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Passando adiante

sexta-feira, 2 de outubro de 2009 Texto de

Dia des­ses me veio à ca­beça o an­tigo jo­gui­nho Es­cra­vos de Jó, em que as pe­ças são pas­sa­das de par­ceiro em par­ceiro, rit­mada e au­to­ma­ti­ca­mente, en­quanto to­dos can­ta­ro­lam a mú­sica que acom­pa­nha a brin­ca­deira. E as­sim, as mes­mas pe­ças aca­bam vol­tando às mes­mas mãos, num ro­dí­zio in­ter­mi­ná­vel. Lembrei-me dele di­ante da ci­randa de men­sa­gens e ane­xos que di­a­ri­a­mente che­gam às cai­xas de cor­reio de­pois de na­ve­ga­rem pela rede. Lá pe­las tan­tas, as men­sa­gens aca­bam vol­tando à ori­gem e o cír­culo se fe­cha.

E nes­sas idas e vin­das, um fenô­meno sem­pre me chama a aten­ção: os tex­tos ane­xa­dos, su­pos­ta­mente as­si­na­dos por au­to­res co­nhe­ci­dos, mas que cla­ra­mente não têm nada das ca­rac­te­rís­ti­cas des­ses au­to­res. Quando co­mento isso com a pes­soa que me en­ca­mi­nhou o falso texto di­zendo que não se pa­rece em nada com o au­tor ver­da­deiro, re­cebo quase sem­pre a mesma res­posta “Eu tam­bém achei, mas já re­cebi as­sim e pas­sei adi­ante.” Pa­rei de co­men­tar.

Me as­susta a fa­ci­li­dade com que se pas­sam adi­ante in­for­ma­ções, fo­fo­cas, es­cân­da­los e de­nún­cias sem a me­nor crí­tica. Sim­ples­mente por­que a men­sa­gem che­gou a uma caixa de cor­reio, tem que ser pas­sada adi­ante, exa­ta­mente como as pe­ci­nhas dos Es­cra­vos de Jó: au­to­ma­ti­ca­mente. E tome de tex­tos de “Ve­rís­simo”, “Martha Me­dei­ros”, “Ja­bor” e até de “Drum­mond”, na­ve­gando de caixa em caixa, sem con­tar que tex­tos ori­gi­nais volta e meia vêm as­si­na­dos por ou­tros. O mais re­cente que re­cebi cons­tava como sendo de uma co­nhe­cida es­ti­lista, que ofe­re­cia di­cas de boas ma­nei­ras em re­la­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos, mas que fa­riam a pro­fis­si­o­nal se des­ca­be­lar ao ver o que está cir­cu­lando em seu nome. E o mais grave é que mesmo os que sa­bem ou des­con­fiam que o texto não é au­tên­tico, con­ti­nuam passando-o adi­ante, por pura au­to­ma­ção.

Além da le­vi­an­dade im­plí­cita nessa com­pul­são de re­en­vio de tex­tos apó­cri­fos, existe um com­po­nente de cru­el­dade em cer­tos ca­sos. O epi­só­dio re­cente de uma can­tora que se atra­pa­lhou ao can­tar o Hino Na­ci­o­nal bra­si­leiro ou a trá­gica morte do pa­dre que ten­tou voar, sus­penso por ba­lões de ar fo­ram exaus­ti­va­mente ex­plo­ra­dos e iro­ni­za­dos du­rante muito tempo na rede, en­tre ou­tros epi­só­dios de go­za­ção com a des­graça alheia. 

Os pa­pa­razzi vir­tu­ais têm plan­tão per­ma­nente, es­pe­rando o mo­mento exato para dar o bote e di­vul­gar a cal­ci­nha da mo­delo, o beijo do ca­sal vip, o ve­xame não sei de quem e para brin­car com tex­tos alheios. E para isso con­tam com a par­ce­ria en­tu­si­asta dos Es­cra­vos de Jó ci­ber­né­ti­cos.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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