­tas ou­tras na­quele su­búr­bio, pas­sava o dia en­tre a co­zi­nha e o tan­que de la­var roupa. Ha­via ainda os ir­mãos me­no­res que iam à es­cola e de­pois con­su­miam o resto do dia jo­gando bola na rua, di­zendo pa­la­vrões, dis­cu­tindo, gri­tando… Tudo per­fei­ta­mente nor­mal, disse o meu amigo.

Mas um dia acon­te­ceu um fato ines­pe­rado, es­tra­nho. Ha­via cho­vido du­rante a ma­dru­gada e os de­graus da es­ta­ção do trem es­ta­vam mo­lha­dos, es­cor­re­ga­dios. Ao su­bir, Síl­via es­cor­re­gou e caiu. Foi um tombo feio. Ela caiu de bru­ços e, não se sabe como, o fe­cho da caixa ba­teu com força na bei­rada de um de­grau, a caixa se abriu e des­pe­jou na es­cada tudo que es­tava den­tro. Não ha­via ne­nhum vi­o­lino. Ha­via, sim, uma pe­quena mar­mita fe­chada com elás­tico, uma ba­nana, duas me­xe­ri­cas e o ta­lher en­vol­vido por um guar­da­napo. Só isso. Al­guns com­pa­nhei­ros de vi­a­gem que es­ta­vam na es­cada no mo­mento do tombo le­van­ta­ram a moça per­gun­tando: “Ma­chu­cou? Ma­chu­cou?” Síl­via ti­nha es­fo­lado os jo­e­lhos, o queixo e um co­to­velo. Mor­dia o lá­bio in­fe­rior e fa­zia um grande es­forço para não cho­rar. Pas­sado um mi­nuto, co­me­çou a cho­rar de ver­dade, não por causa dos fe­ri­men­tos, mas por causa de ou­tra dor… Você en­tende?

– Claro que en­tendo.

– Não houve co­men­tá­rios, nem ri­sa­das. Al­guém pe­gou a caixa for­rada de ve­ludo já meio es­gar­çado pelo tempo e re­co­lo­cou tudo lá den­tro: o ta­lher, a ba­nana, etc. De­pois, fechou-a dis­cre­ta­mente. To­dos es­ta­vam qui­e­tos, so­li­dá­rios. Di­zem que o nosso povo não é ci­vi­li­zado. Con­cordo. Mas de vez em quando so­mos muito ci­vi­li­za­dos e até mais do que isso, não acha?

– Sem­pre achei.

Eu ainda quis fa­lar so­bre a “moça do vi­o­lino”, po­rém o meu amigo es­tava de tal ma­neira sau­doso e triste que re­solvi mu­dar o rumo da con­versa. Mu­dei e nunca mais vol­ta­mos ao as­sunto.

Ál­varo Vil­las Bôas, in­di­ge­nista, mor­reu em agosto de 1995. 

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