Contos

Como a gente, não tinha igual

terça-feira, 29 de setembro de 2015 Texto de

An­tes que Lola lhe dis­sesse qual­quer pa­la­vra, ele com­pre­en­deu. Não sabe ex­pli­car se foi pura in­tui­ção, se foi o re­sul­tado de re­fle­xos apre­en­di­dos da fi­si­o­no­mia pe­sada da men­sa­geira ou, até, se foi algo tão pre­vi­sí­vel que ele pró­prio já sa­bia an­tes mesmo que acon­te­cesse. Num ato de de­ses­pero, ten­tou re­cons­truir os úl­ti­mos dias, tal­vez para enfiar-se num me­lo­drama ca­paz de esvaziá-lo da an­gús­tia que su­biu pela gar­ganta feito um ar­roto amargo.

De ime­di­ato, viu que As­sunta lhe sor­ria a par­tir de uma ima­gem in­certa ser­pen­te­ando no am­bi­ente bem à sua frente ou, de­certo, fi­xada em sua re­tina. Sor­ria como to­dos os dias em que se en­con­tra­vam e dei­ta­vam so­bre a roupa de cama ver­me­lha que ela subs­ti­tuía por ou­tra da mesma cor e de­pois por mais ou­tra e as­sim por di­ante no de­cor­rer de seu can­sa­tivo co­ti­di­ano no ho­tel­zi­nho do cen­tro. Viu-a bem perto dele, os lá­bios ainda com o ba­tom in­tacto ro­ça­vam de leve seu na­riz, Bem na pon­ti­nha, meu lindo! Teve von­tade de cho­rar, Por quê? Por quê? De­sa­bou na pol­trona da sa­li­nha ao lado da re­cep­ção.

Ela dei­xou um bi­lhete. Como que ame­dron­tada, Lola es­ti­cou o braço para en­tre­gar o pe­daço de pa­pel do­brado e re­do­brado, preso nas bor­das por um pe­daço de du­rex que co­me­çava a soltar-se. Lola man­teve o braço no ar até que ele reu­niu co­ra­gem. Eu já sei, Lola, eu já sei de tudo. Fui uma besta qua­drada, puta merda! Levantou-se brus­ca­mente, Lola deu um passo atrás: As­sunta sem­pre fa­lava que ia com você, sem­pre!

Ia co­migo, ia com o ja­po­ne­si­nho do jor­nal, ia com o play­boy da moto, ia com a puta que pa­riu, Lola! Percebeu-se gri­tando de re­pente, não para Lola nem para a ima­gem de As­sunta que agora lhe es­ca­pava, mas para si mesmo. Da re­cep­ção, veio um O que foi, Lola? Tá tudo bem, ela foi até a porta, tá tudo bem. Você não vai ler? Virou-se para ele apres­sa­da­mente, como se tam­bém aguar­dasse, ela mesma, uma men­sa­gem im­por­tante da amiga, um re­cado ina­diá­vel, uma pa­la­vra que lhe dis­sesse res­peito.

Ainda on­tem ela me fa­lou que como a gente, não ti­nha igual, ele pen­sou em voz alta en­quanto en­tre os de­dos fe­cha­dos da mão di­reita amas­sava e re­a­mas­sava o pa­pel. E não ti­nha mesmo, sor­riu com amar­gura, como se ti­vesse des­co­berto uma pa­la­vra de con­solo. Mas sabe, Lola? Agora es­tava sen­tado ou­tra vez, os co­to­ve­los apoi­a­dos nos jo­e­lhos, o tronco en­ver­gado à frente, se­gu­rando o bi­lhete pe­las bei­ra­das. No fundo, a gente sa­bia que ia aca­bar as­sim. Um bunda mole, isso é o que eu fui, As­sun­ti­nha. Sor­riu com ter­nura para o bi­lhete fe­chado. De­pois, para Lola. As­sun­ti­nha, re­pe­tiu en­tre den­tes, com uma dor feito quando se morde a lín­gua.

Pe­diu para usar o ba­nheiro. Jo­gou o pa­pel sem abrir no vaso sa­ni­tá­rio, mi­jou em cima e deu des­carga.

No cano de es­goto que, por baixo do as­falto, vira numa es­quina da Rua Au­gusta, bem ao lado do ho­tel­zi­nho dis­creto, uma ra­ta­zana ar­rasta com o rabo um pe­daço de du­rex e zanza so­bre Eu de­cidi que va­mos ser fe­li­zes, meu lindo, te es­pero no posto da Du­tra, no Km tal. 

Palavras-chave

Compartilhe