Numa es­quina da ave­nida mais mo­vi­men­tada, às sete da noite, o si­nal fica verde, en­tre­tanto a car­roça do pa­pe­leiro não se mexe. Os mo­to­ris­tas co­me­çam a bu­zi­nar. O pa­pe­leiro agita as ré­deas, faz um som es­qui­sito com a boca, e nada adi­anta. O ca­valo em­pa­cou.

Os mo­to­ris­tas, já numa fila de in­con­tá­veis fa­róis e bu­zi­nas, com o que lhes resta de for­ças de­pois de mais um dia can­sa­tivo e es­tres­sante em seus es­cri­tó­rios e re­par­ti­ções, gri­tam, xin­gam, amal­di­çoam.

O pa­pe­leiro, por sua vez, com o que lhe resta de fô­lego de­pois de mais um dia de sol pe­las ruas da ci­dade, os bra­ços fra­cos de abrir li­xei­ras desde as seis da ma­nhã, desce da car­roça em­pu­nhando um cabo de vas­soura e grita, bate, es­panca.

E o ca­valo, com o que lhe resta de si de­pois de mais um dia que ele nem sabe que pas­sou, com a fome de hoje so­mada à de on­tem e an­te­on­tem que o dei­xam lerdo e con­fuso, ajoelha-se, de olhos fe­cha­dos, como quem reza para mor­rer.

E-mail: lbrasiliense@uol.com.br

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