Impressões

Três dúvidas

domingo, 6 de junho de 2010 Texto de

Le­o­nardo Bra­si­li­ense, es­cri­tor gaú­cho que já ven­ceu o Prê­mio Ja­buti, acaba de pu­bli­car “Três dú­vi­das” (Com­pa­nhia das Le­tras, 176 pá­gi­nas).

Li o li­vro numa única es­to­cada. E com o co­ra­ção na mão. Por­que, além da pro­fun­di­dade da pro­posta fi­lo­só­fica (bem ex­pli­cada na ore­lha in­clu­sive), há ali uma ten­são per­ma­nente, um fio es­ti­cado que está sem­pre nos ame­a­çando com um pos­sí­vel rom­pi­mento.

Acho que, an­tes de mais nada, an­tes da pró­pria “pro­posta maior” da obra, vem essa essa ten­são, essa de­ses­pe­ra­dora pers­pec­tiva de ir­re­so­lu­ção, essa in­qui­e­tante sen­sa­ção de que, ao en­trar no li­vro, fa­ze­mos parte de um voo cego cujo des­tino se abre à nossa frente como um in­su­por­tá­vel le­que de in­cer­te­zas: não sa­be­mos mais se te­re­mos uma pista se­gura para ater­ris­sar na volta.

Eis a si­nopse pu­bli­cada pela Com­pa­nhia das Le­tras:

Três dú­vi­das é um li­vro so­bre a di­fi­cul­dade de se co­nhe­cer a re­a­li­dade. Será que o que eu penso existe mesmo? Será que meus sen­ti­men­tos cor­res­pon­dem à ver­dade? Como faço para não me per­der na vas­ti­dão das ló­gi­cas pos­sí­veis para os sen­ti­men­tos pro­vo­ca­dos por mi­nha ex­pe­ri­ên­cia da vida? Qual é esse fio que se­para a lou­cura da sa­ni­dade, o vago do ní­tido, a im­pres­são do co­nhe­ci­mento?

São três no­ve­las. Na pri­meira, um ho­mem recém-aposentado se vê so­zi­nho no quin­tal de casa, olhando para dois li­mo­ei­ros gas­tos e um poço sem uso, des­car­tado do curso do tempo no qual se mo­vem sua mu­lher, seu ir­mão, sua cu­nhada, o mer­ce­eiro, as pes­soas que ocu­pam as ruas em seus que­fa­ze­res.

Na se­gunda, um jo­vem do in­te­rior se perde num la­bi­rinto de ame­a­ças em Porto Ale­gre de­pois de bus­car uma in­di­a­zi­nha bo­li­vi­ana no ae­ro­porto. Como numa caixa de más sur­pre­sas, uma si­tu­a­ção en­gen­dra a pró­xima para dissolvê-la mi­nu­ci­o­sa­mente até deixá-la re­du­zida a uma cons­ci­ên­cia to­mada de pa­vor.

Na ter­ceira no­vela, um jor­na­lista está pres­tes a dar um salto na car­reira com uma ma­té­ria bom­bás­tica que, acre­dita, irá transformá-lo no re­pór­ter mais im­por­tante do jor­nal. Mas um aci­dente na es­trada trans­forma a re­a­li­dade em des­tro­ços e as pes­soas em es­pec­tros.

Um li­vro no­tá­vel, de um jo­vem au­tor com muito a di­zer.

Eis um tre­cho do li­vro:

Aos cin­quenta e nove anos, José Fran­cisco vive numa casa
de dois quar­tos, sala, co­zi­nha, um ba­nheiro den­tro e ou­tro fora, na área de ser­viço. No quin­tal, dois li­mo­ei­ros e um an­tigo poço. Em parte gra­mado, o quin­tal é onde ele se sente cri­ança, por­que na casa dos pais tam­bém ha­via um poço, en­tre­tanto ha­via mais ár­vo­res, mais som­bra, mais fu­turo.

Aposentou‑se faz um ano. Era cor­re­tor de se­gu­ros, agora é
um apo­sen­tado, sim­ples­mente, não um “cor­re­tor de se­gu­ros apo­sen­tado”. Tem a im­pres­são de que a apo­sen­ta­do­ria joga a to­dos nessa úl­tima vala, sem im­por­tar o que fa­ziam an­tes, uma vala rasa e aberta a toda mes­mice: Fu­lano era fun­ci­o­ná­rio, agora é apo­sen­tado; Bel­trano era me­câ­nico, agora é apo­sen­tado; o den­tista, apo­sen­tado; o co­zi­nheiro, apo­sen­tado.

Com seu pai foi di­fe­rente. Na­quele tempo criavam‑se ga­li­nhas no quin­tal, tinha‑se uma horta. O pai, apo­sen­tado, ti­nha es­ses com­pro­mis­sos. E mo­rando na ci­dade pe­quena, en­con­trava os an­ti­gos co­le­gas na praça, co­men­ta­vam as no­tí­cias, perguntavam‑se pe­las fa­mí­lias, quando vi­riam os ne­tos. Os ne­tos, seu pai 12 ti­nha dois, pre­sen­tes do fi­lho mais ve­lho. Ele os es­pe­rava nos fe­ri­a­dões. Ti­nha o que fa­zer, ti­nha sem­pre o que es­pe­rar. Mas José Fran­cisco não tem fi­lhos, e na ci­dade grande os co­le­gas não se co­nhe­cem en­quanto tra­ba­lham, apo­sen­ta­dos é que não têm por que se ver. Es­ses dias, leu no obi­tuá­rio o nome de um de­les. Po­dia ser um homô­nimo. Na ci­dade grande há mui­tos homô­ni­mos, nunca se sabe se uma pes­soa é ela mesma.

Sá­bado pas­sado, de­pois do al­moço, es­ti­rado na ca­deira de
ba­lanço do quin­tal, ele pen­sou em pro­cu­rar al­gum de seus
homô­ni­mos. No en­con­tro, os dois se aper­ta­riam as mãos, di­riam “Pra­zer, José Fran­cisco da Silva”, e te­riam a sen­sa­ção de se co­nhe­ce­rem há muito tempo. Quando acor­dou, no meio da tarde, não pen­sava mais nisso. 

Abriu os olhos e viu a mu­lher. Car­mem re­gava as plan­tas.
Ela não o viu, es­tava de cos­tas. Mesmo de frente, não o ve­ria: conhece‑o por com­pleto, são vinte e cinco anos de ca­sa­mento. Por conhecê‑lo tanto as­sim, tanto quanto ele pró­prio, já não lhe presta aten­ção.

José Fran­cisco fi­cou olhando para a mu­lher até ela se vi­rar.
Fin­giu que acor­dava:

— Que hora é? 

— Três e meia. 

Vol­tou a dor­mir, for­çando. Não ti­nha mais sono. 

Agora, oito da ma­nhã de quarta‑feira, José Fran­cisco está de novo no quin­tal. Car­mem foi tra­ba­lhar. Hoje ele al­mo­çará na casa do ir­mão, que está de ani­ver­sá­rio, al­moço de fa­mí­lia. No fim de se­mana o ir­mão vai com a mu­lher para o li­to­ral, vai en­con­trar os fi­lhos e os ne­tos. A “fa­mí­lia” no al­moço de hoje, por­que os 13 pais mor­re­ram há anos, são ape­nas eles dois. Desde que os pais se fo­ram, o ir­mão, mais ve­lho, tenta mantê‑los uni­dos, telefona‑lhe
se­ma­nal­mente.

Ele está no quin­tal às oito ho­ras da ma­nhã. O quin­tal,
em­bora me­nos verde que o de sua in­fân­cia e com um poço que não serve para nada, é o único lu­gar da casa que o faz re­cor­dar algo bom, onde ha­via mais som­bra, quando ha­via mais fu­turo.

Aproxima‑se do poço. Abre‑o ar­ras­tando a tampa, um peso.
Olha o fundo e per­cebe o quanto é inú­til o que acaba de fa­zer. O poço é seco. Ar­rasta a tampa de volta pen­sando que pre­cisa dar um fu­turo a sua vida, qual­quer um, e sem de­mora.

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