1

Guil­lermo Je­sus pi­sou em Ca­fe­lân­dia numa ma­nhã po­ei­renta de 1926, dia em que a pe­quena ci­dade recém-emancipada co­me­mo­rava a festa de sua pa­dro­eira, Nossa Se­nhora da As­sun­ção. Ha­ve­ria, logo mais à tarde, uma pro­cis­são. Desde a ma­nhã, sob os ro­jões es­po­cando no ar seco de agosto, co­me­ça­vam a che­gar da zona ru­ral pu­nha­dos de si­ti­an­tes e co­lo­nos. O do­mingo pro­me­tia ser su­pimpa, como lem­brou Dona Car­mem Ver­me­lha quase duas dé­ca­das de­pois, em 2 de se­tem­bro de 1945, tam­bém um do­mingo, oca­si­o­nal­mente mar­cado pelo fim da Se­gunda Guerra Mun­dial. Ela se ani­mava en­tão a con­tar a um enig­má­tico fre­guês os acon­te­ci­men­tos da­quele lon­gín­quo e fa­tí­dico dia em que tudo se pas­sou exa­ta­mente aqui, disse ela, den­tro des­tas mes­mas pa­re­des.

– Exa­ta­mente aqui – diz o ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, es­can­ca­rando sua bo­carra sem um dente se­quer –, den­tro des­tas mes­mas pa­re­des.

Bento Pi­rama sus­pende por um ins­tante as ano­ta­ções, mas deixa o te­le­fone ce­lu­lar bem di­ante do Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, cuja voz firme e ar­dida con­ti­nua a ser gra­vada. Bento Pi­rama sorve mais um go­li­nho e per­cebe so­bre o vi­sor do apa­re­lho mi­cro­go­tí­cu­las de sa­liva que es­ca­pam dos lá­bios en­so­pa­dos do dono do bar. 

– Não pense você, Ben­ti­nho, que Dona Car­mem Ver­me­lha era fá­cil no trato. Não, não se­nhor.

Dona Car­mem Ver­me­lha de­via ter em 1945 me­nos de trinta anos, mas o en­du­re­ci­mento de suas li­nhas fa­ci­ais po­dia con­fun­dir qual­quer um. Se da­vam a ela qua­renta anos, ou até mais – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias joga a mão para a frente –, qual­quer um acre­di­tava. Até mais, ele re­pete. Era dura como pe­dra. Mesmo quando a mãe mor­reu. Dura como pe­dra, meu fi­lho. Fe­chou o bar e fi­cou o tempo todo ao lado do cai­xão, mas nem uma gota de lá­grima, nada, nada. Mantém-se ab­sorto por lon­gos se­gun­dos an­tes de re­cu­pe­rar o fio da his­tó­ria. Mas na­quele dia – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias ba­lança a ca­beça afir­ma­ti­va­mente – ela pa­re­ceu re­ju­ve­nes­cer.

Abre suas gen­gi­vas pe­la­das para o jor­na­lista. De­pois, me­ne­ando a ca­beça, diz: re­ju­ve­nes­ceu!

2

Guil­lermo Je­sus en­trou no bar às dez e quinze. Car­men­cita re­teve o mo­mento na ca­beça na­tu­ral­mente. E tam­bém num ca­der­ni­nho mi­nús­culo onde ano­tava quase to­dos os acon­te­ci­men­tos. Car­men­cita o mar­cou bem não ape­nas pe­las lon­gas cos­te­le­tas ou pe­los ca­be­los de­sar­ru­ma­dos ou ainda por seu porte atlé­tico que pa­re­cia fazê-lo ocu­par toda a mesa 7. Mas prin­ci­pal­mente por­que ela es­tava apren­dendo a ver as ho­ras. Tudo en­tão se re­la­ci­o­nava com aquele ob­jeto re­dondo ins­ta­lado na pa­rede bem acima do ba­leiro. Às nove, Pa­pai foi mi­jar. Às nove e vinte, é a vez da Ma­mãe. Quinze para as dez, agora sou eu sen­tada aqui, mi­jando. E sor­ria bai­xi­nho. Cinco para as dez, en­trou o bê­bado no­jento. Dez e um, Ma­mãe deu um ovo co­zido ao Dou­tor Re­belo. Dez e cinco, são três fre­gue­ses de uma só vez no bal­cão, e ou­tros en­trando! Dez e dez, Pa­pai me manda fi­car no canto para não atra­pa­lhar o mo­vi­mento. Dez e quinze, che­gou um ho­mem grande, bo­nito e cheio de po­eira no pa­letó.

– Foi bem as­sim, ga­roto – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias en­cara Bento Pi­rama como se, oc­to­ge­ná­rio que é, me­reça uma salva de ti­ros pela boa me­mó­ria. – Me­lena – grita de re­pente para o bal­cão –, que tal tra­zer mais uma aqui para nosso amigo?

Bento Pi­rama, no en­tanto, en­vol­vido que está pela at­mos­fera wes­ter­ni­ana, per­gunta se ele tem al­gum uís­que. Sim, o ve­lho se le­vanta feito o ra­pa­zi­nho que era na­quela dis­tante data que mar­cou o fim da guerra. Um mi­nuto de­pois, volta com o in­di­ca­dor e o po­le­gar da mão di­reita en­fi­a­dos em dois co­pi­nhos.

– Agora você fa­lou meu idi­oma – pisca sor­ri­dente para Bento Pi­rama.

So­bre a mesa, desce a fa­mo­sís­sima gar­rafa qua­drada de ró­tulo preto com le­tras bran­cas.

– Sa­bia – per­gunta o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias – que já fui cha­mado de Ve­lho Jack?

Bento Pi­rama se di­verte en­quanto as­pira o aroma in­con­fun­dí­vel.

– Tal­vez – diz ao co­mer­ci­ante – caísse me­lhor John. 

Os dois riem, mas logo o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias pa­rece se es­que­cer de si mesmo em al­gum lu­gar per­dido no tempo. 

– Chi­cha­rito Go­mez nunca po­de­ria pre­ver – diz de re­pente.

3

Quando os olhos ver­des e pe­que­nís­si­mos como duas er­vi­lhas de Chi­cha­rito Go­mez pou­sa­ram so­bre o am­bi­ente, Dona Car­mem Ver­me­lha ape­nas olhou para ele de viés, en­tor­tou a boca, des­con­si­de­rou uma pos­sí­vel se­me­lhança do pas­sado que a tres­pas­sou feito um re­lâm­pago, e disse ao en­tão ra­pa­zi­nho Te­otô­nio que de­via ser um des­ses pir­ra­lhos me­ti­dos a besta que che­gam a Ca­fe­lân­dia de vez em quando. Mas em pou­cos mi­nu­tos Chi­cha­rito Go­mez vi­rou o jogo para si, mostrando-se sim­pá­tico en­quanto pe­dia o san­duí­che e a cer­veja.

– Ela até dei­xou es­ca­par um ti­qui­nho de ad­mi­ra­ção – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias apro­xima no ar o in­di­ca­dor do po­le­gar, rindo-se com a boca es­cura atrás das gen­gi­vas quei­mando com o uís­que.

Ah, diz a Bento Pi­rama, era uma mu­lher e tanto, você pre­ci­sava ver, Ben­ti­nho. Sabe por que a cha­ma­vam de Ver­me­lha? Põe-se sé­rio para di­zer bai­xi­nho que era co­mu­nista. Isto mesmo! Mas o caso, meu fi­lho, é que o Chi­ca­rito Go­mez es­tava bem ali, e o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias aponta para uma mesa va­zia co­lada à pa­rede atrás do jor­na­lista. Sim, ali mesmo, em­baixo da­quele qua­dro com a loira fa­zendo pro­pa­ganda da cer­veja, bem ali. A se­nhora é a dona do lu­gar? A per­gunta de Chi­cha­rito Go­mez pe­gou Dona Car­mem Ver­me­lha de sur­presa. O Ve­lho Te­otô­nio ar­re­gala os olhos para o jor­na­lista. Ca­ra­lho, Ben­ti­nho, quem não sa­bia que a Dona Car­mem Ver­me­lha era a dona do lu­gar?

– A ci­dade in­teira sa­bia – ar­risca Bento Pi­rama, apro­vei­tando para dar um trago.

– A ci­dade in­teira? – zomba o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias. – A re­gião toda, isso sim. O es­tado todo e sei lá mais o quê. 

Dona Car­mem Ver­me­lha aca­bou de en­tre­gar as be­bi­das na mesa ao lado, ano­tou o pe­dido di­ante dos olhos dos fre­gue­ses, como fa­zia ques­tão, e só en­tão foi dar aten­ção a Chi­cha­rito Go­mez.

– Pois quem ha­ve­ria de ser?

4

Das dez e quinze à uma e meia da tarde, Guil­lermo Je­sus to­mou so­zi­nho qua­tro gar­ra­fas de cer­veja e cinco do­ses de ca­chaça. E não le­van­tou uma só vez para mi­jar, ano­tou Car­men­cita em seu ca­der­ni­nho. Se­ria inú­til des­cre­ver as vá­rias pá­gi­nas com ovos, sal­si­chas, pães, frios e car­nes, qui­tu­tes que Ma­mãe fa­zia como nin­guém, su­pim­pas. O que fi­cou no ca­der­ni­nho, no fim das con­tas e como um ponto fi­nal a tan­tas ano­ta­ções so­bre ho­ras e co­mi­das, fo­ram aque­las mar­qui­nhas ver­me­lhas que, abis­mada, Car­men­cita con­cluiu que ja­mais po­de­riam ter saído de seu lá­pis preto. 

– Ela sen­tou ali – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias fez as­sim com a ca­beça –, bem na frente do Chi­cha­rito Go­mez.

Na ver­dade, só de­pois é que to­dos sou­be­ram quem era Chi­cha­rito, que se tra­tava de Chi­cha­rito Go­mez. Dona Car­mem Ver­me­lha olhou ao seu re­dor e viu que to­dos os fre­gue­ses es­ta­vam bem aten­di­dos, fez um si­nal com a ca­beça para Ma­ria Cur­velo, que ela fi­casse de olho nas me­sas, e na­que­les mi­nu­tos se­guin­tes en­ca­rou Chi­cha­rito Go­mez e per­gun­tou sem mais de­lon­gas o que um ho­mem tão bem ves­tido, in­cluindo aquela gra­vata cheia de flo­re­zi­nhas azuis, es­tava fa­zendo num co­mér­cio tão sim­pló­rio. Dona Car­mem Ver­me­lha? Foi o que Chi­cha­rito Go­mez per­gun­tou en­quanto mas­ti­gava o san­duí­che.

– Eu mesma – com os olhos lam­bu­za­dos de uma agui­nha fina, o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias en­grossa a voz para imi­tar a dis­tante pa­troa. – Eu es­tava bem ali – vira-se com di­fi­cul­dade e in­dica a porta que, ao lado do ba­nheiro, dá para o de­pó­sito dos fun­dos.

Dona Car­mem Ver­me­lha ves­tia sem­pre um rou­pão es­curo, com lar­gos bol­sos de am­bos os la­dos, de onde ti­rava a ca­der­neta para ano­tar os pe­di­dos dos cli­en­tes ou o lenço para en­xu­gar a testa nos dias mais quen­tes. Era lá tam­bém que guar­dava o di­nheiro do dia. 

– Era isso que to­dos nós sa­bía­mos – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, der­ru­bando na gar­ganta o der­ra­deiro go­li­nho de seu copo. 

5

Como era muito de­voto de Nossa Se­nhora da As­sun­ção, e a pro­cis­são sai­ria às três, Pa­pai dei­xou o bar por um tempo para bei­jar os pés da santa ainda den­tro da igreja. Duas e cinco. Foi quando Car­men­cita teve o que ano­tar em seu ca­der­ni­nho: ele le­van­tou.

– Bem atrás de você – disse Dona Car­mem Ver­me­lha a Chi­cha­rito Go­mez.

Chi­cha­rito Go­mez lim­pou os lá­bios apa­ren­tando certo des­dém e, como se fosse a con­tra­gosto, olhou para trás e viu o bal­cão com Ma­ria Cur­velo es­fre­gando um pano en­car­dido so­bre a pe­dra. Dona Car­mem Ver­me­lha já ha­via nar­rado toda a cena. Guil­lermo Je­sus já ti­nha se di­ri­gido len­ta­mente ao bal­cão, onde Ma­mãe ocu­pava o lu­gar que agora era de Ma­ria Cur­velo. Mais uma, ele disse a Ma­mãe, e Ma­mãe serviu-lhe mais uma dose. En­tão, quando Ma­mãe co­me­çava a se vi­rar com a gar­rafa, Guil­lermo Je­sus a se­gu­rou pelo braço. 

– Dona Car­mem Ver­me­lha – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias – er­gueu o pu­nho e o pu­xou de volta num tranco di­ante do na­riz do Chi­cha­rito Go­mez.

O Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias gar­ga­lha por­que se lem­bra do so­bres­salto de Chi­cha­rito Go­mez.

– Ele se jo­gou para trás e quase caiu da ca­deira – con­ti­nua a mos­trar as gen­gi­vas cor de rosa. – E acho que foi bem aí – de re­pente o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias freia todo o ím­peto do sor­riso, e seus olhos se tor­nam frios. 

– O que é que foi bem aí, Seu Te­otô­nio? – Bento Pi­rama seca o co­pi­nho.

– Eu acho – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias – que bem aí ela per­ce­beu que dava pra ir adi­ante.
Bento Pi­rama se­gura a gar­rafa e de­va­gar tomba uma dose para ele e ou­tra para o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, neste mo­mento ab­sorto em sua me­mó­ria, as gen­gi­vas in­tei­ra­mente ex­pos­tas, as pu­pi­las vi­gi­lan­tes, as so­bran­ce­lhas er­gui­das, as mãos en­tre­la­ça­das e trê­mu­las so­bre a mesa, a gola da ca­misa sal­tando su­til­mente no lado es­querdo do peito.

6

Se­gundo o ca­der­ni­nho de Car­men­cita, às duas e dez não ha­via nin­guém no bal­cão. Nem Pa­pai nem Ma­mãe. Ele tam­bém não es­tava mais na mesa 7. Ou em lu­gar al­gum do bar. Só um em­pre­gado cor­ria para ser­vir e co­brar. Cri­an­ças. Como se va­gasse até duas dé­ca­das atrás, Dona Car­mem Ver­me­lha des­pe­jou essa pa­la­vra so­bre a mesa, onde a gar­rafa de cer­veja es­tava pela me­tade e o san­duí­che ti­nha sido mor­dido ape­nas duas ou três ve­zes pelo fre­guês. Cri­an­ças, re­pe­tiu ela, às ve­zes pas­sam pelo tempo como se ele não exis­tisse. Ou, agora olhou fir­me­mente para Chi­cha­rito Go­mez, tal­vez seja o tempo que passa por elas como se elas não exis­tis­sem.

– Eu es­tava bem ali – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias se vira ou­tra vez com di­fi­cul­dade para in­di­car a porta que, ao lado do ba­nheiro, dá para o de­pó­sito dos fun­dos.

– Mas ela con­tava es­sas coi­sas ao Chi­cha­rito por quê? – Bento Pi­rama in­ter­rompe o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, tal­vez ape­nas para sor­ver com sos­sego mais uma dose. 

– Chi­cha­rito Go­mez – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias pa­rece acor­dar de um sono an­tigo – não era flor que se chei­rasse, fi­lho. Não era, não! 

Como ape­nas mais um cu­ri­oso de ou­tras ban­das que es­ti­vesse pas­sando por ali, Chi­cha­rito Go­mez cu­tu­cava Dona Car­mem Ver­me­lha so­bre o caso de 1926. O que acon­te­ceu de ver­dade? A se­nhora es­tava lá re­al­mente? É mesmo a fi­lha? Foi mesmo as­sim as­sado? Sim, foi as­sim as­sado, Dona Car­mem Ver­me­lha ia des­fi­ando a his­tó­ria, feito uma pro­cis­são que vai pas­sando com va­gar, como se hou­vesse um bom mo­tivo para acompanhá-la.

– Não é à toa que ti­nha um bar – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias se er­gue, põe as mãos nas cos­tas e se es­tica todo, um se­gundo de­pois está sen­tado no­va­mente, pega a gar­rafa pelo gar­galo e des­peja mais uís­que nos dois co­pi­nhos. A te­le­vi­são pen­du­rada na pa­rede, bem acima do ve­lho ba­leiro, no lu­gar do re­ló­gio, diz que são mais de não sei quan­tos mor­tos em Pa­ris. – Mor­tos, mor­tos, mor­tos – re­pete o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias. – Não in­te­ressa o nú­mero – bal­bu­cia. – É como a boi­ada quando es­toura, pode ser uma rês e de­pois ou­tra e de­pois mais ou­tra, ou meia dú­zia de uma só vez, ou du­zen­tas, o fato é que a boi­ada es­tou­rou. É como o bife na Sexta Feira Santa, pode ser um, dois ou du­zen­tos, o fato, meu fi­lho, é que você co­meu a carne. 

7

Fal­tando vinte para as três, Pa­pai vol­tou. Já ti­nha pouca gente. Per­gun­tou ao em­pre­gado onde es­tava ma­mãe. O em­pre­gado não sa­bia. Car­men­cita me­nos ainda. O tempo ha­via pas­sado por ela como se ela não exis­tisse. Pa­pai fez al­guns cál­cu­los já com o lá­pis atrás da ore­lha e en­tão… Dona Car­mem Ver­me­lha he­si­tou por um ins­tante en­quanto olhava den­tro dos olhos aper­ta­dos de Chi­cha­rito Go­mez.

– Eu es­tava bem ali – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, e no­va­mente gira o tronco com di­fi­cul­dade para in­di­car a porta que, ao lado do ba­nheiro, dá para o de­pó­sito dos fun­dos. – Bem ali – sorri com suas gen­gi­vas tris­tes na di­re­ção de Bento Pi­rama. – No dia do fim da guerra, bem nesse dia, mas a gente bem sabe que as guer­ras nunca aca­bam.

Por que o se­nhor me faz tan­tas per­gun­tas, Dona Car­mem Ver­me­lha es­tava mais ver­me­lha do que nunca, mo­men­ta­ne­a­mente pa­re­cia fora de si, em­bora isso fosse im­pro­vá­vel.

– Era uma mu­lher for­mi­dá­vel – re­lem­bra o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, to­mado por uma nos­tal­gia que salta aos olhos. – Nin­guém ja­mais po­dia der­ru­bar aquela mu­lher, ga­roto – es­tica o in­di­ca­dor até bem perto de Bento Pi­rama. – Nin­guém!

Chi­cha­rito Go­mez en­xu­gou a boca e de­pois se ajei­tou na ca­deira com certa fleuma. Es­tava, afi­nal, di­ante de uma mu­lher. Uma po­bre mu­lher cujo ves­tido fe­dia a óleo quei­mado e cu­jas mãos de ve­lha ti­nham a pele ju­di­ada pela água e pelo sa­bão, os de­dos com pe­que­nos ta­lhos fei­tos com a faca de cor­tar carne, as unhas bran­cas e sem vida como pei­xes mor­tos. Mas, en­fim, disse Chi­cha­rito Go­mez, é a se­nhora, é a fi­lha…

8

O bar já es­tava fe­chado quando uma gar­rafa caiu lá nos fun­dos, e Pa­pai ti­rou os olhos dos pa­péis so­bre o bal­cão, e Car­men­cita não soube que ho­ras eram. Encolheu-se no can­ti­nho onde fa­zia suas ano­ta­ções e de onde po­dia avis­tar o re­ló­gio. Mas àquela al­tura, a única coisa que via eram as per­nas do Pa­pai se mo­ve­rem em di­re­ção aos fun­dos, e ela fez das per­nas do Pa­pai as suas per­nas, agarrando-se ima­gi­na­ri­a­mente a ele e, como se uma força a le­vasse adi­ante, era atrás do Pa­pai que Car­men­cita ia. Ela en­ten­deu muito pouco quando, de­pois do cor­re­dor que le­vava ao de­pó­sito, Pa­pai pa­rou su­bi­ta­mente, e sua ca­be­ci­nha, sem que ela ti­vesse qual­quer con­trole, meteu-se por en­tre as per­nas das cal­ças dele. 

Car­men­cita viu Ma­mãe dei­tada so­bre as cai­xas, o ves­tido aberto, sua res­pi­ra­ção era como a de um pas­sa­ri­nho que se bate con­tra a pa­rede e cai em se­guida. Aquele ho­mem que ti­nha en­trado no bar às dez e quinze sor­ria, en­tre amargo e or­gu­lhoso, para o lado de Pa­pai ao mesmo tempo em que abo­to­ava a bra­gui­lha. É isto, disse Guil­lermo Je­sus a Pa­pai, você sabe como são as coi­sas do co­ra­ção, ho­mem! É mais forte do que a gente! E le­vou o pu­nho ao peito. Ma­mãe re­cu­pe­rou o fô­lego, ergueu-se a meio corpo, abo­toou o ves­tido com pressa. Ela não viu Car­men­cita, que ha­via sido em­pur­rada pelo Pa­pai como um pe­daço de al­go­dão para trás das cai­xas. É mais forte do que a gente, Ma­mãe re­pe­tiu ao Pa­pai, e por uma pe­quena fresta Car­men­cita viu seu olhar in­fle­xí­vel.

No mo­mento em que Pa­pai en­fiou a mão por trás da cin­tura, Guil­lermo Je­sus deu um salto na di­re­ção do pa­letó, pen­du­rado num lu­gar qual­quer ao seu lado. Car­men­cita acom­pa­nhou o risco que os olhos ver­dís­si­mos do ho­mem dei­xa­ram no lu­gar som­brio. An­tes que Guil­lermo Je­sus pu­desse che­gar ao seu ob­je­tivo, Pa­pai ati­rou.

– Eu es­tava bem ali – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, mas agora, em vez de se vi­rar, ape­nas faz um vago mo­vi­mento com a mão por trás do pes­coço in­di­cando a porta do de­pó­sito dos fun­dos. – Ela con­tou tudo a Chi­cha­rito Go­mez desse modo, sem ti­rar nem pôr, sua voz era de uma fir­meza ab­so­luta e ao mesmo tempo eu sen­tia que ela po­dia cho­rar a qual­quer ins­tante, você en­tende, Ben­ti­nho? – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias tam­bém de­mons­tra fir­meza ab­so­luta, e ao mesmo tempo Bento Pi­rama sente que ele pode cho­rar a qual­quer ins­tante.

9

En­tão é a ver­dade, disse Chi­cha­rito Go­mez, com um sor­riso frio e me­do­nho en­fi­ado na cara. A se­nhora sabe, ele per­gun­tou a Dona Car­mem Ver­me­lha, quanto tempo eu le­vei para me de­ci­dir a isto? Pe­las mi­nhas con­tas, res­pon­deu Dona Car­mem Ver­me­lha, deve ter le­vado quase vinte anos, não foi? Dona Car­mem Ver­me­lha es­ti­cou o braço e des­pe­jou o resto da cer­veja no copo de Chi­cha­rito Go­mez. Chi­cha­rito Go­mez a en­ca­rava de bra­ços cru­za­dos e quando se de­ci­diu a pe­gar o copo, Dona Car­mem Ver­me­lha se adi­an­tou e ela mesma, de uma só vez, vi­rou a be­bida em duas go­la­das. Em Ca­fe­lân­dia, disse a ele, não gos­ta­mos de ho­mens ler­dos.

– Essa não foi su­pimpa? – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias solta sua gar­ga­lhada, que atra­vessa a ge­leia rosa de suas gen­gi­vas e ir­rompe pela boca afora cheia de mi­cro­bor­bu­lhas de sa­liva, mis­tu­rada a um ar­roto in­ve­ro­sí­mel que faz Bento Pi­rama le­var um pe­queno susto ao ima­gi­nar seu en­tre­vis­tado sendo ví­tima de um ata­que qual­quer vindo lá de den­tro de um des­ses es­tra­nhos, inex­pli­cá­veis e sur­pre­en­den­tes ór­gãos hu­ma­nos.

Me­lena está rindo atrás do bal­cão, Bento Pi­rama se re­cu­pera do so­bres­salto e o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias se lem­bra exa­ta­mente do ins­tante em que viu Dona Car­mem Ver­me­lha apoiar as duas mãos so­bre a mesa, lembra-se tam­bém que Chi­cha­rito Go­mez des­cru­zou os bra­ços como quem vai dar um abraço numa cri­ança que se apro­xima, tão pouco caso fa­zia de ha­bi­li­da­des des­co­nhe­ci­das em sua an­ta­go­nista.

– O caso – diz o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias – é que até o fim Dona Car­mem Ver­me­lha nunca soube se era o tempo que pas­sava por ela ou se era ela quem pas­sava pelo tempo. 

En­cos­tado bem ali, no ba­tente da porta que dá para o de­pó­sito dos fun­dos, o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, que ainda não era Ve­lho nem nada, só teve tempo de ver que Dona Car­mem Ver­me­lha já ti­nha se er­guido, e en­quanto se er­guia me­tia as mãos nos lar­gos bol­sos, e de lá, de um dos lar­gos bol­sos, sa­cava uma gar­ru­cha de dois ca­nos para en­cher de chumbo Chi­cha­rito Go­mez, cuja mão di­reita mal che­gou perto da cinta onde pren­dia seu ve­lho Colt de es­ti­ma­ção.

10

Em meio ao ronco dos fo­gos que anun­ci­a­vam a saída da pro­cis­são, Pa­pai ati­rou em si mesmo. Car­men­cita se­gu­rava nas mãos o ca­der­ni­nho com to­das as ho­ras e acon­te­ci­men­tos dos úl­ti­mos dias. Mas exa­ta­mente aquele, que se­ria o epi­só­dio cru­cial de sua vida, fi­cou sem re­gis­tro. A não ser pe­las go­tas de san­gue que es­pir­ra­ram no pa­pel de­pois de vi­a­ja­rem pelo es­pesso ar in­tra­du­zí­vel do de­pó­sito dos fun­dos. Guil­lermo Je­sus, es­tu­pe­fato, es­tava caído so­bre o pa­letó, ainda sem to­car na arma, os olhos ver­des es­bu­ga­lha­dos. Ouvia-se um grito surdo de Ma­mãe pe­ne­trar por to­dos os po­ros das cai­xas de ma­deira que guar­da­vam gar­ra­fas, la­tas e mer­ca­do­rias. Aos pou­cos, Guil­lermo Je­sus se le­van­tou e, pa­re­cendo ainda não acre­di­tar na ca­beça des­pe­da­çada à sua frente, olhou para Ma­mãe feito um da­que­les pe­din­tes que vía­mos na porta do nosso bar. 

– Tudo isso bem aqui – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias vira o úl­timo gole do uís­que e gira o corpo na di­re­ção da porta do de­pó­sito dos fun­dos. Sua voz agora não tem mais a fir­meza de an­tes. É ape­nas um ruído in­certo, pode ser o co­a­xar de um sa­pi­nho jo­vem ou o pio de uma ja­ra­cuçu an­tiga.

De­pois de um tempo que Car­men­cita não soube cal­cu­lar, Ma­mãe con­se­guiu dar cinco pas­sos até o corpo de Pa­pai. Guil­lermo Je­sus to­mou a mesma ati­tude, indo ao en­con­tro dos om­bros de Ma­mãe. O que va­mos fa­zer agora, Car­men­cita lem­bra de Ma­mãe per­gun­tando a Guil­lermo Je­sus, o que va­mos fa­zer? Mas Guil­lermo Je­sus ape­nas ba­lan­çava a ca­beça sem sa­ber o que di­zer.

Al­guns se­gun­dos trans­cor­re­ram an­tes que Guil­lermo Je­sus dis­sesse a Ma­mãe que va­mos em­bora de Ca­fe­lân­dia para sem­pre, saí­mos en­quanto corre a pro­cis­são, to­dos fi­ca­rão bê­ba­dos até ama­nhã, e a essa al­tura já es­ta­re­mos longe da­qui, você sabe que sou ou­tro ho­mem, por sua causa eu mu­dei de vida, tam­bém te­nho um fi­lho para tra­tar: Chi­cha­rito. Mas res­tava a Ma­mãe uma per­gunta: e Car­men­cita? Car­men­cita, em­pu­nhando com as duas mãos o pró­prio re­vól­ver de Guil­lermo Je­sus Go­mez, es­tava bem atrás de­les.

– Pre­ciso di­zer al­guma coisa mais? – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias, por sua vez, em­pu­nha o co­pi­nho de Jack Daniel’s e o vira de uma ta­la­gada só. Levanta-se e vai até a porta. – Veja esta ci­dade, ga­roto, veja es­tas pes­soas cor­rendo para com­prar bo­ba­gens sem en­ten­der que o que re­al­mente in­te­ressa não se pode com­prar.

– Me diz uma coisa – Bento Pi­rama se es­pre­guiça an­tes de en­cher o copo com o res­ti­nho da gar­rafa: – a Car­men­cita, bom, a Dona Car­mem Ver­me­lha, se é que o se­nhor me en­tende, o se­nhor e ela…

– Não, não – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias solta mais uma de suas gar­ga­lha­das gen­gi­ves­cas –, nada disso. In­fe­liz­mente, nada disso – senta com os bra­ços cru­za­dos di­ante do jor­na­lista, olhando para um ponto qual­quer atra­vés da gar­rafa va­zia.

– Mas ela não… – Bento Pi­rama mar­tela os cinco de­dos no ar. – Ela mor­reu vir­gem?

– Bom, ga­roto, acho me­lhor que você faça essa per­gunta a ela – o Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias er­gue o queixo na di­re­ção da pa­rede atrás da re­doma de vi­dro que cir­cunda o caixa com chi­cle­tes, cho­co­la­tes e as ima­gens bi­so­nhas dos ma­ços de ci­gar­ros.

Su­bi­ta­mente as­som­brado, Bento Pi­rama sente que agora é a gola da pró­pria ca­misa que treme acom­pa­nhando as ba­ti­das ace­le­ra­das do co­ra­ção, quase per­gunta in­ge­nu­a­mente se Dona Car­mem Ver­me­lha ainda está viva, mas num úl­timo es­forço vira a ca­beça para o rumo in­di­cado pelo Ve­lho Te­otô­nio Três Ma­rias. Ao lado do qua­dro de Nossa Se­nhora da As­sun­ção, avista, feito um tro­féu ou a fo­to­gra­fia do pre­si­dente da re­pú­blica, a mol­dura en­vi­dra­çada que sus­tenta a fa­mosa e res­pei­tada gar­ru­cha de dois ca­nos.

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