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Querem roubar meu jacaré

domingo, 18 de janeiro de 2009 Texto de

É por es­sas e ou­tras que te­nho hor­ror a mo­dismo. Quando surge um, mesmo quem não tem a me­nor afi­ni­dade com ele, se deixa le­var e adota-o para não fi­car de fora da onda. Aliás, é jus­ta­mente so­bre on­das, mas do mar, que quero pôr a boca no trom­bone.

Ouvi no rá­dio que es­tão re­lan­çando a mo­da­li­dade de “pe­gar ja­caré” nas praias do Rio, e que esta mo­da­li­dade não deve ser con­fun­dida com “surfe sem pran­cha”. Para mi­nha sur­presa, es­tão de­fi­nindo o “surfe sem pran­cha” como o ver­da­deiro nome do au­tên­tico ja­caré da mi­nha in­fân­cia, ale­gando que o “ja­caré” era feito com uma tá­bua nas mãos.

Nas mãos de quem, cara-pálida? Ga­ranto que quem in­ven­tou essa de­fi­ni­ção não fre­quen­tava o Ar­po­a­dor nos anos 1950 e 1960, quando nós, a ga­ro­tada da­quela época, des­cía­mos as on­das de peito aberto, só com o corpo des­li­zando nas on­das e ba­tendo os pés. Ah, tam­bém pe­gá­va­mos ja­caré de cos­tas, e ainda dá­va­mos aquela vol­ti­nha de ar­re­mate no fi­nal, quando che­gá­va­mos na areia. Isso era pe­gar ja­caré, fo­ras­tei­ros. E não po­dia ser cha­mado de surfe sem pran­cha sim­ples­mente por­que pran­cha era coisa que en­tão só exis­tia no Ha­vaí.

No tempo em que a Ave­nida Fran­cisco Bhe­ring, no Ar­po­a­dor, não era ex­clu­siva dos car­ros de mo­ra­do­res, mi­nha mãe es­ta­ci­o­nava nosso Dodge 49 no Posto 7 e o salva-vidas já vi­nha ajudá-la a de­sem­bar­car cri­an­ças, babá, bar­raca e boia de pneu, nas quais às ve­zes pas­sá­va­mos da úl­tima pe­dra do Ar­po­a­dor. Mais tarde, já cres­ci­di­nhos, co­me­ça­mos a des­cer nas on­das na au­tên­tica mo­da­li­dade de ja­caré. Sem nada nas mãos!

Não gos­tei nem um pouco dessa apro­pri­a­ção in­dé­bita do ja­cará da mi­nha in­fân­cia e ado­les­cên­cia. Surfe sem pran­cha pode ser mais bo­nito e mo­derno de se di­zer, mas não tra­duz nem de longe aquela sen­sa­ção in­subs­ti­tuí­vel no meio das on­das, no tempo em que pa­ra­fina, pran­cha de fi­bra de vi­dro e ou­tros ape­tre­chos de sur­fis­tas só se­riam usa­dos pela ge­ra­ção se­guinte, e olhe lá. Quero meu ja­caré de volta a seu lu­gar!

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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