Crônicas

Modernos

terça-feira, 4 de maio de 2010 Texto de

Mo­derno 1

De­fi­ni­ti­va­mente, não sou da­que­les que vi­vem com­pa­rando o pas­sado ao pre­sente para fa­lar dos “bons tem­pos”. Acho per­fei­ta­mente pos­sí­vel, mesmo para quem não tira um pé das coi­sas de an­ti­ga­mente, en­cai­xar os “bons tem­pos” aos “tem­pos mo­der­nos”.

Mas uma coisa é certa: é pre­ciso que o mo­derno seja efi­ci­ente, o que não ocorre com frequên­cia. Exem­plo: ao com­prar um mó­vel hoje, você passa por um ver­da­deiro cal­vá­rio até que possa fa­zer uso do pro­duto. Na loja, tudo pa­rece sim­ples e fá­cil. Mas não é bem as­sim.

Você com­pra e os ca­ras vão en­tre­gar em “até cinco dias úteis”. Com jei­ti­nho, dá para acer­tar uma data que não atra­pa­lhe muito seu co­ti­di­ano. Mas não tem hora. Tem pe­ríodo. É das tan­tas às tan­tas. Você, por fa­vor, deve aguar­dar no lo­cal in­di­cado.

Che­gou o mó­vel. Os en­tre­ga­do­res o le­vam até sua re­si­dên­cia. E dei­xam tudo ar­ru­ma­di­nho lá: den­tro da caixa. Aí, vem o se­gundo tempo da en­crenca. Os mon­ta­do­res vão li­gar pra você. Mais cinco dias úteis. 

Às ve­zes, não li­gam. Você, en­tão, te­le­fona para a loja e se queixa. Dali a pouco, vem a res­posta. O mon­ta­dor pode ir tal dia, das tan­tas às tan­tas. Lá vai você esperá-los. De­pois de tudo mon­tado, você faz as con­tas e per­cebe que le­vou dez dias para po­der usar o pro­duto. Não é in­crí­vel?

Meu pri­meiro em­prego com car­teira as­si­nada foi numa loja de mó­veis. O cli­ente com­prava de ma­nhã e re­ce­bia tudo à tarde, e já mon­tado, em casa. Eu po­de­ria di­zer que eram “bons tem­pos”, mas não digo. Por­que não dá para com­pa­rar épo­cas.

Hoje, di­ante do cres­ci­mento do con­sumo e das pró­prias ne­ces­si­da­des do con­su­mi­dor, to­dos os se­to­res es­tão seg­men­ta­dos com o ob­je­tivo de um aten­di­mento pa­dro­ni­zado que leve em conta fa­ci­li­tar o ser­viço e dei­xar o com­pra­dor sa­tis­feito.

Mas, às ve­zes, é pre­ciso pa­rar e re­to­car pro­ce­di­men­tos, o que nem sem­pre é feito nesta época em que mui­tos acham que mo­der­ni­za­ção é tor­nar a vida im­pes­soal, ro­bo­ti­zando o aten­di­mento e dei­xando o cli­ente sem op­ções de sol­tar a voz. 

Mo­derno 2

Ve­jam, por exem­plo, o que acon­tece com as ope­ra­do­ras de te­le­fo­nia. Pas­sei um dia des­ses por uma ex­pe­ri­ên­cia ab­surda.

Re­cebi uma li­ga­ção na qual a moça me fa­lou da pos­si­bi­li­dade de eco­no­mi­zar nas li­ga­ções a longa dis­tân­cia. Para isso, bas­ta­ria usar não o XX, mas o YY. 

Bem, eu disse a ela, se for para gas­tar me­nos, pas­sa­rei a fa­zer isso.

Em cinco mi­nu­tos, re­cebi um tor­pedo da mi­nha ope­ra­dora: “Pa­ra­béns por ad­qui­rir o ser­viço tal por tanto”. Ina­cre­di­tá­vel! Eu não ha­via com­prado qual­quer novo pa­cote.

Pri­meira di­fi­cul­dade: não é pos­sí­vel res­pon­der ao tor­pedo que me foi en­vi­ado pela mi­nha ope­ra­dora!!!

En­trei no site, fiz a re­cla­ma­ção. Re­cebi uma men­sa­gem au­to­má­tica: a mi­nha res­posta se­ria dada em três dias úteis.

In­con­for­mado, li­guei para a ope­ra­dora. Dis­se­ram que iriam ava­liar mi­nha si­tu­a­ção. Mi­nha si­tu­a­ção! Eles de­ve­riam ava­liar a si­tu­a­ção de­les!

Re­su­mindo: de­pois de dez dias do iní­cio de toda a ce­leuma, por e-mail, a ope­ra­dora co­mu­ni­cou que a con­tra­ta­ção do ser­viço es­tava can­ce­lada. Sim, can­ce­lada! Can­ce­la­ram algo que nunca exis­tiu. De todo modo, fora o in­con­ve­ni­ente, na conta se­guinte, a ope­ra­dora co­brou pe­los dias da con­fu­são. Não é in­crí­vel?

Mo­derno 3

Ban­cos. Como é bom ter tudo à mão. Car­tões de dé­bito. Car­tões de cré­dito. Que be­leza, como diz o lo­cu­tor es­por­tivo. Mas eu per­gunto: por que de vez em quando eu pre­ciso pa­gar mico quando a mal­dita ma­qui­ni­nha diz que não está au­to­ri­zado o cré­dito?

O cré­dito está lá. Mas não está au­to­ri­zado. Por que há um ano eu peço para au­men­ta­rem o li­mite de re­ti­rada em caixa ele­trô­nico, há um ano o banco diz que tudo bem, sem pro­ble­mas, e há um ano meu pro­blema per­siste?

Não sei a res­posta, meu banco não sabe e nin­guém, nes­tes tem­pos mo­der­nos, sabe me di­zer. Pa­rece coisa dos Simp­sons, não pa­rece? Uma tra­móia do Bart, tal­vez.

Pra mim, os “bons tem­pos” ainda es­tão por vir. E não será den­tro deste con­ceito de mo­der­ni­dade que está sendo pro­pa­gado por aí.

Mo­derno 4

Só para não dei­xar pas­sar a opor­tu­ni­dade: não dá mais para atu­rar em al­guns pro­gra­mas es­por­ti­vos as com­pa­ra­ções en­tre o fu­te­bol dos “bons tem­pos” e o fu­te­bol de hoje. Que saco!

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