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Balas, chamadas e outras perdas

domingo, 5 de abril de 2009 Texto de

Abro o ce­lu­lar e lá está o aviso de 4 cha­ma­das per­di­das. Pro­va­vel­mente ami­gos que me pro­cu­ra­ram para con­ver­sar ou sim­ples­mente di­zer que es­tão vi­vos e que­rendo me ou­vir. Ou o fun­ci­o­ná­rio de uma te­lefô­nica, pro­va­vel­mente que­rendo me mos­trar as ma­ra­vi­lhas da em­presa que ele re­pre­senta e de como eu se­ria muito mais fe­liz se mu­dasse mi­nha conta para ela. Não im­porta. Fo­ram cha­ma­das per­di­das e não ouvi os ami­gos… mas es­ca­pei da pro­pa­ganda.

Na mesma hora, chego em casa e es­tra­nho que a obra do fim da rua ainda es­teja em ati­vi­dade, pois dá pra ou­vir o ba­ru­lho alto e seco das pe­dras sendo cor­ta­das e pas­sando pe­los tu­bos que as le­vam para baixo. E eu acre­dito mesmo que o tal ba­ru­lho seco é das pe­dras. To­li­nha… São, isso sim, ti­ros va­ri­a­dos de fu­zis, es­co­pe­tas e es­pin­gar­das, mais o ruído do he­li­cóp­tero da po­lí­cia so­bre­vo­ando meu pré­dio por­que a tal obra do fim da rua foi ape­nas uma etapa da fuga de mar­gi­nais vindo de uma fa­vela de Co­pa­ca­bana e al­can­çando mi­nha rua pela re­serva flo­res­tal (ainda!) do morro dali. E en­tão ouço pelo rá­dio que al­guns tra­fi­can­tes fo­ram mor­tos e ou­tros pre­sos, mas ainda res­ta­ram al­guns fu­gi­ti­vos es­con­di­dos no mato, de­pois de muito ti­ro­teio e de al­gu­mas ba­las per­di­das.

Eu disse per­di­das? E as pes­soas que des­ciam ou su­biam mi­nha la­deira na hora do vamos-ver? E as que es­ta­vam em casa e vi­ram ba­las en­trando por suas ja­ne­las, três ou qua­tro ruas adi­ante da mi­nha? De per­di­das es­sas ba­las não ti­nham nada, fo­ram en­con­tra­das bem ali, no seu muro, na sua pa­rede e no corpo de al­guém que pas­sava des­pre­o­cu­pado e que pôde cons­ta­tar ao vivo a ba­lela das “ba­las per­di­das”.

E aí vejo que as tais cha­ma­das no meu ce­lu­lar eram de ami­gos ou da fa­mí­lia, de­pois de ou­vi­rem que a cena de fa­ro­este lar­ga­mente no­ti­ci­ada nos te­le­jor­nais, dessa vez teve a mi­nha rua como ce­ná­rio, e de­viam es­tar pre­o­cu­pa­dos com a mi­nha se­gu­rança. Isso é que é bom. En­tão não fo­ram cha­ma­das per­di­das. Me al­can­ça­ram por ou­tras vias que não o te­le­fone, che­ga­ram a mim pe­los fios do ca­ri­nho. Pes­soas muito que­ri­das que se pre­o­cu­pam com ami­gos, com a se­gu­rança e o bem-estar de­les no meio de tanta bala su­pos­ta­mente per­dida, já que os do­nos do pe­daço, os ad­mi­nis­tra­do­res (?) da ci­dade e do es­tado, es­ses sim, es­tão per­di­di­nhos da silva. Fa­zer o quê? Com seus pa­lá­cios e car­ros blin­da­dos não há bala que os en­con­tre, eles po­dem se dar ao luxo de fi­car alheios às ta­re­fas de cui­dar de seus ter­ri­tó­rios. Os tra­fi­can­tes e a po­lí­cia que se en­ten­dam. Ou não.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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