Crônicas

Campo de batalha

sexta-feira, 7 de novembro de 2008 Texto de

As épo­cas sem­pre são san­gren­tas. Nos cam­pos de ba­ta­lhas ou nas ruas, as pes­soas mor­rem sem po­der evi­tar. Pode pa­re­cer pa­ra­do­xal, mas faz parte da vida. Não se cos­tuma di­zer “é a vida” quando uma morte é la­men­tada? Essa his­tó­ria de vi­o­lên­cia, na ver­dade, já me traz um ar de in­cer­teza quanto à pos­si­bi­li­dade de seu es­va­zi­a­mento. Os me­ca­nis­mos de com­bate à vi­o­lên­cia esgotam-se, um atrás do ou­tro, di­ante da for­ta­leza que se er­gue em torno de seu nú­cleo sangüi­ná­rio. As hos­tes da paz debelam-se per­di­das em meio a um tempo tur­bu­lento, o tempo de sem­pre.

Isso tudo, para mim, é fato ir­re­me­diá­vel. Pode ha­ver um oá­sis aqui e ou­tro ali, mas o de­serto é vi­go­roso, como nunca visto an­tes por nós, mas cer­ta­mente tes­te­mu­nhado por ou­tros.

O que me in­triga não é a vi­o­lên­cia, mas seus mo­de­los. Houve pe­río­dos da his­tó­ria em que os ho­mens di­gla­di­a­vam com ma­cha­di­nhas e lan­ças, com es­cu­dos e es­pa­das, com fle­chas e ta­ca­pes. San­gra­vam ho­ras e, às ve­zes, dias. Debruçavam-se so­bre a terra e po­diam sen­tir na carne o cheiro de seu úl­timo des­tino.

Mas, como tudo muda, pas­sa­ram a mor­rer de um modo me­nos ás­pero. Mor­rem de bom­bas e nem sa­bem do que mor­re­ram. Caem apa­ga­dos por uma bala per­dida an­tes que pos­sam pen­sar no ver­me­lho do san­gue. Cada vez mais, mor­rem de bo­beira. Não têm mais tempo de des­co­brir o que os le­vou. Não sen­tem mais o cheiro da terra. E, quem sabe, mal a co­nhe­cem. Da­qui a pouco, de tão abrupta e in­sen­sata, esta tal morte se en­fi­ará en­tre nós pe­los olhos. É só mesmo o que falta: ma­tar­mos pelo olhar, pelo ca­mi­nho que nos faz amar.

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