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domingo, 16 de maio de 2010 Texto de

e, de re­pen­te, os olhos se cru­zam.
não ti­nha no­ta­do co­mo ele ti­nha en­ve­lhe­ci­do.
mas não era pe­los ca­be­los bran­cos - pou­cos, mas já vi­sí­veis, mos­tran­do que, sim, o
tem­po pas­sa.
es­ta­va no olhar.
opa­co. in­fe­liz. can­sa­do.
uma pe­na.
os olhos pa­re­ci­am sem ho­ri­zon­te.
per­di­dos na imen­si­dão do na­da que in­sis­tia em afo­gar a vi­são.
fi­ta­vam vai sa­ber o quê. mal res­pon­di­am.
vol­ta e meia, pis­ca­vam. ne­ces­si­da­de fí­si­ca.
ades­tra­dos.
ame­don­tra­dos.
re­ce­o­sos de, no­va­men­te, en­con­trar al­go que fi­zes­se a pu­pi­la, já es­cle­ro­sa­da, di­la­tar.
pa­re­ci­am pre­fe­rir aque­la vi­da de asi­lo.
de chá das cin­co.
olha de no­vo pa­ra ter cer­te­za.
é. ti­nha cer­te­za.
e mais: po­dia ju­rar que já exis­tia um sor­ri­so ali.
um, não. vá­ri­os.
ti­nha um que sur­gia após as gar­ga­lha­das, co­mo prê­mio ao bom hu­mor.
ou­tro, por sua vez, era tí­mi­do, can­to de bo­ca, uti­li­za­do nas si­tu­a­ções de
vergonha/desejo.
usa­va em oca­siões es­pe­ci­ais - que ele não sa­bia quais eram até sur­gi­rem.
e o de bo­ca cheia? fe­li­ci­da­de em es­ta­do bru­to, que­ren­do ser la­pi­da­da por al­guém.
fal­ta­va só al­guém se can­di­da­tar a ou­ri­ves...
ca­dê?
o ga­to co­meu?
ou­tro olhar...
uma pe­na.
a bar­ba es­con­dia aque­la se­re­ni­da­de de ou­tro­ra.
es­con­de o que não era se­gre­do pra nin­guém. ou pa­ra al­guém.
aliás, es­con­de qua­se que to­tal­men­te - uma fa­lha aqui, ou­tra ali e vo­cê des­co­bre uns
pe­ca­dos aco­lá.
es­con­dia de­fi­ni­ti­va­men­te emo­ções que, an­tes, até RG ti­nham.
não gos­tou do que viu.
não mes­mo.
há quan­to tem­po ele es­ta­va as­sim?
quan­do se tor­nou uma ca­ri­ca­tu­ra de tu­do o que te­mia?
quan­do ti­nha vi­ra­do o mons­tro de­bai­xo da ca­ma?
não fa­zia ideia.
via, ago­ra, um ras­cu­nho fei­to de gra­fi­te ti­po so­li­dão.
de­se­nho li­vre. do­lo­ri­do. es­bo­ço sem co­res pri­má­ri­as.
os olha­res se cru­zam.
no exa­to mo­men­to em que se cria o mo­men­to eter­no.
ele não gos­tou do que viu.
não mes­mo.
apa­gou a luz aci­ma do es­pe­lho.
fe­chou a por­ta do quar­to.
e foi so­nhar.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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