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Farra

domingo, 23 de maio de 2010 Texto de

Se o pró­prio pre­si­dente não está nem aí para a lei, o que se pode es­pe­rar da na­ção de um modo ge­ral? Essa ver­da­deira farra do Lula, que dá de om­bros para a le­gis­la­ção elei­to­ral (já le­vou não sei quan­tas mul­tas), é uma boa mos­tra de como as coi­sas não an­dam tão bem as­sim no Bra­sil.

Hoje, todo mundo bota na ca­beça que o país é ou­tro, que a po­pu­la­ção está em me­lho­res con­di­ções econô­mi­cas etc etc. Claro que não há como ne­gar vá­rios ti­pos de avan­ços. Mas que avan­ços são es­ses e so­bre que ba­ses eles são ava­li­a­dos?

No jor­na­lismo, cos­tu­ma­mos sem­pre pe­dir muito cui­dado aos re­pór­te­res para as ar­ma­di­lhas dos ín­di­ces. “Ho­mi­cí­dios cres­cem 50% em um ano”. No ano pas­sado, fo­ram qua­tro e neste, seis. Sim, em sua fri­eza mar­mó­rea, a in­for­ma­ção está cor­reta. Mas quando pa­ra­mos e ana­li­sa­mos com calma, existe nesse caso um nú­mero muito baixo para ser to­mado como base.

Su­bir de qua­tro para seis ou de 100 para 150 é, em ter­mos per­cen­tu­ais, a mesma coisa. Mas não se pode di­zer o mesmo em re­la­ção aos nú­me­ros ab­so­lu­tos.

No Bra­sil, parece-me, as aná­li­ses pen­dem para essa ar­ma­di­lha. O su­jeito, há dez anos, co­mia uma coxa de frango por se­mana. Agora, come uma coxa e meia. Pronto: está bem me­lhor. Sua ali­men­ta­ção me­lho­rou 50%. 

Desculpem-me, mas não dá para ava­liar uma na­ção pe­las es­mo­las que o go­verno ofe­rece. E di­ante das es­mo­las da­das, o pre­si­dente se acha acima do bem e do mal (aliás, ve­jam a ver­dade da si­tu­a­ção: a pró­pria opo­si­ção – Serra – usou essa mesma ter­mi­no­lo­gia na se­mana pas­sada: Lula está acima do bem e do mal). 

É duro ver uma na­ção de qua­tro por meia coxa de frango a mais. Posso di­zer isso com tran­qui­li­dade por­que fui elei­tor do Lula em vá­rias elei­ções.

E o pior de tudo: fora as mul­tas va­ga­bun­das que são apli­ca­das por causa do des­res­peito do pre­si­dente às leis de seu pró­prio país, a mai­o­ria dos ci­da­dãos acha tudo nor­mal. O Lula pode. Afi­nal de con­tas, ele agora dá uma coxa e meia de frango. 

Equí­vo­cos

Não con­cordo com as pa­la­vras va­zias so­bre os “avan­ços so­ci­ais” do Bra­sil. Volto a me res­guar­dar: não dis­cuto aqui se o su­jeito está co­mendo meia coxa de frango a mais. Pra mim, “avanço so­cial” não é en­cher um pouco mais a bar­riga.

Esse tipo de coisa mais me pa­rece como uma com­pra in­te­li­gente de vo­tos. Claro que as pes­soas que co­miam mal on­tem e pas­sa­ram a co­mer me­nos mal hoje po­dem ser mais fa­cil­mente con­ven­ci­das a vo­tar em quem lhes deu a meia coxa ex­tra.

Uma na­ção não se deve me­dir ape­nas pe­los bo­ca­dos a mais vin­dos do prato de co­mida. É pre­ciso muito mais. Por que não se in­veste tam­bém em edu­ca­ção? Em cul­tura?

Na ver­dade, o que o Lula – ca­ris­má­tico e mun­di­al­mente res­pei­tado – faz hoje é o mesmo que os go­ver­nan­tes do sé­culo pas­sado fa­ziam de ma­neira mais des­ca­rada: dá pão, mas nega à imensa mai­o­ria da so­ci­e­dade o di­reito sa­grado a uma for­ma­ção de­cente que possa lhe ga­ran­tir o acesso à in­for­ma­ção, ao co­nhe­ci­mento e, por fim, à cons­ci­ên­cia crí­tica ca­paz de ava­liar aque­les que a man­têm sob o do­mí­nio de meia coxa de frango a mais.

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