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Conheça o romance “Parabala”

sábado, 16 de maio de 2009 Texto de

O que está es­crito na ore­lha de Pa­ra­bala

A rus­ti­ci­dade dos per­so­na­gens e as tin­tas cruas com as quais se de­li­neiam Pa­ra­bala po­dem, a prin­cí­pio, su­ge­rir um ro­mance po­li­ci­a­lesco; no má­ximo, uma obra de sus­pense. Po­rém, à me­dida que a nar­ra­tiva se de­sen­rola, percebe-se que a ação é, na ver­dade, um pano de fundo para a ex­pres­são de fi­gu­ras hu­ma­nas, mí­ni­mas e, ao mesmo tempo, sin­gu­la­res, di­ante dos seus me­dos, so­nhos, de­se­jos, suas dú­vi­das, es­pe­ran­ças e ilu­sões.

O cen­tro ner­voso é o rapto de uma jo­vem, branca, rica e bem for­mada, por um tra­ba­lha­dor da fa­zenda de seu pai – ne­gro, po­bre e in­culto. Al­mi­nha e Pa­ra­bala, pi­la­res do ro­mance, re­pre­sen­tam o ga­ti­lho da con­tra­di­ção so­bre a qual a fic­ção se ali­cerça. Eles trans­for­mam a ro­tina de to­dos, pro­vo­cando a em­prei­tada da “caça”, que é sin­te­ti­zada pela ten­ta­tiva de sal­va­ção da jo­vem e pela pu­ni­ção im­pla­cá­vel ao seu rap­tor.

É um rapto po­de­roso. Va­li­dado como re­fe­rên­cia à or­ga­ni­za­ção do ro­mance, di­vide a ação em três tem­pos: an­tes, du­rante e de­pois do feito de Pa­ra­bala. Apre­sen­ta­dos de forma não-linear, es­ses três tem­pos des­ven­dam a psi­co­lo­gia dos per­so­na­gens. Não são se­res ex­tra­or­di­ná­rios, muito pelo con­trá­rio: são su­jei­tos co­muns, que, en­quanto lu­tam pela so­bre­vi­vên­cia, ten­tam im­pri­mir um sen­tido às suas vi­das. A des­cri­ção des­sas vi­das, mer­gu­lha­das em me­mó­rias, pres­sá­gios e im­pres­sões, su­gere um quebra-cabeça ao lei­tor, que é con­vi­dado a com­por peça por peça, até en­con­trar seu prin­cí­pio de co­e­rên­cia: aquele que lhe per­mite agre­gar e or­de­nar esse con­junto de ele­men­tos.

O di­fe­ren­cial de Pa­ra­bala é que a me­di­a­ção do au­tor não pro­voca o dis­tan­ci­a­mento dos per­so­na­gens. Me­di­a­ção tão ho­nesta que ou­torga ao lei­tor o di­reito de jul­gar ou pres­cre­ver suas sen­ten­ças. Pa­ra­bala é ponto de che­gada e ponto de par­tida. A des­peito dos dra­mas fa­mi­li­a­res, dos mis­té­rios sangüi­no­len­tos e das bru­tais per­se­gui­ções, o ro­mance sustenta-se, an­tes de tudo, na in­sis­tente in­ci­ta­ção à busca da fe­li­ci­dade. Tal­vez encerre-se nesse par­ti­cu­lar seu mé­rito mais im­por­tante: en­tre tan­tas mor­tes, re­luz, so­be­rana, a de­fesa in­tran­si­gente da opor­tu­ni­dade que de­ve­mos à vida.

O que está es­crito no verso da capa

Um ho­mem e uma mu­lher. Uma pai­xão im­pos­sí­vel. Um seqües­tro e um mundo de mis­té­rios. Uma exu­be­rante his­tó­ria de amo­res, em­ba­tes, te­mo­res e ilu­sões. No co­meço do sé­culo pas­sado, em meio à rus­ti­ci­dade do campo, um jorro ins­ti­gante de emo­ções vis­ce­rais ex­plode na Fa­zenda Rio Com­prido. É lá que vi­vem Al­mi­nha e Pa­ra­bala, pro­ta­go­nis­tas in­ci­den­tais de uma his­tó­ria sim­ples. E que, por ser sim­ples, res­salta a sen­si­bi­li­dade, a te­na­ci­dade e a gran­deza de uma ver­dade uni­ver­sal: a busca do sig­ni­fi­cado da vida.

Leia aqui o pri­meiro ca­pí­tulo de Pa­ra­bala

DEPOIS
O bafo quente do de­ses­pero

O que se vê não se vê, confunde-se a vi­vên­cia
Diz-se do que é o que não é; sabe-se, mas não
Su­cede aquilo que não nos ocorre
Acon­te­ci­men­tos ca­pi­tu­lam sob olha­res que não olham
Não trans­põem, só pe­cam na su­per­fí­cie da es­sên­cia
Surge-nos a ver­dade, dis­tante, em pos­tas
Ir­re­co­nhe­cí­vel e, en­fim, não re­co­men­dá­vel
Nela es­tão nos­sos olhos, pre­ga­dos à cruz
Da cru­zada ao co­nhe­cido des­co­nhe­cido da ilu­são
Pe­queno uni­verso en­car­nado em nos­sas cos­tas
As cos­tas en­ver­ga­das, ta­ma­nha imen­si­dão
De acon­te­ci­men­tos des­fei­tos
En­can­ta­do­res ver­sos de uma farsa ver­da­deira
Que, no fim, expõe-se ver­dade cruel
É a justa paga por torpe vi­são

Ci­ta­ção de po­eta des­co­nhe­cido, anô­nimo, cego que não sa­bia ler, pe­ram­bu­lava com po­e­mas, po­e­sias, ver­sos sol­tos em seu re­per­tó­rio de pa­la­vras guar­da­das, au­ten­ti­ca­das, so­be­ra­nas na ra­zão de sua emo­ção. Ia e vol­tava, dia des­ses foi e não vol­tou. Veio de onde nin­guém se im­por­tou sa­ber. Não era ele a his­tó­ria, eram dele as his­tó­rias, ras­ga­das feito pi­ca­dão, plan­ta­das como roça, co­lhi­das na palma da mão.
Conta-se que se pas­sou num fe­ve­reiro do co­meço dos mil e no­ve­cen­tos, en­tre os vinte e os trinta, em dias des­ses de o sol es­tar a ver­ter fogo so­bre nos­sas ca­be­ças. Atí­lio Se­ve­rino da Vir­gem Ma­ria das Sete Com­pa­nhias, um ne­gro pos­sante com quase dois me­tros de al­tura, cin­ti­lou de­baixo da bola dou­rada do fir­ma­mento re­lu­zente e en­trou pela porta da frente da casa de Alma Ele­o­nora, a Al­mi­nha, cha­mada as­sim desde cedo na Fa­zenda Rio Com­prido; num ins­tan­te­zi­nho só, num lapso em que se em­pre­en­deu a ori­gem de tudo, o mo­vi­mento co­ti­di­ano da mãe e dos dois pe­que­nos, ali den­tro da es­pa­çosa cons­tru­ção, deu lu­gar a uma qui­e­tude abrupta, mesmo mo­dor­renta, mas de­pois pro­funda, e que, tão logo re­vi­ra­das as suas en­tra­nhas, mar­ca­ria para sem­pre aque­las gen­tes do ba­tente e dos ter­ços, da em­preita e da boa prosa, do jeito bom de se le­var a eito o mundo no peito. 

Nin­guém po­de­ria ima­gi­nar como tudo se deu, mas o certo é que Atí­lio Se­ve­rino, rá­pido como re­lâm­pago que cla­reia os céus em noi­tes es­cu­ras, le­vou con­sigo uma mu­lher ca­sada – bem ca­sada, como se di­zia – e seus dois fi­lhos, um ra­pa­zi­nho ali pe­los seus 3 anos e uma gu­ri­a­zi­nha que ha­via aca­bado de dar os pri­mei­ros pas­sos. Na frente da casa, ha­via uma bem-cuidada pas­sa­gem de char­re­tes e carros-de-boi. À terra do lu­gar, co­berta de uma areia quase branca, gos­tosa para se pi­sar quando des­calço, incorporou-se na­quela ma­nhã ra­di­ante o sig­ni­fi­cado bru­tal dos bu­ra­cos fun­dos ca­va­dos pe­las bo­tas do su­jeito. Por al­guns me­tros, até che­gar onde dois ca­va­los pron­tos pas­ta­vam à es­pera da cor­re­ria que se fa­ria dali a pouco, ele car­re­gou suas pre­sas so­bre o lombo grosso pin­gando suor. Não ha­via na­quele chão, agora la­vado pe­las lá­gri­mas de Dona Fi­lo­mena e pelo ódio do Dou­tor Do­lí­rio, qual­quer marca dos fi­nos e le­ves pés de Al­mi­nha, quanto mais de An­to­ni­nho e Ro­sá­lia, no­mes fa­cul­ta­dos às cri­an­ças em ho­me­na­gem aos bi­sa­vós pa­ter­nos. Do epi­só­dio, res­tou para os ve­lhos ape­nas o tes­te­mu­nho de um dos em­pre­ga­dos da fa­zenda, que ro­çava ali perto uma plan­ta­ção de man­di­oca, mas de tão sim­pló­rio, nem mesmo in­ter­rom­peu o ser­viço para ver o que se pas­sava na casa da pa­troa. Só mesmo quando per­ce­beu que to­dos a pro­cu­ra­vam, e as cri­an­ças, é que se deu conta do epi­só­dio, ali foi que lhe veio à ca­beça o ocor­rido – os dois ca­va­los ar­re­a­dos, os al­for­jes cheios, a con­versa de não se cha­mar aten­ção, a dis­pa­rada, um choro dis­tante.

– Ouvi um cho­ri­nho da me­nina, pa­trão, e foi só. Mon­ta­ria na fa­zenda é que nem ti­ri­rica quando chove, tem tanta que a gente nem que atenta. Nem que bo­tei re­paro em quem era que ca­val­gava.

Do ins­tante do epi­só­dio até a des­co­berta da ou­sa­dia do ne­gro, já mais de três ho­ras ha­viam se pas­sado, tempo de­mais para levar-se a cabo uma per­se­gui­ção pelo meio da­que­les pas­tos ver­des, bem ali­men­ta­dos pe­las chu­vas que ti­nham des­pen­cado em quase to­dos os dias de ja­neiro, ta­pete rús­tico de grama alta, grama de pêlo, dura de se ar­ran­car, fi­a­pos re­sis­ten­tes, que pi­ni­cam quando se deita. O co­nhe­cido Dou­tor Do­lí­rio, ho­mem es­tu­dado de ler li­vros e gente de boa paz, pro­cu­rava, em meio à sur­presa e à in­dig­na­ção, en­saiar muito bem a em­presa. De sú­bito, ocorria-lhe sair ime­di­a­ta­mente à caça, mas, de todo modo, ir para onde sem rumo? 

Os qua­tro can­tos eram dis­tan­tes
Os qua­tro can­tos perdiam-se lá longe
Mata fe­chada, pas­tos aber­tos
Bai­xa­das re­ga­das, ca­mi­nhos in­cer­tos
Ho­ri­zon­tes sem fim

Desde que se fi­xara de vez na re­gião para plan­tar café, há pouco mais de qua­tro dé­ca­das, ele se di­fe­ren­ci­ava da mai­o­ria dos do­nos de ter­ras da vi­zi­nhança. Nas suas an­dan­ças pela fa­zenda de mais de mil al­quei­res – com­prada a preço de ba­nana, des­bra­vada e trans­for­mada num imenso mar verde de café – ou pe­las vi­las mais pró­xi­mas, nunca dei­xava de ser cum­pri­men­tado, por gente miúda ou gente graúda, tanto fa­zia. Boa pes­soa era o que era, dizia-se en­tão. Mas, na­quela hora, a única fi­lha, cri­ada Deus sabe como, nas­cida tão raquí­tica e do­ente, le­vada em­bora, e sor­di­da­mente com o que ha­via para ele de mais pre­ci­oso em seu mag­ní­fico campo ca­fe­eiro – os dois ne­tos -, fi­cava mesmo di­fí­cil se man­ter den­tro de li­mi­tes pon­de­ra­dos para um res­pei­tá­vel se­nhor de 65 anos, ainda mais di­ante da an­gús­tia da mu­lher. Além de tudo, punha-se, in­vo­lun­ta­ri­a­mente, pen­du­rado à es­querda – vol­ta­vam a fustigá-lo, logo na­quela hora, incô­mo­das agu­lha­das nos rins, a ame­aça ine­xo­rá­vel da ve­lha có­lica que de anos em anos o sur­pre­en­dia nos pi­o­res mo­men­tos.

– Que pu­nha­lada a vida me dá, Fi­lo­mena!

Aquela doce se­nhora de pouco mais de seis dé­ca­das nas cos­tas olhava para o ma­rido de­sen­can­tada, detendo-se à tez aquosa re­ver­be­rando sob a quen­tura do mor­maço e ao sem­blante vi­o­len­tado, es­cor­ra­çado, fe­rido mo­ral­mente. Ela nunca o ti­nha visto as­sim, fora de sua ra­zão, des­con­cer­tado por uma si­tu­a­ção inu­si­tada, cruel de­mais para ser ab­sor­vida sem o ba­que vi­go­roso da­quele ins­tante.

Dona Fi­lo­mena, com­pa­nheira do Dou­tor Do­lí­rio há quase qua­renta anos, ti­nha tudo para car­re­gar o peso de tri­bu­la­ções do pas­sado. Ex­pulsa de casa pelo pai, um ho­mem ator­men­tado in­ca­paz de acei­tar a fi­lha grá­vida an­tes do ca­sa­mento, nunca de­mons­trara, nem mesmo ao ma­rido, qual­quer re­volta com o pe­sa­delo que a tres­pas­sou ao conhecê-lo – a po­bre mãe ras­te­jando porta afora, esticando-se para agarrá-la de­pois de ter sido agre­dida pelo ma­rido, foi a úl­tima ima­gem guar­dada de sua fa­mí­lia. Nem essa lem­brança da lon­gín­qua noite chu­vosa, em que foi lan­çada sob hu­mi­lha­ção a um mundo des­co­nhe­cido, ou mesmo o des­gosto de logo ter per­dido, por aque­les pri­mei­ros ca­mi­nhos in­ten­sa­mente tor­tu­o­sos e do­lo­ri­dos, a pri­meira vida que car­re­gava no ven­tre, impediu-a de ser fe­liz. Mais duas vi­das efê­me­ras ainda lhe fo­ram tra­ga­das nos pri­mei­ros anos, até que a es­pe­rança, por um fio, renovou-se com o nas­ci­mento de Al­mi­nha. Mesmo tendo es­tado boa parte de seu ca­sa­mento abra­çada à morte, pre­fe­ria sem­pre se de­bru­çar so­bre a vida, e agra­de­cer pe­las ale­grias que ela traz, mas agora … uma amar­gura pro­funda se aba­tia so­bre ela.

Às ve­zes, perde-se a calma
Âmago re­volto
Re­de­moi­nhos d’alma

Além da­quele seqües­tro sem sen­tido e da vi­são de um ma­rido que ela não ha­via ainda co­nhe­cido, fu­ri­oso e ir­ra­ci­o­nal, caíam como lan­ças bem afi­a­das as re­mi­nis­cên­cias que du­rante lon­gos anos con­se­guira en­clau­su­rar num canto até en­tão ina­ces­sí­vel, mas que agora lhe pa­re­cia tão perto e ame­a­ça­dor. Por al­guns ins­tan­tes, ma­rido e mu­lher se bus­ca­ram, ad­mi­ra­dos, um ao ou­tro e ti­ve­ram a ní­tida im­pres­são de ter en­ve­lhe­cido ali, so­bre a areia em brasa do meio-dia e no olho de um bafo quente de ve­rão, quase o resto de suas vi­das.

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