Impressões

Satisfações ao cubo

terça-feira, 19 de maio de 2009 Texto de

No fu­te­bol, já tem jo­ga­dor di­zendo que da­qui a pouco, ao fa­zer um gol, pre­ci­sará pe­dir des­cul­pas à tor­cida, ao ár­bi­tro, ao mundo… A co­me­mo­ra­ção, en­fim, deve ser con­tida, res­pei­tosa – tal­vez uma con­ti­nên­cia se o go­verno for mi­li­tar, quem sabe uma leve in­cli­na­ção cor­po­ral nas mo­nar­quias, uma ora­ção nas na­ções mais re­li­gi­o­sas…

O fato é que a so­ci­e­dade, em to­dos os seus re­can­tos, exige de ma­neira ab­surda que as pes­soas se en­qua­drem a pro­tó­ti­pos ide­a­li­za­dos. É pre­ciso dar uma sa­tis­fa­ção con­forme a ex­pec­ta­tiva da opi­nião pú­blica. Sem dú­vida, um exa­gero, uma in­va­são à in­di­vi­du­a­li­dade.

Vi por es­tes dias tam­bém uma en­tre­vista do jo­ga­dor Elano no UOL. En­tre ou­tros te­mas, ele pede des­cul­pas por ter feito sexo vir­tual. Nesse caso, a in­dis­cri­ção da in­ter­net envolveu-o em sua com­plexa teia. O atleta da se­le­ção bra­si­leira diz, in­clu­sive, que sua mu­lher o com­pre­en­deu – um ar­gu­mento forte para que a opi­nião pú­blica ab­sorva de modo po­si­tivo a sa­tis­fa­ção dada à so­ci­e­dade.

Parece-me que atu­al­mente inverteu-se o sen­tido de “dar sa­tis­fa­ções”. A co­brança de ex­pli­ca­ções a res­peito de um mo­mento ín­timo, como o do sexo (in­cluindo o vir­tual), é des­pro­por­ci­o­nal, in­justa e ab­surda quando com­pa­rada ao que se co­bra de ho­mens pú­bli­cos que con­ti­nuam fa­zendo o que bem en­ten­dem com nosso di­nheiro e nos­sas ins­ti­tui­ções. Nem des­cul­pas eles pe­dem. O Elano de­ve­ria po­der di­zer o mesmo que disse aquele de­pu­tado: “Es­tou pouco me li­xando”.

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